Misci celebra a brasilidade com narrativa cinematográfica e tecido Pamplona, da Vicunha

No Cine Marabá, um dos últimos cinemas de rua de São Paulo, a Misci voltou a transformar moda em experiência cultural ao apresentar sua coleção de inverno 2026. A noite começou com o trailer de A Dama do Interior, curta-metragem gravado no Recôncavo Baiano e estrelado por Débora Nascimento, Dan Ferreira e pelo próprio diretor criativo da marca, Airon Martin. O filme, que ainda está em produção, estabelece a atmosfera de memória, afeto e interioridade que guia a coleção, criando imagens antes mesmo de propor uma narrativa fechada.

Airon Martin explica que a personagem central da trama inspirou uma verdadeira família de figuras imaginárias, que se materializam nas texturas e nos tecidos apresentados na passarela. Entre eles, um ganha destaque especial: o Pamplona, da Vicunha. “É uma sarja 100% algodão que traz descontração e se adapta ao nosso clima”, afirma. A peça é trabalhada em versões duplas, entreteladas e com acabamentos a fio, recurso que reforça a estética casual e resistente — aquilo que o estilista define como “um cangaço contemporâneo”. O Pamplona, segundo ele, forma a base acessível da pirâmide de produto da Misci, reafirmando a importância do algodão na moda brasileira.

A escolha desse tecido dialoga diretamente com o espírito da coleção. Livre de temas rígidos, o inverno da Misci prioriza a construção de imagens, permitindo que as roupas funcionem não como figurino, mas como linguagem própria. Alfaiataria aprimorada, artesania equilibrada e uma seleção cuidadosa de tramas pesadas e leves convivem no mesmo conjunto. O Pamplona da Vicunha, com sua versatilidade e caráter nacional, aparece como um dos pilares dessa construção, um tecido que traduz o encontro entre técnica, narrativa e brasilidade.

A parceria criativa entre Airon Martin e o arquiteto Isay Weinfeld também se faz presente nas formas, nas camadas e no jogo de luz e sombra dos looks. Capas de organza, fendas geométricas e sobreposições compõem um desfile que, mesmo complexo, demonstra refinamento e maior atenção ao caimento. Referências ao trabalho de Weinfeld surgem em espirais, contrastes e cores, sobretudo o amarelo, inseridas na paleta vibrante que mistura tons terrosos, roxos, verdes e azuis. Nesse contexto, o tecido da Vicunha emerge como ponto de equilíbrio entre o artesanal nordestino, o minimalismo arquitetônico e a identidade urbana da marca.

Ao transformar o cinema em passarela, a Misci reafirma seu papel central na moda brasileira contemporânea. A marca, conhecida por unir regionalismos, experimentalismo e rigor estético, alcança aqui nova maturidade. A Dama do Interior não entrega respostas, mas oferece uma imagem potente — e é nessa imagem que o tecido Pamplona, da Vicunha, se torna símbolo de autenticidade e de uma brasilidade que se impõe sem concessões.

Fonte: Ana Gimonski | Foto: Zé Takahashi