A moda precisa lembrar do legado de Pierre Cardin

A história da moda guarda informações que vão muito além das inspirações das mudanças de silhuetas, volumes, e comprimentos que o tempo deixou. Ela também funciona como um arquivo impressionante dos maiores e mais bem sucedidos cases de negócios de moda que a indústria do vestuário já conheceu.

Talvez alguns dos mais valiosos, tenham sido relembrados com a despedida de um dos últimos estilistas remanescentes da era dourada da alta costura: Pierre Cardin. O designer nos deixou no último dia 29 de dezembro, aos 98 anos de idade.

Como legado, além do estilo incomparável, Cardin deixou lições de negócios valiosas para o fashion business. O designer soube como ninguém proteger suas criações, patenteando-as e licenciando-as para produção em massa. De acordo com o próprio, a prática permitiu que sua carreira evoluísse sem qualquer tipo de dependência com os bancos.

Foram mais de 500 invenções patenteadas: meias coloridas, botas de cano alto, gravatas florais, e jaquetas sem gola. Ainda na lista de feitos notáveis, Cardin criou ternos para os Beatles e até roupas espaciais para a NASA.

Mas além de roupas a assinatura de Pierre Cardin agregou valor aos mais variados produtos: desde mobílias, até telefones e latas de sardinha. E tudo, sem prejuízo imaterial  do prestígio de Cardin como criador, cujo talento era incontestável. Com a prática, sua marca e assinatura ficou conhecida até mesmo por quem não seguia moda.

Não há como negar que se trata de um case extraordinário para inspirar as marcas que lidam com o eterno dilema envolvendo equilíbrio entre concessão e exclusividade para formação de branding.

Além disso, Cardin liderou uma verdadeira revolução na moda masculina. Foi pioneiro em perceber que também o homem, poderia explorar as fantasias do seu subconsciente através da moda. Apostando nisso, abriu sua primeira butique masculina, a Adam, em 1957, em complemento à Eve, onde já comercializava moda feminina. Em 1960, apresentou sua primeira coleção com um casting formado exclusivamente por estudantes universitários parisienses, e seu sucesso foi tão grande que em 1966 inaugurou uma loja masculina, na cidade de Nova Iorque.

A moda masculina de Pierre Cardin se caracterizada por um estilo sexy e elegante. Sua atuação foi ousada: foi o primeiro costureiro do século 20 a oferecer para o homem uma cartela de cores multicolorida, completamente diferente dos tons escuros cinza e marrom praticados até então.

De maneira libertadora, sugeriu que a juventude poderia ser explorada também pelo homem, e não apenas pela mulher. Com essa visão nada preconceituosa, alcançou um resultado de vendas seis vezes superior ao obtido com seus negócios de moda feminina nas coleções masculinas.

O designer também deixou sua contribuição ao inventar o Cardine, um tecido com marcas de volume lembrando caixas de ovo, considerado o primeiro tecido tecnológico da história da moda. O material, foi além da mera decoração na medida em que permitiu tratamentos térmicos para criação de desenhos em relevo no tecido – o que conhecemos como “embossing”.

O vanguardismo na forma de precificar e valorar seu trabalho o acompanhou em toda a sua trajetória. Em 1959, o estilista apresentou uma coleção de roupas disponíveis a preços acessíveis para todos os segmentos da população. Esse ato chocou o público da moda, e Cardin foi até mesmo riscado das listas da associação parisiense chamada Chambre Syndicale, que na época controlava tudo relacionado à alta moda.

Ainda na lista de condutas à frente do seu tempo, em 64 Cardin foi o primeiro estilista a usar plástico em suas coleções, vislumbrar a China como um mercado potente para a moda, a visitar a NASA e a apresentar uma coleção prêt-à-porter unissex.

Neste último feito, encontrou a inspiração que formou seu principal diferencial: um tipo de espaço utópico, onde homens e mulheres se vestiam da mesma maneira, usando peças de malha ajustadas com estampas geométricas, associada à túnicas de pastoreio, colares e pingentes. E foi dessa forma, que ganhou visibilidade suficiente para vestir os Beatles e se tornar o figurino referencial de programas de ficção científica, como Star Trek.

A competência nos negócios andou lado a lado com a tenacidade e ousadia do estilo das suas coleções. Pierre Cardin não era apenas designer: possuía uma habilidade técnica incontestável em alfaiataria, e dominava como ninguém proporções esculturais e formas arquiteturais. Já em 1958, foi descrito como um criador com extremo domínio em corte e modelagem, segundo jornalistas de moda da época. Suas roupas eram distintas, geométricas e esculturais – e algumas vezes até mesmo cinéticas.

Para Cardin, “todo vestido era uma aventura de ideias“.

Mas o estilista que construiu um imenso império nos negócios e na história começou sua vida profissional com toda a humildade, como aprendiz de alfaiate, aos 17. Pierre Cardin nasceu em 2 de julho de 1922 na cidade italiana de San Biagio di Callalta, mas sua família mudou-se para a França quando ele tinha apenas dois anos.

Após a vivência de aprendiz, Cardin trabalhou nas casas de Paquin onde ajudou a criar os figurinos do filme “A Bela e a Fera”, e passou pela influência de Elsa Schiaparelli antes de assinar contrato com a Dior, onde ajudou no desenvolvimento da coleção New Look, em 1947.

Figurino de “A Bela e a Fera”

Em 2011, Pierre Cardin veio ao Brasil para inaugurar a exposição “Pierre Cardin – Criando Moda Revolucionando Costumes”, em São Paulo. Na ocasião, também realizou um grande desfile de alta costura, e apresentou a palestra “Cardin por Cardin”.

Entre as frases mais valiosas que o estilista compartilhou, estão as que explicam a forma livre e absoluta com que exercia seu pensamento criativo. Segundo Cardin, “o ato da criação não se limita a ângulos e paredes”. Logo, “criar mangas de um vestido ou o pé de uma mesa são a mesma coisa”.

Cardin também explicou a lógica que o levou a criar sempre um estilo à frente do seu tempo, afirmando que: “As roupas que eu prefiro são aquelas que eu invento para uma vida que não existe ainda, para o mundo de amanhã”.

E foi com este olhar fixo no futuro, baseado no ideal de que nele tudo ainda pode ser construído com plena liberdade, que Cardin nos presenteou com um passado repleto de referências e inspirações.

Por este motivo, a moda precisa lembrar para sempre do legado de Pierre Cardin. Não apenas para buscar referências em sua estética, mas para enxergar a moda como um negócio, cuja prosperidade depende sempre de algo que está prestes a ser completamente inventado.

Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução