Denim Meeting Talks reúne principais têxteis e traça caminhos pós-confinamento

Na última terça-feira, o Guia JeansWear promoveu sua primeira edição totalmente online do evento Denim Meeting, reunindo os maiores players da indústria têxtil em um bate papo enriquecedor sobre as possíveis ações pós-confinamento.

O webinar contou com a presença de Marco Antonio Branquinho, presidente da Cedro Têxtil, German Alejandro, diretor comercial da Vicunha Têxtil, e Gilberto Stocche, presidente da Santista Têxtil. A lista de convidados segue com Eleonora França, gerente de marketing e produto da Santanense, João Bordignon, diretor de marketing da Capricórnio Têxtil, Antonio Manzarra, diretor comercial do grupo Santana Textiles, Aline Cabral, gerente de marketing planner da Covolan Têxtil, e Claudete Del Vecchio, gerente de produto e marketing da Jolitex Denim. A mediação ficou com a CEO e diretora executiva de comunicação do Guia JeansWear, Iolanda Wutzl, e a colunista do portal Vivian David.

O bate-papo teve início com Iolanda Wutzl esclarecendo o propósito de realizar talks com profissionais do mesmo setor da indústria têxtil do denim. “Trazer profissionais do mesmo setor é para que os mesmos possam passar as ações que as suas empresas tem tomado, mediante o surgimento de novas demandas da nossa indústria. Iniciamos com o topo da pirâmide, que são as têxteis, químicas e tecnologia que serão os próximos, para conectarmos setor com setor e entregarmos juntos o fio da meada aos de maior escala como confecções”, disse.

“Notamos que muitas pequenas empresas ainda estão na inércia, com o ‘freio de mão puxado’, não aproveitando a quarentena para buscarem inovação, mudanças e adaptações nos negócios, sendo que isso só se consegue com a união das equipes de cada empresa x transparência da trabalho da mesma”, completou a CEO e diretora executiva de comunicação.

Na sequência Vivian David abordou as principais tendências como tecidos multifuncionais, antimicrobianos e duráveis, seguindo consumidores cada vez mais focados em proteção e conforto. Neste cenário, podem ser valorizados em dois momentos: outwear (para usar fora de casa) e “roupas para ficar em casa”, incluindo aí o home office. A sustentabilidade é outro fator muito importante no desenvolvimento dos novos tecidos com reaproveitamento de fibras, resíduos ou misturas com frutas, grafeno, entre outras.

E o que as indústrias brasileiras estão desenvolvendo com base nessas tendências?

Antonio Manzarra, da Santana Textiles, pontuou a questão da sustentabilidade que vem crescendo, mas não acredita em uma mudança tão rápida pós-Covid-19. “Sendo bem realista, essa pandemia não vem potencializar a consciência do consumidor, mas talvez ele possa vir a ter um sentimento mais nacionalista e patriótico do que sustentável”, comentou.

De acordo com o diretor, para se tornar uma empresa sustentável é necessário olhar primeiro para dentro e depois para fora, ser mais assertivos com a escolha de produtos, não acumular estoques e também trabalhar produtos que preservem o meio ambiente.

German Alejandro, da Vicunha, acredita que não haverá um mundo pós-Covid19, mas sim, teremos que aprender a conviver com o vírus por algum tempo até que possa surgir uma vacina ou tratamento. Dentro deste contexto, ele destaca três características: consumidor mais consciente, preocupado com o que está adquirindo e gastando o seu dinheiro.

Em segundo lugar, a transparência na cadeia e, por fim, o movimento Feito no Brasil agregando valor aos produtos. “Os consumidores do amanhã estão preocupados com a sustentabilidade, o ‘Made in Brazil’, o valor correto dos produtos, mas quando entra na loja, ele se perde. Mas daqui para frente, eles estarão com esse olhar mais consciente”, disse German.

E o que fazer para que todas essas informações possam chegar ao consumidor? Para German Alejandro, é preciso integrar toda a cadeia, começando pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (ABRAPA) e passando por todo o elo da moda, em uma cooperação conjunta.

Gilberto Stocche, representando a Santista Têxtil, comentou que “tivemos que aprender a trabalhar do dia para a noite dentro de casa”. Com isso, o executivo acredita que as empresas vão passar a flexibilizar horários, permitindo o home office e isso vai impactar também no vestuário. Os consumidores também devem procurar ser mais racionais na hora da compra e irão preferir produtos que oferecem mais conforto. Porém, como já aconteceu no pós-guerra, os consumidores vão buscar se vestir melhor para os encontros, reuniões diversão e passeios.

Dentro desse cenário, Gilberto afirma que o denim é ideal já que mescla estilo e alta tecnologia, principalmente nos produtos com alto stretch. Em relação a sustentabilidade, o presidente da Santista comenta que é um caminho sem volta com ações que cuidem do meio ambiente, mas também da área social.

“Durante a pandemia, a Santista tomou a atitude de engajar a equipe e ajudar a sociedade. Temos que entender nosso papel na sociedade com uma visão a longo prazo”, pontua.

Calendário

Gilberto comentou que sairão arranhados dessa crise, mas vão adaptar a oferta de produto. “Não acredito em coleções gigantes, mas sim em tecidos funcionais. Temos dentro de nosso portfólio esses produtos com volume mais baixo e outros com custo-benefício mais adequado. Vejo ainda duas coleções por ano, porém mais racional, mais focados”, comenta.

Para João Bordignon, da Capricórnio Têxtil, o ritmo dos lançamentos talvez mude um pouco em um primeiro momento, com produções menores devido à demanda do mercado. Mas também é hora de repensar o excesso que antes acontecia, pois segundo o diretor a nova geração não vai consumir tanto quanto às anteriores. “Não acho que vai mudar tão rápido, mas vai evoluir”, comenta.

