Marca gaúcha Brisa traz moda sustentável e tingimentos naturais

“A moda não é só consumo e conceito, já não é mais passarela, ela muda vidas, muda estéticas, tem o poder inclusive, se a modelagem não for bem-feita, de mudar o corpo das pessoas. A moda virou uma forma de ativismo, deixou de ser somente roupa, deixou de ser só estética”.

Brisa está há três anos no mercado e segue o slow fashion com uma pegada totalmente sustentável, que é um caminho sem volta dentro do mercado de moda. A marca está presente em um coletivo de Porto Alegre e acaba de chegar a São Paulo, na loja Amarelo Limão, em Perdizes, além das vendas online.

A nova coleção traz camisas, tops, pantacourts em linho, além dos blazers no estilo utilitário, calças com elásticos e macacões nas sarjas com toque suave, ora mais leves, ora rígidas e bem marcadas em uma moda prática, atemporal e sustentável.

Confira nessa entrevista exclusiva com a criadora da marca, Tatiana Stein, qual o propósito em se trabalhar uma moda que valoriza todo o processo incluindo também a mão de obra e toda a questão da sustentabilidade.

Guia JeansWear: Como surgiu a ideia para a criação da marca?

Tatiana Stein: Eu morei num sítio autossustentável e orgânico, onde plantamos tudo o que se come e utiliza e trabalhava no fast fashion, produzia para as classes C e D. Precisava fechar preço, planejamento e vivi quase 10 anos no meio de uma maneira bem intensa, viajando para fora, comprando amostras, reproduzindo, fechando custos, escolhendo matéria-prima e aos poucos fui me questionando, muito por morar também no sítio, por não fazer mais sentido pra mim toda essa questão da indústria.

Trabalhei numa fábrica que produzia para grandes magazines e lá foi muito chocante de ver como era produzido o blazer que se vendia nessas lojas. Conforme a lei estava tudo certo, mas eu nunca colocaria um filho meu para trabalhar lá. Eu passava do refeitório até o escritório entrava no ar condicionado enquanto as mulheres todas em fileiras passando roupa de pé com os braços praticamente queimados e os olhos ardiam de tanto calor do ferro, então essas coisas foram me chocando muito, de ver que uma roupa precisava de tanto esforço para ser produzida por um custo tão baixo.

GJ: Qual o diferencial da Brisa?

TS: A Brisa nasceu no sítio porque eu plantava, produzia, revirava composteira e aí foi lá que encontrei um pedaço de lã sintética e aí me dei conta de que não queria produzir uma moda suja, uma moda que se fosse voltar para o meio ambiente, ia ficar mais de quatro gerações no mundo, aí resolvi criar uma roupa limpa, do início ao fim do processo, do plantio até o descarte dela.

GJ: Qual o significado do nome da marca?

TS: Ela é muito do sentimento, ela é aquele sentimento que transmite feminilidade, leveza e como uma roupa que veste, sem pesar.

GJ: Qual o estilo da marca? Que mulher você imagina utilizando suas roupas?

TS: Para uma mulher minimalista, que gosta de peças confortáveis, sem se preocupar em marcar curvas, segura de seu corpo, que por debaixo daquela roupa, ela está segura de que se ama independente do tamanho dela.

GJ: Qual a numeração?

TS: Faço P M G de produção, mas produzo sob encomenda conforme as medidas das clientes.

GJ: Quais os tecidos utilizados nessa coleção?

TS: Trabalhei bastante com linho, matéria-prima orgânica e sustentável desde a produção, três extratos bem fortes que é a serragem do pau brasil que eu coleto de lixo da indústria musical, de arcos de violinos, a cúrcuma, que é o amarelo, e a casca de romã com ferro que é o cinza. O ferro eu extraio da ferrugem de pregos enferrujados misturados com vinagre, açúcar mascavo e água. É uma cartela leve que obviamente vai ser muito usada no verão, mas que pode ser usada para sempre compondo diferentes cores. Usei também o algodão orgânico com duas gramaturas, o brim e a sarja mais pesada com ring marcado.

Trabalho também com a lã em parceria com uma cooperativa de Porto Alegre e o modal, de reflorestamento, certificado pela Lenzing.

GJ: Já trabalhou com outros tingimentos? E como aprendeu essas técnicas de corantes naturais?

TS: Urucum, Tanino proveniente da casca da Acássia Negra, uma árvore, muito usado para curtume. Fiz muitos cursos, muita leitura, erros e acertos para conseguir trabalhar as técnicas de tingimentos. Dou cursos em Porto Alegre, desmistificando um pouco do tingimento para mostrar o que dá certo, o que não dá, tudo uma questão química, podemos mudar o PH, colocar bicarbonato e ter outra tonalidade, colocar limão e mudar a cor…Tenho um Atelier onde fica todo o material utilizado, tudo produzido manualmente. Cada peça é única.

