Ajustes da indústria denim brasileira são pauta em webinar internacional

O jeans é uma categoria de moda que supera as tendências. Dentro deste setor, o Brasil tem o invejável privilégio de dispor de uma cadeia têxtil completa, das plantações de algodão ao forte varejo. Por ser referência mundial em design de moda jeanswear, a exposição dos ajustes e decisões que a indústria brasileira está tomando é tida como informação relevante para a cadeia mundial.

Com isto, o Guia JeansWear atendeu ao chamado do fundador do site internacional Denims and Jeans, Sandeep Agarval, que vem alimentando o setor jeanswear global com informações necessárias e de qualidade. O portal teve como missão foi recomendar profissionais representativos da cadeia de moda nacional para expor em uma transmissão os ajustes que a indústria do jeans brasileira estaria realizando perante a situação imposta pela Covid-19.

A gerente de comunicação e tendências da tradicional fabricante Santista Jeanswear, Sueli Pereira, a atual diretora acadêmica da Denim City SP, Maria José Orione, e o expert e gerente de lavanderia da Riachuelo, André Duarte, foram os indicados para participar do webinar transmitido na última semana. Intitulado “Brazilians Denim Industry Adjusts to Covid”, o debate foi mediado  por Sandeep e pela colunista de moda do Guia JeansWear, Vivian David. O bate-papo segue disponível no Instagram e no Facebook do Denims and Jeans.

Sandeep iniciou o encontro digital afirmando que o Brasil é um de seus países favoritos. Agregando verdade à sua afirmação, relatou que foi muito bem acolhido durante uma visita que fez ao nosso país. Em seguida, comentou que os brasileiros são grandes produtores de jeans e, dado o reconhecimento desta cadeia forte logo, legitimou a relevância de entender e colocar para o publico internacional como está neste momento a indústria do denim brasileira.

Contextualizando ao público a forma como a indústria estaria se adaptado a nova realidade, André Duarte afirmou que as vendas estavam aderindo a um novo tipo de comportamento. “O consumidor mudou seu jeito de comprar e vender”, apontou.

De acordo com o gerente de lavanderias, não foi o produto em si que mudou, mas sim a forma como a companhia estaria realizando a venda. “Nossos esforços estão se concentrando na reformulação de tudo que abrange a experiência de compra e os sentimentos do consumidor. Esse vírus trouxe um novo estilo de compras para o nosso país, fazendo com que todos usem celulares e computadores para realizar as compras”, justificou André Duarte.

Seguindo a mesma linha de pensamento, Maria José lembrou que o fato do Brasil ter dimensões continentais torna maior o desafio de otimização do sistema de delivery e faz com que no país coexistam diversos perfis de consumo. “Há aqueles que estão se movendo para o consumo dos básicos e das necessidades como comida”, explicou a diretora acadêmica, justificando a existência de uma fatia de mercado expressiva que não está consumindo moda. Por outro lado, os consumidores que dispões de uma renda maior e que continuam consumindo já estão bem adaptados ao modo de consumo digital.

Contribuindo para a exposição de um cenário verdadeiro, Sueli Pereira expôs que as vendas por canais digitais eram pouco exploradas em nosso país anteriormente à crise. “Tivemos que aprender e nos adaptar rapidamente a tudo isso”, comentou. O setor de varejo de moda, de acordo com a gerente de comunicação e tendências, terá que ser muito sedutor para ganhar a atenção do consumidor, pois já vinha enfrentando dificuldades no mercado a alguns anos.

Maria José Orione opinou que no varejo, muitas vezes, a mudança de mentalidade tem importância maior para as vendas do que as escolhas disponíveis online. “Quem tiver esta mudança vai estar adaptado a criar soluções e contatar seu consumidor”, defendeu, alertando para a necessidade de se entregar outro tipo de experiência no ato de compra e venda.

Contextualizando um pouco da situação das tecelagens brasileiras, Sueli Pereira ainda relatou que devido a existência de dois segmentos paralelos na Santista, o denim e o workwear, este último sentiu como efeito da pandemia um crescimento na demanda.

“Estamos preparados para o pior cenário”, afirmou. Quanto ao denim, relatou que os negócios estão voltando lentamente: “Estamos atentos e muito conectados com nossos clientes e parceiros, e com toda a cadeia agora”. Concluindo suas falas, Sueli explicou que na indústria têxtil nacional a maioria das companhias está atuando de forma conjunta para se posicionar de maneira mais forte no mercado.

Relatando em uma síntese o impacto do novo coronavírus no Brasil, Vivian David compartilhou que, logo no início, a maioria das empresas da cadeia de moda do denim se esforçaram para manter seus empregados, fazendo acordos e aderindo ao home office. Em acréscimo, explicou que muitas mudaram suas produções para manufatura de mascaras ou realização de ações solidárias.

A colunista explicou ainda que alguns fabricantes brasileiros estão planejando reduzir suas coleções e que essa estratégia não tem sido vista como prejuízo, mas como um ganho, já que condiciona as companhias a realizar escolhas mais assertivas. Ainda sobre o tópico, Vivian expôs que diversos fabricantes estão optando realizar ações de forma conjunta, e seguindo uma mentalidade coletiva, para tomar maior relevância no mercado.

Por fim, Vivian David explicou que existe uma consciência e uma atenção maior por parte de toda a cadeia para com o varejo, já que é consenso de todos que existe a necessidade que os estoques das lojas girem para que toda a cadeia possa recuperar um ritmo confortável.

Mudando o foco para o consumidor brasileiro, Maria José Orione opinou que seu comportamento vai mudar, principalmente devido ao prejuízo em sua renda. Abordando a intensidade com que a transformação do ator de consumir vai ocorrer em nosso país, opinou: “Não acredito na mudança de mentalidade de todos, acho que os que já buscavam sustentabilidade antes vão buscar mais e os alguns que não se importavam com a procedência antes da crise vão começar a se atentar para este fator, enquanto outros não”.

Embora não acredite em uma mudança completa, Maria José defendeu que as pessoas de fato vão comprar com mais consciência, e buscar por mais qualidade, mas fez a ressalva de que para voltar ao consumo o varejo (físico) precisa voltar. A diretora acadêmica compartilhou que a Denim City SP está provendo suporte para o varejo, apresentando soluções para esta retomada.

“As pessoas estão com receio de sair e com medo do contato humano, mas como o Brasil tem características singulares como uma cadeia têxtil completa, então não estamos dependendo de importações e nosso varejo não depende de turistas para vender”, concluiu Maria José.

Tudo isso que está acontecendo agora é sobre pessoas”, defendeu André Duarte, com convicção. O gerente de lavanderias da Riachuelo alertou para a grande oportunidade de se melhorar a comunicação com o consumidor final. “Poucos dias atras eu estava falando com o marketing sobre como temos que informar melhor o consumidor sobre o quanto somos sustentáveis na Riachuelo”, exemplificou. O grande desafio que se posiciona para o país é o de como fazer a sustentabilidade ser mais fashion.

Seguindo a mesma direção, Sueli Pereira observou que a crise atual fez com que o conceito de sustentabilidade, antes relacionado apenas a meio ambiente, somasse em seu sentido a ideia de preservação da economia e da raça humana. Em seguida, relatou os processos e produtos da Santista que atendem à essa exigência. Entre eles, a linha Upcycling, fundamentada no reaproveitamento de garrafas PET; Eco-Tuber, que aproveita amido residual da indústria de batatas chips; e Aquasave, que reduz em até 78% o consumo de água e o uso de cupuaçu para processos de amaciamento.

Ao citar o sistema de tratamento de água, a gerente de comunicação e tendências abriu um parênteses e fez questão de esclarecer que condutas sustentáveis estão presentes também em diversas tecelagens brasileiras, e não apenas na Santista, colocando em evidência o bom nível evolutivo de toda nossa rede de fabricantes de denim nacional.

Sobre a busca por novos produtos, Sueli Pereira afirmou que o conforto e os tecidos técnicos que promovem a proteção, como os antimicrobianos, tem se destacado. Neste caminho, indicou que as lavagens que agregam esse fator, bem como a busca por acabamentos que assegurem a longevidade destas qualidades também nas lavagens domésticas, tem se esboçado como uma demanda efetivamente conectada com o efeito da pandemia.

André Duarte acrescentou uma dose extra de positividade ao agregar o termo do “anti-frágil” para a lista de expressões direcionais para a moda. Segundo o expert em lavanderias, o comportamento sinaliza uma reação que propõe ações, mudanças e soluções. Trata-se de uma conduta que estamos desenvolvendo e está presente principalmente nas ações solidárias que estão surgindo em nossa industria e no mundo de forma geral como forma de reação a pandemia.

