Alta-costura: o segredo libanês contra a crise

Os principais estilistas ocidentais foram muito prejudicados com a crise financeira internacional. Mas os designers libaneses dizem ter conseguido escapar ao impacto da crise por causa de duas coisas: alta-costura acessível e clientes árabes ricos.


É justo dizer que o Líbano não é adepto do vestuário casual. Sapatos de salto alto, vestidos justos e penteados sofisticados são parte da rotina diária de muitas mulheres do País. Alugar um vestido de marca para usar em um casamento é muito mais aceitável do que, por exemplo, optar por comprar um vestido genérico.


Assim sendo, não é nenhuma surpresa que os melhores designers libaneses tenham se tornado mais famosos pelas suas coleções elaboradas do que pelas suas linhas clássicas de prêt-à-porter.


Efetivamente, Elie Saab, cujos vestidos estão entre as escolhas das estrelas de Hollywood, disse que as suas linhas de prêt-à-porter sofreram durante alguns meses nos Estados Unidos devido à crise, diferentemente de suas coleções de alta-costura. “Os designers libaneses foram sempre diferenciados pela sua alta-costura, não pelo ready-to-wear”, afirmou a estilista à Reuters.


Scarlett Johansson, Carey Mulligan e Emily Blunt são alguns dos nomes das celebridades que já usaram peças da Elie Saab. “Se uma pessoa vai a uma maison francesa (em busca de alta-costura), o preço é exorbitante, é como se eles estivessem dizendo ‘nós não queremos vender’. É por isso que a alta-costura é um sucesso no Líbano. Os modelos são belíssimos, e os preços são adequados para as mulheres do mundo”, explicou Saab.


O designer Abed Mahfouz, cujos vestidos foram usados por Beyoncé e Victoria Beckham, também concorda. Para lidar com os bolsos mais magros de seus clientes, Mahfouz cortou seus preços em até 50%, um empreendimento arriscado que outros estilistas têm-se recusado a fazer, na convicção de que seria prejudicial para a marca. Os vestidos que eram vendidos entre os 70.000 e 100.000 dólares registraram uma redução para 50.000 e 60.000 dólares, forçando-o a fazer um corte de 30% nos lucros do período 2009-2010. Mas Mahfouz afirmou que o risco valeu a pena, e a sua clientela do Oriente Médio aumentou.


Mahfouz revelou ainda que está começando a ter mais clientes no Egito, Líbia, Tunísia e Iêmen. Respondendo ao aumento da procura, o estilista decidiu abrir um novo showroom em um elegante bairro do centro de Beirute, vizinho à loja de Elie Saab.


Mas, são as mulheres ricas do Golfo Pérsico as verdadeiras fãs de Saab e Mahfouz, cujos modelos de vestidos são de acordo com seus gostos elaborados e coloridos. Mahfouz revelou que 50% a 60% das suas vendas provêm de clientes sauditas. Apesar das mulheres terem que usar um casaco longo e preto (conhecido como abaya) em público, elas vestem frequentemente vestidos resplandecentes nos eventos da alta sociedade e nos casamentos.


O designer afirmou que o aperto nos orçamentos do mundo árabe tem desenvolvido um novo nicho. Em vez de fazer um vestido único, como normalmente acontece na alta-costura em geral, ele faz três ou quatro peças do mesmo modelo. Os vestidos que costumavam ser vendidos pelos valores de 25.000 a 30.000 dólares, são agora vendidos entre 12.000 e 15.000. “O meu ready-to-wear é como a alta-costura. Todos gostam de vestir alta-costura, mas querem preços de ready-to-wear”, concluiu.

PORTUGAL TÊXTIL | FOTOS: REPRODUÇÃO