Abit destaca relação entre indústria e varejo em ‘giro’ por estados na crise

Na última terça-feira, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) promoveu a webinar “Primeira Rodada pelo Brasil”. A transmissão ao vivo fez um “giro” por três estados do país e como os mesmos estão lidando diante da atual crise causada pela pandemia Covid-19, o novo coronavírus.

A roda contou com a participação de Francisco Lelio Pereira, do Sindicato da Indústria do Vestuário (Sindiroupas) do Ceará, Flávio Roscoe, do Sindicato das Industrias Têxteis de Malhas (Sindimalhas) de Minas Gerais, e Valdir Antônio Scalon, do Sindicato Empresarial da Industria do Vestuário (Sindivest) de Maringá, no Paraná. A mediação ficou por conta de Rafael Cervone, presidente emérito da Abit.

A relação entre a indústria e o varejo foi o destaque da discussão. Ainda que algumas fábricas tenham mantido sua produção até aqui, o varejista é o elo da distribuição. O fechamento da maioria do comércio pelo país, devido a quarentena imposta para diminuir a disseminação da doença, os impactos são sentidos por toda a cadeia.

“Nossa região, de Maringá, trabalha muito para São Paulo, entre Brás e Bom Retiro. Temos muitas lavanderias, e isto está praticamente parado. É bastante complicada, eu nunca passei por uma situação dessa, mas acho que temos que ter tranquilidade. É hora de nos juntarmos, nos unirmos”, apontou Valdir Scalon.

A retomada das atividades até o dia 22 de abril, ainda que dentro de um protocolo de horários diferenciados, está entre os planos do sindicato em conversas com o governo do estado. A intenção, segundo Valdir, é reativar o comércio e, consequentemente, a indústria como um todo.

Em relação a crise, Flávio Roscoe apontou as oportunidades que o cenário pode oferecer a indústria brasileira em longo prazo. “Considero que essa crise pode servir para uma valorização da indústria nacional“, disse.

“Estamos vendo que, na hora que o ‘bicho’ aperta, quase todos os países desenvolvidos proibiram a exportação para outros países, seja de equipamentos médicos ou outros produtos. Temos uma oportunidade de mostrar, nesta crise que deve passar nos próximos 90 dias, o valor da indústria nacional e a diferença que ela faz nesse momento”, completou.

Para ele, o setor têxtil representa um forte papel na “segunda onda” da crise, a da retomada. Companhias devem colaborar com uma fabricação maciça de máscaras, atitude que poucas estão adotando até aqui. “Não terá insumo de TNT e elásticos suficientes para produzir quatro máscaras por dia para toda a população do Brasil, isso dá 800 milhões de máscaras. As descartáveis vão ficar com o pessoal da saúde e nós vamos ter que trabalhar”, ressaltou Flávio Roscoe.

E continua: “Acho que nosso grande desafio (entre confeccionistas) é que temos que adaptar nossa produção para máscaras. Demanda vai haver. A tendência nos próximos dias é que municípios e estados tornem a circulação com máscaras obrigatória, compulsória. E eventualmente, vão condicionar o retorno das indústrias com a utilização de máscaras. Quem vai provir essas máscaras? O setor têxtil”.

Além da produção de insumos de proteção para a população geral, que podem ser vendidos em estabelecimentos que não estão fechados como farmácias, mercados e padarias, Flávio também indicou as mudanças estruturais na economia que estão por vir. Isto por que a relevância da indústria nacional deve aumentar como resposta à população e a crise.

Francisco Lelio Pereira seguiu o mesmo pensamento ao indicar a onda de oportunidade promovida pela crise, ainda que em um curto período. “O elo da indústria que oferece a matéria-prima (o têxtil), a indústria da confecção e o varejo estão muito mais alinhados que no passado”, afirmou.

“A maioria das indústrias aqui no Ceará estão se reinventando e entrando no seguimento desta onda. Produzindo máscaras, aventais, e essa demanda está crescendo. Temos uns 60 dias, no máximo 90, para navegar nesta onda e torcer para que ela acabe“, acrescentou.

Segundo Francisco, companhias estão se unindo, criando grupos e compartilhando conhecimentos com aquelas que não possuem esta expertise. Neste sentido de associativismo, a reinvenção se mostra mais complicada para empresas de pequeno porte, já que estas geralmente não possuem um capital amplo e insumos para se ajustarem a uma realidade tão rapidamente.

Os obstáculos, contudo, não param por aí. “Na linha do crédito, encontramos mais dificuldades por que sabemos que a nossas indústrias, em maioria, são as de pequeno porte […] Ainda que se tenha a questão das garantias reais, que estão flexibilizadas em função do contexto da crise, ainda existem muitas exigências e ela segue acessível à poucos”, sublinhou.

O incentivo à indústria nacional, segundo Rafael Cervone, está entre as principais preocupações da Abit neste momento. “Estamos trabalhando 24 horas por dia com a questão do varejo, com a campanha ‘Compre no Brasil’. Temos que trabalhar isto de maneira estratégica, aproveitando esse momento para fortalecer o emprego, a renda e a arrecadação de impostos”, pontuou o presidente emérito da associação.

A transmissão completa da webinar está disponível online, basta clicar aqui.

Fonte: Thaina Barros | Foto: Reprodução