Workshop aborda lavanderia sustentável do processo ao pensamento criativo

Tratando-se do incrível universo das lavanderias de jeans, o que poderia ser apresentado como conteúdo pertinente, considerando um público formado por profissionais diretamente ou indiretamente ligados ao setor? Foi com essa reflexão inicial, que Silfarley Peterli, iniciou a curadoria de assuntos pertinentes ao setor denim, da quarta edição do Denim Meeting. Em um layout informal, dividido em mesas redondas ideais para a formação de um networking intuitivo e natural, o diretor da Canaã Customização abriu a programação especifica do evento através do Workshop “Lavanderia, a maior aliada para o sucesso da marca”.

Com um layout mais informal induzindo uma participação maior do público Silfarley iniciou a apresentação apresentando a Estilista Giuliana Castelo Branco e o engenheiro químico e ambiental, Stanley Roan Marcos, profissionais que também abordariam o tema.

Ilustrando sua conclusão de que o tema sustentabilidade seria o tópico mais pertinente para a abordagem, o diretor da Canaã apresentou uma síntese editada de 18 minutos do documentário River Blue. O compacto iniciou contextualizando a pequena quantidade de água do planeta, que de fato é potável. Também abordou problemáticas que envolvem as práticas manuais, como o ácido que os trabalhadores respiram enquanto produzem o jeans. François Girbaud, o inventor da lavagem ácida, foi também contemplado nas falas do documentário em toda a sua trajetória: desde a criação das praticas não sustentáveis até a antítese sustentável da própria invenção. O documentário alertou que os químicos despejados pelo beneficiamento do jeans são carcinógenos, pois perturbam o equilíbrio hormonal da vida marinha. Além disso, são persistentes, já que não se decompõem e viajam pelo mundo. Em uma trajetória mais promissora, apresentou a Jeanologia, e seus acabamentos baseados na luz (laser) e no ar (ozônio), e finalizou problematizando o tamanho do desafio que implica a renovação das fábricas, que já possuem  um layout existente montado nos moldes passados.

“As pessoas apoiam o mundo que elas ajudam a criar”, elucidou. “Logo a importância de compreender as mensagens que povoam as ruas, é fundamental”, complementou. A classe A/B, mudou de  13,6 milhões para 23,1 milhões até o ano de 2018. A classe C, de 72,2 para 133,1 milhões e a D/E de 97,4 para 70,8 milhões. Tais dados, de acordo com Silfarley, permitem a visualização do quanto as pessoas estão mais conectadas, tendo mais acesso à informação pela internet, formando uma nova geometria social em formato de losango. Uma velocidade que também eleva a importância do ‘timing’ entre uma ideia e sua execução. “Alguém, ou alguma empresa, ou mesmo um grupo de WhatsApp vai criar alguma coisa que vai se alastrar na velocidade da luz”, comentou, exemplificando o quanto as mudanças de paradigma da sua lavanderia, levaram alguns anos no inicio, mas se reverteram atualmente em agilidade. “Para quem está comprando o ozônio, demora para aprender.” “Trabalhávamos 24 horas para lavar uma quantidade de 100 peças. Com as novas tecnologias reduzimos este tempo para oito”, contou.

Ilustrando suas falas, apresentou a mesma calça, com os mesmos efeitos, em um quadro comparativo entre os métodos antigos e os mais sustentáveis. No primeiro processo, a peça iria para lixado, desengomagem, com quatro enxágues, estonagem, novos enxágues e ainda o alvejamento antes do amaciamento final. Nos processos mais atuais, iniciando pelo ozônio, o modelo poderia substituir o used e o esmerilhado pelo laser. A desengomagem e estonagem poderiam ser realizadas no mesmo banho, e a neutralização demandaria apenas um enxágue. A demanda de água em todo esse ciclo seria reduzida de 197 para 20,75 litros por peça. Em outra amostra, Silfarley apresentou um jeans com look mais detonado, cuja obtenção por métodos tradicionais demandariam litros e litros de água e diversos enxágues e químicos. E nos processos sustentáveis seguiria o caminho do ozônio, recebendo efeitos lixados, esmerilhados, jatos de used e corrozão com o consumo de apenas 35 litros de água.

“O que diferencia um veneno de um remédio é a dose.” Essa frase de impacto do médico Suíço Paracelso, foi a introdução de impacto que agregou ao workshop a contribuição de Stanley Roan Marcos. O engenheiro químico e ambiental, usou a citação para esclarecer a definição do que é poluição. Em seguida elucidou os principais poluentes da lavanderia: corantes, cloro, a água oxigenada, e produtos ácidos e alcalinos constaram na lista. “A diferença entre a água e a água oxigenada é apenas uma molécula”, comentou. “Mas é o suficiente para que o componente possa ocasionar alteração no ph”, completou o engenheiro. “Já no cloro, podemos lembrar que a dose usada para tratar a água e transformá-la em potável, tem efeito de remédio. É a dose que o torna poluente.”

Stanley compartilhou que o melhor caminho para mitigar os impactos dessa poluição, consiste na implantação dos 3Rs: reutilizar, reduzir e reciclar. “Quando um funcionário entra em uma empresa e reconhece que as lixeiras são separadas por materiais, ingressa com mais naturalidade em uma lógica ligada à sustentabilidade”, explica. Abordando a proposta de reciclagem, mencionou a importância das estações de tratamentos de efluentes na própria empresa. Também abordou a relevância de substituir os produtos químicos por ingredientes mais naturais.

Na sequência dos tratamentos industriais que reciclam a água envolvida nos processos de jeans, Stanley mencionou a oxidação, coagulação, floculação, decantarem/flotação, filtragem, secagem do lodo e reuso. “É característica do resíduo de lavanderia subir, flotar sobre a água”, comenta.

Para ilustrar o modo como à água pode ser reciclado pelo método de floculação, o engenheiro literalmente colocou a mão na massa e realizou o experimento durante o evento em um grande tubo de ensaio.

A visão criativa do tópico sustentabilidade foi agregada pelas falas da estilista Giuliana Castelo Branco, que começou a apresentação contando um pouco da sua trajetória profissional, e compartilhando sua paixão pelo universo denim, que a levou calçar botas, entrar na lavanderia, conhecer e realizar os processos. “Nem passava na minha cabeça o impacto que as lavanderias estavam causando”, contou. Com o tempo, a estilista contou que conheceu a Jeanologia e os métodos de laser. “Quando a tecnologia chegou no Brasil, as lavanderias grandes cultuavam o pensamento que o método era uma tecnologia criada unicamente para tirar o azul”, contou. “Outros pensavam que viria apenas para reduzir a mão de obra”. Giuliana contou que em alguns momentos da sua caminhada profissional tentou levar os novos métodos e a proposta de criar uma coleção orgânica. E ouviu que não seria comercial “o consumidor não vai se prontificar a pagar mais caro”.

Na sequência, do workshop, foi apresentado mais um trecho do documentário River Blue; desta vez abordando a responsabilidade do consumidor, sinalizando o quanto ele é poderoso em suas escolhas, e como pode colaborar para que as mudanças necessárias para o planeta aconteçam. Sobre o papel da moda, citou o quanto é importante que a moda divulgue todo o seu processo fabril. “As marcas também tem que exigir dos seus consumidores, uma conduta mais consciente.”

Mencionando a missão do designer nessa trajetória de sustentabilidade, abordou tópicos como algodão orgânico, algodão reciclado e tingimento sustentável. Também citou os acessórios, e a importância de conhecer que tipo de banho é feito nos metais. Giulia também mencionou as etiquetas sintéticas, como solução para substituir o couro – lembrando a todos que os curtumes são citados no documentário como um dos processos mais poluentes que caminha ao lado a indústria de jeans.

Ilustrando uma sequência ideal para a criação de uma coleção sustentável, Giulia recomendou que logo no início a pesquisa inspiracional seja sustentável, buscando referências no mundo. Em seguida, alertou para o valor da seleção de uma matéria-prima com foco em inovação, que atualmente está diretamente ligada à sustentabilidade.

Cases com potencial influenciador foram mencionados, entre eles o Tru Blue da Pepe Jeans, onde a marca divulgou aos seus consumidores o método de lavagem Wise Wash, que usa apenas um copo de água para o desenvolvimento de cada calça jeans. Também a campanha Low Impact Denim, da marca Jack&Jones, divulgando a linha de jeans confeccionada com algodão orgânico, e 55% menos de água e energia no desenvolvimento. Uma explicação que também constou no forro dos bolsos das peças. Ainda entre os cases, a Raw for The Planet da G-Star, que divulgou para o consumidor o uso de 98% agua reciclada, e 2% evaporada, além de proporcionar um guia para a compra de um jeans sustentável, da escolha do botão até o acabamento. Em seguida citou a Nudie Jeans, com a campanha Re-Use, trazendo a abordagem humana do tópico sustentabilidade, e a visão diferenciada de que uma calça pode (e deve) ser reparada para sempre. Também a Denham que está usando o Cânhamo como opção mais sustentável.

No final Giuliana, Silfarley e Stanley propuseram uma dinâmica para os grupos aleatoriamente formados pelas mesas. Em um tempo de trinta minutos, os cinco núcleos de participantes agrupados receberam o desafio de criar uma campanha para um jeans sustentável, envolvendo desde a criação do logotipo até a composição, slogan, e respectivo influencer para sua divulgação. A produção de roupas para pet confeccionadas a partir de refugos de denim, sob o nome fictício HappyU, foi a proposta do primeiro grupo, que abordou reaproveitamento. Já a idéia de um jeans vegano, com algodão orgânico, aviamentos confeccionados de côco e etiqueta em couro de abacaxi, foi sintetizado pelo segundo grupo, que apresentou a marca Tropi. O terceiro grupo agregou a abordagem do consumidor, que vive mais no ambiente digital do que real, através da marca GenZ. O grupo que abordou a importância da vida em toda sua plenitude, ao conceito de sustentabilidade, batizado de Artha (vida em sânscrito), foi eleito pela avaliação das CEOS do nosso portal, como o melhor fundamentado em todos os itens propostos pelo desafio.

Fonte: Vivian David | Fotos: Equipe Guia JeansWear