Abit aborda desafios e propostas para enfrentar a crise

A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) realizou uma transmissão ao vivo, na última terça-feira, com a participação de seu presidente Fernando Pimentel, e os convidados Arthur Igreja, especialista em transformação digital, e Carlos Ferreirinha, fundador da MCF Consultoria. O assunto girou em torno das dificuldades que o mercado vem enfrentando em decorrência da pandemia e diferentes jeitos de pensar sua empresa, seus negócios, buscando novos caminhos e mudanças de mindset.

Arthur Igreja, Carlos Ferreirinha e Fernando Pimentel durante transmissão ao vivo

Ferreirinha iniciou o debate dizendo que essa é uma crise de todos os elos da cadeia onde não existe receita ou bula para tomar as medidas corretas. “Temos uma folha em branco na mão e cabe a nós desenhar como será após essa travessia”, afirma Ferreirinha.“ É hora de fazer uma reflexão sincera, quem somos nós nessa situação? O que terei aprendido e o que farei de diferente? Não dá para continuar da mesma forma”, completou.

Arthur acredita que o ano de 2020 ficará para a história, assim como as grandes Guerras Mundiais, o  atentado de 11 de setembro de 2001, nos Estados Undos, e outras gripes que assolaram regiões inteiras. Como vantagem, a pandemia do novo coronavírus tem data para começar e terminar, um ciclo e uma retomada em curva V.

Como exemplo, ele citou a chegada do Uber, serviço de carro por aplicativo, em 2014, que provocou uma revolução entre os taxistas. “Agora nós somos os taxistas”, afirma Arthur. “É um momento de sobrevivência mas também para pensar o seguinte: todo mundo reclama da falta de tempo, agora é a hora para repensar e colocar as coisas no lugar. Alguns estarão mais preparados, outros em estado de choque”.

Em relação à retomada, segundo Arthur, o formato da curva tende a ser em V, mas não chegamos na parte debaixo desse V, estamos descendo. O estado de São Paulo está para o resto do Brasil como a China já esteve para a Itália e a Itália para o Brasil.

O especialista em transformação digital afirma que as crises também servem para romper comportamentos. Para ele, as pessoas estão ansiosas em suas casas e voltarão “sedentas” para comprar, óbvio que não imediatamente, mas vão escolher se divertir, tão logo isso for possível. “Agora o consumidor está com medo e apreensivo, por isso devemos pensar em como vamos nos comunicar com ele”, disse Arthur. Uma das saídas no momento é o e-commerce (o acesso à internet cresceu 40%).

Para Fernando Pimentel, presidente da Abit, o ser humano tem muito mais união na crise do que na bonança. Porém, ele espera que essa solidariedade continue. “Como será o amanhã? Como ficará o mercado? Que consumidor vou encontrar? Fato é que boa parte da população irá perder parte de sua renda, onde a crise vai deixar muitas sequelas. Nós não sabemos como sairá esse novo consumidor, só sabemos que sairá mais pobre”, apontou.

Ferreirinha aponta que não podemos romantizar a crise que colocou todo mundo parado, desde a doméstica até o presidente da empresa e o autônomo. Com certeza terá empobrecimento de renda e os pequenos não terão fluxo de caixa para se manter por muito tempo. “O Brasil não é a Oscar Freire, mas sim o Agreste de Pernambuco, o interior de São Paulo, o Brás, o Bom Retiro. Esse é o verdadeiro Brasil que foi mais atacado agora”, comenta Ferreirinha.

O executivo acredita que precisamos nos preparar para uma retomada lenta porque ninguém vai sair rapidamente para consumir nas lojas. “Estamos muito tempo dentro de casa olhando para nosso armário e a quantidade de roupas que temos. É necessário pensar em novos produtos mais duráveis. Agora é a hora de correr para avaliar como você sairá dessa”, afirma Ferreirinha.

Na busca pela preservação da empresa e seus pagamentos, Fernando Pimentel diz que a solução é conjunta, público-privada. Já para Ferreirinha, muitas estão falando que não vão demitir mas interrompem o pagamento de toda uma cadeia, isso gera uma crise ainda maior.

“Solidariedade não é somente ajudar o outro com uma cesta básica, você também é responsável pela cadeia, o equilíbrio é fundamental nesse momento”, afirma. O fundador da MCF Consultoria também acredita que o poder público precisa ajudar urgentemente.

Arthur Igreja comentou que muitos estão quebrando contratos de eventos, usando o coronavírus como desculpa ao invés de reagendar. Ele acredita que se tem um ponto positivo nessa história é que as pessoas vão valorizar muito mais o contato humano. É um momento que inspira também cuidado na comunicação, além de se recuperar da crise também é preciso ter cuidado com o que fala, com a imagem de sua marca.

Por fim, todos concordam que é importante valorizar os produtos brasileiros, o “Feito no Brasil” e consumir também dos pequenos que são os que mais sofrem. Porém, Ferreirinha acredita que numa retomada esse comércio menor, de bairro, terá uma chance maior para inovar e surpreender mais rapidamente devido ao seu tamanho.

“Pode ser uma nova janela de oportunidade, mais interessante. Eu não estou sendo idealista, mas teremos uma redescoberta da nossa identidade. Claro, que temos o “custo Brasil” que impede várias ações, mas será uma retomada de renovação. Quem sabe essa destruição não nos torna capazes de entender esse impacto forte. Tomara que vire uma reflexão”, ressaltou Ferreirinha

“No final disso tudo, que nós tenhamos muito mais “lifes” do que “lives”, onde todos vão encontrar um novo caminho”, finaliza Arthur.

Acompanhe a transmissão na íntegra aqui.

Fonte: Vanessa de Castro | Foto: Reprodução