GJ: Sua moda é slowfashion. Como trabalha a entrada de novas peças?

TS: Não trabalho com coleções de fato, vou tirando e colocando produtos, sentindo conforme o desejo das clientes. Não há uma cor pré-determinada para cada estação. Produzo de 3 a 5 peças de cada modelo. Vou sentindo conforme a demanda, não tenho estoque excessivo, não faço promoção.

Na verdade, tudo o que aprendi na faculdade de moda, eu zerei, deletei, disse “tá tudo errado isso aí e vou fazer do meu jeito”. E é bacana porque eu construo muito com o consumidor, ele é parte do processo. Inclusive eu trabalho na comunicação, mostrando nas mídias sociais os bastidores do processo, mostrando também que o erro faz parte e que a moda não é tão bonita assim por trás, quando a gente tem panelas, quando trabalha com roupas.

GJ: Que tipo de composição aceita essas pigmentações?

TS: Principalmente as fibras naturais.

GJ: Demanda muito uso de água?

TS: Menos do que se fosse produzir de forma química. Para produzir uma regata devo usar uns 10 litros de água, mais ou menos. E tudo pode voltar para o meio ambiente, porque é como se fosse uma sopa, todo o extrato que eu uso é compostado, ele volta para a natureza.

GJ: Como é a sua equipe de produção?

TS: Tenho um alfaiate e uma costureira que trabalham pra mim, corte e costura, tenho uma cooperativa só de mulheres que fazem as serigrafias das minhas ecobags.  E uma artesã que faz um trabalho manual de tear e tricô, em mantas.

GJ: Como você enxerga o mundo da moda atual? Você acha que está no caminho certo, mesmo que muita gente ainda não entenda todo esse processo de moda sustentável?

TS: Precisamos de muita resiliência. Todo dia eu me pergunto porque entrei nesse mundo e estou insistindo, é muito difícil porque são anos de criação, de mentalidade do consumidor, e até de ser humano. É questão também de empoderamento feminino, acreditar que a moda faz parte de uma transformação no mundo, a moda é política, a moda não é só consumo e conceito, já não é mais passarela, ela muda vidas, muda estéticas, tem o poder inclusive, se a modelagem não for bem-feita, de mudar o corpo das pessoas. A moda vira uma forma de ativismo, deixa de ser somente roupa, deixa de ser só estética.

GJ: E como você vê a moda daqui pra frente? Você acha que a mentalidade das pessoas está mudando?

TS: Uma pequena parcela está mudando. Eu me vejo muito como as mulheres que queimaram o sutiã para ter liberdade ao voto, então, o que eu estou fazendo é muito mais para plantar para as futuras gerações, é um caminho bem difícil, bem árduo, mas eu não me vejo fazendo outra coisa, não me vejo voltando para o mercado tradicional e criando com planilhas, copiando de estilistas…Os pequenos estão mostrando para os grandes como se faz. Isso é muito bacana, de levantar essa bandeira.

GJ: Quais os próximos projetos e eventos?

TS: Vou fazer uma feira no Milan Fashion Week, dia 22 de setembro, para talentos emergentes do Brasil que trabalham a moda sustentável.

GJ: O que é ser sustentável para você?

TS: Sustentabilidade pra mim não é somente fazer hortinhas, é respeitar toda a cadeia, todo mundo que está envolvido com aquilo, pagamento justo, com redistribuição de renda, é valorizar o trabalho de cada um.

GJ: A moda sustentável normalmente é mais cara. Como você lida com a consumidora que gostaria de comprar a sua roupa mas não tem condições ou acha o preço muito elevado?

TS: Semana passada aconteceu a primeira vez de uma menina me mandar uma mensagem através do Instagram dizendo que amava a Brisa que acompanhava há muito tempo, mas que ainda era muito elitista, que amava a camisa de linho, mas não tinha condições de comprar. Aí eu respondi para ela que era a mensagem que eu mais gostaria de receber na Brisa e embora que saiba que tem todo um custo, que temos de pagar de forma justa, eu entendo que ainda é muito elitista, isso porque minha margem de lucro é mais baixa do que uma fast fashion.

E aí fiz uma proposta pra ela: queria saber, dizendo o valor do custo do produto físico, quanto ela estaria disposta a pagar? E ela ficou sem jeito, não estava esperando aquela resposta e disse que também não achava justo a marca não ganhar nada. Descrevi para ela o valor da tag, embalagem, tecido, mão de obra. Expus tudo pra ela, sem calcular meu custo fixo, marketing, minha mão de obra… E entramos num acordo de um valor justo para ambas e ela comprou a camisa. Mostro todos os dias no Instagram as dificuldades de todo o processo, isso é muito importante. Temos que ter transparência com o consumidor.

Fonte: Vanessa de Castro | Fotos: Divulgação