Denim e práticas sustentáveis são pauta no Brasil Eco Fashion Week

Nos últimos anos, houve uma tomada de consciência muito grande quanto à urgência de se trabalhar o fator sustentabilidade como uma oportunidade no setor denim. Com esse insight, nasceu uma visão disruptiva baseada em modelos de gestão e produção, focados na eliminação de desperdícios de recursos naturais. Um caminho que é estratégico, competitivo e comercial. Mas nem todos os segmentos da moda tem ciência do valor que a indústria do jeans representa para toda a cadeia do vestuário nacional.

E foi para trazer a tona todo esse potencial que o segundo dia da 4ª edição do Brasil Eco Fashion Week, que teve início no dia 18 de novembro e segue sua agenda atual com desfiles, incluiu no segundo dia da sua programação de palestras o tema “Denim e Práticas Sustentáveis”. Mediado por Lilian Pacce, o talk reuniu Francisca Vieira, criadora da marca Natural Cotton Color, cuja identidade está relacionada ao desenvolvimento de algodão colorido; Thaísa Peralta, denim head da tecelagem Covolan Têxtil; e Marco Britto, presidente do grupo GB Customização e diretor da Associação Nacional de Empresas de Lavanderia (ANEL).

A forma como as iniciativas de um novo caminho para o denim começaram a se esboçar e se concretizar foram o ponto de partida para o debate.

Francisca  Vieira lembrou de alguns pontos relevantes que são pouco conhecidos no mercado, como a questão do algodão nacional ser provido por 120 mm de água de chuva e resistente à secas, dispensando irrigação. Também fez questão de rebater o mito de que o denim plano é desconfortável.

Justificando a escolha do produto jeans para direcionamento do recurso algodão, Francisca explicou que foi uma alternativa que surgiu para aumentar a área plantada. “Precisávamos de um produto com algodão, que fosse popular mas com valor agregado”, explicou. Contextualizando a relevância do segmento para a mão de obra agrícola, ela ainda lembrou que no Brasil paga-se pouco pelo plantio da matéria-prima, e que o algodão colorido é uma forma de prover o agricultor de uma alternativa com pagamento mais justo. “Pagamos R$13,50 por 1 kg de pluma quando a média no mercado não chega nem a R$ 8”, explicou.

Com relação ao algodão colorido, a criadora da marca Natural Cotton Color contou que o projeto é resultado de uma pesquisa da Embrapa que teve início em 2001. “Até 2006 só tínhamos camisetas pois a fibra era era muito curta e ruim”, explicou.

A Embrapa, segundo Francisca, continuou trabalhando permanentemente no alongamento da fibra através de cruzamentos genéticos. Neste ponto, é relevante questão de diferenciar a prática da transgenia. “É cruzamento genético, ou seja, algodão com algodão”, explicou.

O aperfeiçoamento da fibra pela Embrapa foi o grande mote para que o denim passasse a ser desenvolvido com a nova variedade de algodão. “O lançamento já devia ter acontecido, porém com a pandemia e o desligamento das máquinas, atrasou”, explicou Francisca Vieira. Segundo a engenheira, no entanto, o marrom já é uma cor disponível e as próximas nuances serão o verde e o rubi.

Em relação aos caminhos que levaram à evolução do denim, Thaísa Peralta contou que no caso da Covolan, empresa 100% brasileira, o principal motivo foi a busca por melhoria nos processos produtivos. De acordo com a denim head, a produção do material é foco na companhia desde os anos 2000 e fez com que o aprimoramento das práticas emergisse como necessidade, levando a companhia à busca por certificados.

O recebimento do primeiro Prêmio Fiesp de Conservação e Reuso da Água nos processos produtivos, em 2006, foi o mote para que a sustentabilidade se tornasse o foco da Covolan. “Ali vimos que tínhamos o potencial para seguir trilhando esse caminho das certificações”, compartilhou a denim head.

O passo posterior, segundo Thaísa Peralta, foi a implementação do 5S em toda a companhia. Em seguida, a conquista do ISO 14001 em 2010. Este último, um certificado ligado especificamente à critérios de sustentabilidade, que apenas cerca de vinte e três empresas detém no Brasil, de acordo com a denim head.

Thaisa apresentou também o chamado “círculo virtuoso” da tecelagem, um quadro sintetizando as 24 atividades realizadas pela tecelagem em prol da sustentabilidade. Entre elas, o uso de algodão 100% BCI, o desenvolvimento de coleções livre de anilina, e o uso da fonte de energia renovável biomassa, que é feita pela companhia com bagaço de cana de açúcar e retalhos de madeira. “Também somos a única tecelagem que tem a Genius Denim, uma máquina de tingimento mais rápida, que reduz em 40% o uso de água”, ressaltou.

Ainda entre as práticas eco-friendly Thaisa mencionou o apoio ao movimento Sou de Algodão e o investimento em uma estação de tratamento de efluentes modelo, a nível nacional e internacional, que usa a tecnologia alemã chamada Membrane Bio Reactor.  Com o recurso, a Covolan consegue devolver a água com qualidade mais limpa e clara do que a forma como é captada.

Por fim, a denim head mencionou que a Covolan é a única companhia nacional membro contribuidor do programa ZDHC (Zero Descarte de Substâncias Químicas, em tradução livre), e também a única a possuir o certificado Step, relacionado à produção de têxteis e couro de forma sustentável.

Mas se existe toda essa evolução no setor, da matéria prima à fibra tecida, de acordo com Marco Britto, ainda existe um “ponto cego em sustentabilidade” no setor jeanwear.  “Nós vemos a evolução na fabricação de denim, e também uma evolução muito grande na produção de algodão no Brasil, mas a parte da lavanderia no mundo todo ainda é a que está mais atrasada”, afirmou.

Um dos motivos deste “atraso”, segundo Marco, é a presença recente do setor no mercado denim. “Tecelagem existe no Brasil há mais de cem anos, plantio de algodão há mais de dois mil anos, e a indústria de beneficiamento surgiu a cerca de cinquenta anos no mundo”, exemplificou o presidente da GB. Neste período de existência tão recente, apenas nos últimos 15 a 20 anos o fator sustentabilidade passou a tomar relevância.

Ainda segundo o diretor da ANEL, a empresa figura como uma das pioneiras mundiais na busca por sustentabilidade ambiental e social e entende a exigência como oportunidade. “Há 15 anos desenvolvemos processos sustentáveis e estamos finalizando agora um processo de lavanderia com zero química”, disse Marco, ressaltando que comparada a uma lavagem doméstica, representa uma ação mais poluente do que o novo processo.

“Nós já fazíamos uma calça com zero química há mais de dois anos, mas ela não ficava bonita e comercial”, explicou. O avanço no desenvolvendo de novas máquinas nos últimos dois anos, somado à diversas tecnologias e processos como bioquímica, laser e ozônio, de acordo com o presidente da GB Customização, fez com que o desafio de um look comercial fosse alcançado.

Marco fez questão de explicar o processo de transformação do oxigênio em ozônio realizado pela usina da GB, para descrever o nível de sustentabilidade envolvido no processo. “Transformamos oxigênio, que é O2, por meio de uma descarga elétrica, em ozônio que é O3, e após o uso ele volta a ser oxigênio”, explicou.

Segundo ele, o resultado da aplicação não é percebido pelo consumidor. “Ele não vai perceber uma diferença no visual da peça, só vai chegar na loja e ver uma peça com aspecto de moda atendendo às características que o mercado pede”, esclareceu.

Questionado quanto aos efeitos que a tecnologia sustentável que a GB Customização produz, Marco Britto explicou que o objetivo é reproduzir todos os efeitos que existem no mercado, mas de forma altamente sustentável.

“Imitamos todos os efeitos, mas com menos água e menos química”, explicou o executivo. Em contrapartida, incitou: “Mas para empresas que queiram investir, nós também podemos produzir uma moda diferenciada, que não possa ser copiada com uso do produto químico”.