Quanto ao tratamento do denim, André explicou que existem duas buscas atuais para o acabamento do jeans. A primeira consiste em como tratar cada bem produzido antes da venda para assegurar a segurança, na etapa da produção. Já a segunda, englobaria como estender este benefício ao longo da vida deste produto nos estoques e lojas. De acordo com o expert, a Riachuelo tem realizado muitas negociações em diversas companhias pelo mundo neste sentido e estaria muito próxima de uma solução condizente.

Vivian David reafirmou a opinião colocada por Maria José Orione, de que os consumidores que vão buscar transparência são os que já vinham atentando para esta característica antes da pandemia. Neste sentido, disse acreditar que “os consumidores vão comprar menos, porém melhor”.

Na visão da colunista de moda, quando a pandemia passar nem todos vão manter a preferência pelos estilos essenciais. Muitos vão retomar a preferência pela roupa mais fashion, para celebrar a vida e a alegria. Vivian destacou que, mesmo que este consumidor tenha renda menor, está se tornando mais habituado a usar o dinheiro eletrônico e a indústria brasileira é suficientemente criativa para “arregaçar as mangas e pensar em como desenvolver estilos inovadores com custo menor”.

Transcorrendo o debate, Sandeep levantou a questão da consolidação da indústria do denim nacional. Maria José Orione afirmou sua crença de que a cadeia de suprimentos certamente será fortalecida pelo momento, o que não resultará exatamente em uma consolidação plena do setor. Já no varejo, na opinião da diretora acadêmica, a transformação terá impacto mas ainda não será capaz de recuperar toda a sua velocidade.

Atendo-se ao contexto das indústrias, Vivian David afirmou acreditar que a consolidação da cadeia do denim brasileira se concretize nesta fase e mencionou as tags “Eu Visto Brasil” e “Feito no Brasil” como sinais dessa transformação. Em acréscimo, defendeu que está em nossas mãos criar campanhas educativas tão diversificadas quanto as culturas do país, para que o consumidor entenda a compra local como uma ação reparadora para suas próprias vidas e para a economia.

“Se você quer falar com um consumidor que tem menos renda ou mora no interior, tem que falar de um modo diferente do que costuma usar para falar com o consumidor dos grandes centros, por exemplo”, indicou Vivian.

André Duarte apontou que acredita também nestas mudanças e que elas não devem impactar apenas por um breve período. “Não se trata de um novo capítulo, mas de um novo livro e estamos aprendendo como ler ele”, comentou o expert. O consumidor será mais atento e preocupado com os outros, e adotará um comportamento mais humano; o que elevará questão da sustentabilidade a um patamar de exigência mais importante.

Com opinião semelhante, Sueli Pereira destacou a força que a indústria do denim alcançou atualmente, no sentido de impor seus produtos locais. Em seguida, expressou que acredita que esta ideia irá ganhar predominância não apenas no Brasil, pois já se percebe em todo o mundo. A gerente de comunicação e tendências ressalvou que a prática não implica em uma barreira entre economias, mas em condutas mais colaborativas.

Sandeep questionou quanto às projeções da atuação nacional no cenário das exportações. Maria José explicou que o Brasil não tem uma cultura de ser exportador e que, obviamente, não prevê aumento dessa atividade para a indústria do denim, até mesmo porque existe uma ampla demanda local a ser suprida no próprio país.

Já Sueli Pereira confirmou o mesmo ponto de vista, mas pontuou a oportunidade de aproveitar o momento de valorização da cadeia local para que o país resgate a identidade da sua própria indústria. Sobre a inevitável queda da demanda pelo denim no mercado mundial, Maria José afirmou que com sorte no próximo ano no Brasil teremos uma curva ascendente de 6 a 7% de aumento com relação a demanda anterior. “Moda não é a prioridade do consumidor agora”, concordaram todos.

André acrescentou que não podemos prever o comportamento desta demanda mas podemos construir uma nova plataforma de relacionamento com o consumidor. Neste sentido, Vivian colocou que acredita em sinais de recuperação modestos porém direcionais mesmo durante a pandemia.

Em acréscimo, a colunista lembrou que não são apenas os números que indicam a saúde da industria mas também suas reestruturações. Por fim, Vivian ainda ressaltou que no passado o brasileiro sempre cultivou a crença de que o produto de fora, feito pelas grandes potências, era melhor do que o local – e que esta mentalidade está mudando mesmo entre os consumidores de menor renda.

Ao final, todos se despediram gratos pela oportunidade e com os melhores desejos de que essa imensa indústria azul, tão amada pelo consumidor global, saia vitoriosa.

Fonte: Vivian David | Foto: Reprodução