No segmento jeanswear, os lançamentos até podem acontecer uma vez ao ano, por se tratar de um produto atemporal. Neste ano, a Capricórnio fará somente um lançamento devido à pandemia, porém para o ano que vem eles não sabem, talvez continue assim. A empresa sempre trabalhou com coleções enxutas com produtos, mais focados de acordo com a necessidade do cliente.

O executivo comentou que estão focando na fase de recuperação, mas não acredita no pós-Covid. “Não sei se existe um ‘pós’, não sabemos quando teremos uma vacina, quando vamos andar livres, sem máscaras […] Por ser uma crise diferente vão acontecer algumas alterações, mas elas não acontecem de uma hora para outra. Além disso temos que interpretar essas mudanças para o Brasil, onde temos questões próprias, inclusive aspectos culturais diferentes”, afirmou João.

Em relação aos tecidos, o executivo concordou que terá uma demanda maior por artigos mais elastizados, calças confortáveis, como por exemplo, com elásticos na cintura, no denim moletom, tecidos leves, novas fibras, com toque suave. A Capricórnio Têxtil não tem uma linha sustentável, mas pretende lançar algo esse ano, estão se organizando internamente para isso.

Contudo, João ressalta a importância da inovação como algo menos complexo e caro, onde entram as lavanderias, confecções que podem criar algo diferenciado sem depender de um tecido com custo mais elevado.

Neste sentido, Marco Antonio Branquinho pontuou que a Cedro Têxtil está trabalhando para adaptar seus produtos para a maior demanda do conceito indoor, onde oferecem dois mix de tecidos – um mais atemporal e outro com diferenciais em estrutura ou tingimentos. O executivo afirmou acreditar ainda que a forma de comunicação com os clientes  será auxiliada cada vez mais pelo digital. A empresa está treinando seus representantes para esse novo processo para que possam atuar como consultores, onde estarão muito mais bem informados sobre os produtos.

Em relação à sustentabilidade, o presidente da Cedro ressalta a legislação brasileira bem rigorosa e lembra que competem com players internacionais que não necessariamente passam pelos mesmos requisitos. “Então, como transformar todo esse valor econômico para sustentar esses produtos?”, refletiu Marco. Algo para se pensar em um futuro próximo.

A gerente de marketing Eleonora França, da Santanense, acredita que teremos que aprender a conviver com a Covid-19 através de diferentes ações. Em relação às tendências mencionadas, como os tecidos funcionais, sustentabilidade e praticidade, tudo isso já vinha sendo discutido há algum tempo e na verdade, devemos pensar o quanto isso vai representar de custo para o consumidor final.

“Temos que pensar em nós como consumidores finais também. Eu pagaria realmente por isso? A roupa funcional não precisa de tecidos diferenciados, aqui pode entrar a questão de estilo, shapes, recortes diferentes, o quanto eu posso colocar de empenho para fazer com que essa roupa se torne diferenciada e funcional”, afirma Eleonora.

E, continua: “Não é o corpo que veste a roupa, mas a roupa que veste o corpo. Temos que pensar na roupa para dentro de casa e que também vai para a rua, que envolve, que tem uma modelagem, acabamento, elasticidade. O quanto eu posso agregar a essa roupa?”.

Eleonora ainda ressaltou que a roupa do home office precisa ser confortável, mas sem estar 100% relaxada. E sim,  com peças que possam unir o vestuário de escritório e o conforto necessário.

Tendências

Em relação às tendências, Eleonora França acredita que é ter um olhar mais amplo para poder falar de novos modelos de negócios que vão surgir. As novas gerações são mais conscientes, porém temos o fator econômico.

“É importante que a confecção conheça o produto para direcionar para uma coleção final diferenciada […] O online é importante mas temos que valorizar nossas equipes de vendas, sem eles não conseguimos fazer as informações chegarem aos clientes. Precisamos pensar além, ter foco cada vez mais completo”, disse a gerente de marketing.

Além disso, o fortalecimento do setor também foi abordado por Eleonora na união da cadeia e na importância da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), para reunir e conversar com todos os elos.

Claudete Del Vecchio, da Jolitex Denimapontou que sustentabilidade não se faz de uma hora para outra e que gostaria muito que o setor fosse mais unido, mas ela acha que isso não existe. No pós-pandemia, as pessoas devem valorizar os encontros sociais e voltar a consumir.

Sobre os lançamentos, Claudete destacou que empresa sempre realizou um lançamento por ano. “Para inovar não precisamos de várias bases de tecidos, temos grandes lavanderias que podem fazer maravilhas com os artigos. É importante cada um fazer sua parte e pensar em como podemos sair bem disso”, disse.

Enquanto isso, Aline Cabral, da Covolan Têxtil, acredita que o jeans não vai recuar porque ele reúne qualidade, tecnologia e inovação. “Nós devemos observar as demandas e comportamentos dos consumidores, precisamos ser sensíveis. O cenário tem mudado dia a dia e devemos nos adaptar. Nosso mercado é muito presencial, mas o digital está sendo muito rico para todos”, comentou.

A gerente comentou também que o mercado é puxado por grandes players que trabalham a sustentabilidade, tecnologia, rastreabilidade. E isto continuará, assim como a volta do mercado com coleções mais assertivas de acordo com as necessidades dos clientes.

O webinar completo pode ser conferido no canal do Guia JeansWear no Youtube, basta clicar aqui.

Fonte: Vanessa de Castro | Foto: Reprodução