Conversamos com Remco de Nijs, Diretor Global De Marca da G-Star, durante 87ª edição da Pitti Uomo

A 87ª edição da tradicional feira de moda masculina que acontece em Florença, na Itália, aconteceu entre os dias 13 e 16 de janeiro. O Guia JeansWear esteve presente no evento para acompanhar as novidades e teve a oportunidade de conversar com o Diretor Global De Marca, Remco De Nijs e Tracey Waters, da G-Star Raw.

Os dois contaram para nós um pouco mais sobre a coleção apresentada nessa edição de inverno, além dos rumos da marca, uma das mais importantes do seguimento jeanswear hoje, e como eles enxergam o futuro do denim.

GJW: Para essa edição, a G-Star destacará a linha Restored Denim, fortemente ligada ao craftmanship japonês. Cada vez mais nós observamos as tradições japonesas para o jeanswear ganhando o ocidente. Você acredita que essa é uma tendência que veio para perdurar várias estações?

Remco de Nijs: Primeiro, falando em relação a linha Restored Denim, nós quisemos focar naquele momento do jeans raw que ele está tão usado e cheio de buracos que você precisa repará-lo.

Nós fomos aos nossos arquivos e achamos uma variedade de jeans workwear japonês e com eles em mãos foi possível notar que as peças foram levadas várias vezes a um costureiro para serem reparadas, e cada costureiro tinha uma técnica diferente, então no final do ciclo de vida daquele jeans ele tinha praticamente se transformado em uma pintura. Nós achamos aquilo tão lindo e transformamos aquelas referências em diferentes lavagens com um resultado final incrível e cheio de técnicas manuais para coleção 2015.

Então, basicamente, foram referências usadas sem pensar em nenhum lifestyle particular.

GJW: Vocês conseguem notar uma aceitação, ou até uma curiosidade, do consumidor ocidental por essa tradição japonesa no jeanswear?

Remco de Nijs: O denim é um material tão democrático, e o jeans japonês é ótimo para saciar as vontades do consumidor premium que busca pelo jeans autêntico. Há uma variedade de consumidores para todos os tipos de produtos, e isso é excelente quando falamos de jeanswear.

GJW: O sucesso da coleção Raw For The Oceans significa, na percepção de vocês, um consumidor mais preocupado com as questões éticas e ambientais da moda que consome?

Remco de Nijs: Eu acredito que sempre começa com o produto, o produto é o líder. E se o consumidor gostar do produto e ele ainda tiver uma boa ideia por trás, uma história para contar, isso ajuda muito o produto. Foi ótimo conseguirmos criar uma coleção, que tem a sustentabilidade como base, tão moderna e atraente. Para o consumidor isso é importante, mas o produto está sempre à frente.

GJW: Tanto a linha Raw For The Oceans quanto a Restored Denim têm o apelo de poupar o meio ambiente – seja reciclando plástico, seja restaurando o jeans para torná-lo durável e não descartá-lo. Vocês acreditam que o consumo consciente é uma tendência crescente? A G-Star está em busca de atrair esse tipo de consumidor com essas coleções?

Remco de Nijs: É mais importante para nós como empresa, é importante para nós produzirmos de maneira ética, mas não usamos isso como uma ferramenta de marketing. É importante para nós sermos honestos com o consumidor e entregar um bom produto.

Tracey Waters: Nós trabalhamos com questões de sustentabilidade há muito tempo, mas nós nunca havíamos abraçado essa ideia de maneira tão forte como estamos fazendo agora. Sempre estivemos atentos a todo o ciclo de produção, mas agora estamos indo adiante, pensando nas fibras.

Além da linha Raw For The Oceans com jeans construído a partir de garrafas pet recicladas, nós estamos lançando um novo tecido que mistura algodão com Tencel®, e continuamos pensando em iniciativas que tornem nossa produção mais alinhada com as necessidades ambientais. É claro que queremos passar essa ideia para o consumidor, a Raw For The Oceans tem uma forte campanha de marketing por trás, mas nós queremos mais do que atingir o consumidor com o marketing, queremos realmente praticar essas ideias, de dentro para fora.

Remco de Nijs: Bem lembrado, há muito tempo trabalhamos com esses conceitos. Antes da Raw For The Oceans, nós tínhamos a linha Raw Organic e também a linha Upcycle Denim.

GJW: Como vocês pretendem desenvolver a linha Raw For The Oceans, considerando o seu grande sucesso, mantendo o foco na sustentabilidade?

Tracey Waters: A linha Raw For The Oceans usa cerca de 20 a 30% de plástico reciclado na coleção, nosso primeiro passo é aumentar esse número. Mas a linha é muito recente, foi lançada em 2014, então ainda temos muito a fazer.

GJW:Para beneficiamento e lavanderia, vocês usam máquinas a laser ou ozônio?

Remco de Nijs: Não, basicamente todo nosso processo de lavanderia é manual.

GJW:Ainda falando de consumo, como fica o segmento premium diante do fast-fashion? Para vocês, é possível, e até mesmo necessário, acompanhar o ritmo das grandes varejistas para permanecer relevante no mercado?

Remco de Nijs: Para nós é importante mantermos e protegermos nosso DNA, nos mantermos reconhecíveis nas lojas, para que os consumidores e compradores continuem nos acompanhando.

Nós não sofremos influências do que está acontecendo nas passarelas, é claro que estamos de olho no que está acontecendo, mas permanecemos sempre fiéis à nossa identidade, e hoje não sentimos nenhuma influência, nem em se tratando de mercado, por parte dos grandes varejistas (que tendem a replicar os looks de passarela a cada estação).

GJW:Com um ritmo tão acelerado, como vocês fazem para identificar com frequência as próximas grandes tendências para o segmento jeanswear? Com que frequência as novidades chegam às lojas?

Remco de Nijs: Abastecemos a loja com duas coleções para o inverno e duas para o verão. Durante os 12 meses do ano, temos 10 chegadas de produtos na loja, ou seja, quase todo mês temos novidades. As novidades do jeanswear costumam chegar em janeiro e julho, maio e novembro.

GJW:O segmento jeanswear está se reinventado a cada estação com tecnologias aplicadas aos tecidos para oferecer cada vez mais possibilidades ao consumidor. Porém, muitos esperam ainda algo que vai ser a “próxima grande coisa” para o segmento. O que a G-Star acredita? Tem espaço para o jeans evoluir? O que vocês acham que será o próximo “marco” em se tratando de jeanswear?

Remco de Nijs: O jeans é um “item de confiança” igual ao underwear, por exemplo. Quando você encontra um que te veste bem, você vai querer vários daqueles. É isso que queremos oferecer ao consumidor, um item de confiança.

Depois disso, temos que ter certeza que podemos fazer um jeans para cada tipo de ocasião, porque ninguém quer estar com a mesma roupa todo dia. E todos esses produtos têm que fazer o consumidor se sentir melhor, isso é muito importante.

Ao lado disso, silhueta e inovação são importantes, além de tentar atingir cada vez mais uma produção eco-friendly. Mas, na verdade, muitos elementos no jeanswear ainda são passíveis de evolução.

Eu acredito que o futuro do jeanswear é realmente olhar a silhueta feminina, entender e desenhar os melhores jeans para cada tipo de silhueta. Por exemplo, o time de design de produto feminino falou para mim esses dias que com os novos tecidos tudo é possível. Antigamente o jeans era aquele “no-fit”, sobrando na cintura, que antes era alta demais e não era confortável. Agora, que há tanta evolução no tecido, nós não nos sentimos mais limitados, é possível criar diferentes modelagens para diferentes mulheres.

Tracey Waters: O futuro do denim definitivamente está em aperfeiçoar a silhueta para vestir todas as mulheres. Em 1996 nós fomos pioneiros com a modelagem tridimensional e continuamos a olhar para a figura feminina.

Remco de Nijs: O futuro vai pensar cada vez mais nos detalhes. Por exemplo, se você quer uma skinny, mas que não fica bem em você se a cintura for baixa, nós te oferecemos uma skinny que tem uma cintura um pouco mais elevada. Ou se você quiser uma skinny com boca flare, nós podemos fazer isso. O futuro é atingir todas as variedades de consumidores.

GJW:Os segmentos masculinos de moda no geral e jeanswear vêm crescendo, porém o feminino, principalmente nos EUA, parece estar encolhendo e preocupando as grandes marcas. Como está a percepção da G-Star diante o mercado global?

Remco de Nijs: Para nós, as vendas femininas estão crescendo então nós estamos definitivamente investindo no womanswear.

GJW:Você faz parte da equipe da G-Star a quase 10 anos, e pode observar muitas mudanças nesse período no mercado de moda. Como a G-Star conseguiu manter-se relevante para o segmento e quais as principais mudanças em se tratando de marca e empresa que ajudar a marca a conquistar mais espaço e se tornar umas das líderes do segmento?

Remco de Nijs: Somos muito consistentes com relação ao nosso DNA, não trabalhamos com freelancers, por exemplo, então nossos designers entendem nossa consistência e conseguem manter o produto fiel ao DNA da marca.

Todo o processo de criação é acompanhado de perto para que as coleções possam passar por uma curadoria que define: isso é a cara da G-Star, isso não é. Assim você consegue criar uma marca que adentra o futuro com mais facilidade.

Acredito que inovação é tão necessária quanto entender a sua história, seu passado, o que fez a marca chegar até aqui, e junto com essas duas coisas você ainda precisa de reconhecimento. Esses três elementos: inovação, herança e reconhecimento são a chave para crescer globalmente.

Nós não seguimos tendências, nós somos amantes do denim e amamos o que fazemos, e é nisso que estamos focados.

Tracey Waters: Nós já somos conhecidos globalmente por sermos modernos e inovadores, queremos continuar com esse foco.

GJW:Quantos designers fazem parte da equipe?

Remco de Nijs: São 30 designers, de diferentes lugares do mundo, mas que ficam todos em nosso escritório central em Amsterdã.

GJW:Falando sobre futuro, o que você espera do segmento jeanswear?

Remco de Nijs: Como eu falei antes, acredito que todo o segmento jeanswear ficará cada vez mais atento aos detalhes daqui para frente. Com novos tecidos, tudo é possível, as possibilidades são infinitas.