A ideia de que um produto altamente sustentável é mais caro também foi alvo de reflexão. “O custo da peça foi um dos problemas que encontramos ao longo destes quinze anos de tecnologia”, comentou. Compartilhando os avanços que a indústria de beneficiamentos conquistou, esclareceu: “Hoje ele é praticamente o mesmo com uma diferença muito pequena de dois a três por cento para o consumidor final.”

Em todos os elos da cadeia denim, a implementação do conceito de sustentabilidade encara desafios. No caso da indústria de lavanderias, o desafio maior consiste na trajetória recente do setor, e ainda mais recente da inclusão do conceito nas práticas. “A indústria zero química é nova”, explicou Marco Britto. É difícil você ter sustentabilidade na indústria convencional, são poucas no mundo que tem esse controle. O maior desafio em fazer essa indústria nova, com toda essa ruptura foi fazer as pessoas acreditarem que era possível”, compartilhou.

Marco contou que a desistência e o retorno fizeram parte da trajetória evolutiva e da criação da nova indústria, que é a lavanderia zero química. “As máquinas são muito caras e eu mesmo cheguei a desistir umas três vezes por falta de apoio”, explicou. “Hoje a tecnologia está pronta para o mercado, a Covolan é um dos nossos parceiros que aprovou e a utiliza”, comemorou.

O debate trouxe a tona dados importantes, como o percentual de 6 a 12% de denim desperdiçado nos processos de corte das confecções. Segundo Marco, poucas indústrias fazem o resgate deste material, que quando não reciclado e transformado em novos fardos, acaba indo para o aterro. Uma delas é a Covolan, através do artigo Circular Denim.

“Temos estudo na ANEL que 65% deste lixo no Brasil vai para o aterro sanitário, que não é o lugar apropriado”, contou Marco.

Quanto aos entraves das misturas de denim para circularidade, Thaísa Peralta comentou que no artigo pré-consumo o reaproveitamento se torna mais simples, do que no pós consumo. “Produtivamente falando, o processo de reaproveitamento circular pós consumo é mais complexo”, detalhou a denim head da Covolan, lembrando que entre o mesmo implica na remoção dos metais e aviamentos, por exemplo.

Segundo Thaísa, as misturas na composição não impedem uma trajetória circular, mas classificam o artigo em diferentes níveis de qualidade. “O artigo 100% algodão é gold […] Já os que têm poliéster ou elastano misturado ao algodão, tem outra nota na classificação”, concluiu.

Questionado quanto ao impulso que o moveu no longo e disruptivo caminho da sustentabilidade, Marco respondeu que para além das oportunidades de negócios, foi movido pela ideologia. “Trabalhar em um tipo de indústria que é uma das vilãs ambientais, e desejar livrá-la desta má fama”, explicou.

A lavagem com energia autosuficiente através do uso de energia solar, o desenvolvimento de um novo nome para a indústria zero química, somado a uma estratégia de marketing que a divulgue e a sua respectiva comercialização estão entre as estratégias futuras da GB Customização.

Quanto aos principais desafios e “gargalos” impostos pelo mercado para o algodão, Francisca Vieira contou que além das dificuldades de seleção do fio e lavanderia, a principal obstáculo para a inclusão do seu produto sustentável foi habituar o mercado à cor do algodão. “Se convencionou que o jeans é azul e nós não temos algodão azul”, explicou. “Nossa maior dificuldade é também nossa melhor vantagem”, concluiu, lembrando que o algodão colorido não demanda o tingimento portanto não gera os descartes típicos do processo.

Neste sentido, estamos em um momento muito feliz pois a pandemia mudou a visão de muitas pessoas, explicou. “Estamos com muitos contratos de grandes maisons”, como a Half Nature e a japonesa Visvim, entre muitas outras que Francisca não pode mencionar devido ao contrato de sigilo. Já Thaisa Peralta relatou que buscou convencer cada parceiro da Covolan, a caminhar junto no desafio da sustentabilidade.

Como consenso, todos concordaram que o principal “gargalo” para que a sustentabilidade prevaleça ainda é a conscientização do consumidor.

Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução