O papel das lavanderias durante e após a pandemia do coronavírus

Vivemos um momento em que toda a cadeia de moda está se reinventando para sobreviver ao Covid-19, partindo do fio à tecelagem, do fabricante ao confeccionista, até chegar na loja e, por consequência, no consumidor. Contudo, o segmento denim tem uma especificidade de suma relevância: um elo a mais que o faz girar de uma forma singular. Estamos falando de uma terceira indústria, gigantesca e dotada de um imenso parque industrial, a qual depende totalmente de todas as outras: as lavanderias.

Ao mesmo tempo em que elas dependem das confecções, também viabilizam o processo de um mix, que talvez seja o mais sólido em termos de apelo comercial para as marcas e para o varejo: o jeanswear.

Sabemos que atualmente a importância das lavanderias vai além do visual de uma peça, tem o poder de agregar através do acabamento argumentos maiores como sustentabilidade, performance e toque. Características que já vem sendo apontadas como diferenciais no momento da retomada pós-pandemia. Interligado as lavanderias, temos também outros setores: os desenvolvedores de produtos químicos e as maquinas para o acabamento do jeans.

Este elo importante da cadeia, ao que parece, tem sido um dos mais persistentes no momento. Na região do Alto Vale do Itajaí, em Santa Catarina, a lavanderia Cristal vem se mantendo ativa, operando com redução de 40% das suas atividades. Enquanto isso, no Espírito Santo, o grupo GB Customização permanece ativo na sua unidade de São Gabriel da Palha mantendo fechada apenas a unidade de Colatina.

“Estamos seguindo os protocolos de segurança para o ambiente de trabalho para que nossa equipe mantenha as atividades sem risco”, conta Marco Britto, presidente do grupo e vice-presidente da Anel, a Associação Nacional das Empresas de Lavanderia. “Nossos colaboradores com idade acima de cinquenta anos foram liberados para ficar em casa com remuneração normal, como se estivessem trabalhando”, acrescenta.

Já na região da Jordanesia, distrito do município de Cajamar, em São Paulo, a fabricante de químicos alemã CHT, continua operando da mesma forma, porém com muitas pessoas em home office. “Toda parte produtiva e as pessoas que não conseguem trabalhar de forma remota estão devidamente preparadas para que não ocorra nenhuma contaminação internamente”, explica Ciro Carnevalli.

Ao seu favor, neste momento de crise provocado pela pandemia do novo coronavírus, as lavanderias de jeans mais modernas detém nas mesmas tecnologias voltadas para o estilo, a capacidade de realizar a esterilização das roupas. Um diferencial valioso que facilita o cumprimento de protocolos de segurança, reduz o medo de continuar e mantém um controle importante no ambiente de trabalho.

Na catarinense Cristal, esta característica tem sido esta uma determinante para que a companhia continue operando com a segurança da não contaminação. “Adotamos a prática de passar o ozônio na chegada e na saída das peças, pois assim eliminamos a chance de qualquer contaminante”, conta Hiago Butzke Martins, administrador da companhia. “Era um processo que já fazíamos antes mas não em toda a produção, porém devido ao contexto decidimos expandi-lo para a produção toda”, explica o empresário.

A espanhola Jeanologia, da mesma forma, passou a empregar a tecnologia G2, fundamentada no ozônio, como método de desinfecção e sanitização  das máscaras de proteção dos hospitais em Valencia. De acordo com Enrique Silla, a produção foi reformulada em uma semana, alcançando a expressiva quantia de 15 mil máscaras desinfetadas por dia, o que fez com que a companhia passasse a ser considerada essencial nas ações de combate ao Covid-19 pelo governo da Espanha.

Já nos fabricantes de químicos, a tecnologia de ponta tem permitido fabricação de produtos distintos dos habituais. Por meio da flexibilização dos processos, algumas companhias estão conseguindo se manter ativas “surfando na onda positiva da empatia”. Entre os exemplos, temos a CHT que passou a produzir álcool 70% liberado pela Anvisa, os quais estão sendo doados para as unidades públicas como bombeiros, UPA’s e polícia da cidade.

Tecnologia a favor, dores iguais. “Calculo que tenhamos um impacto de cerca de 40 a 60% de redução na demanda pelo serviço”, conta Hiago. “Os nossos clientes maiores não cancelaram seus pedidos de inverno, no entanto escuto muitos falando que vão ir direto para a próxima coleção buscando uma alternativa para fazer um produto mais enxuto e com preço”, explica.

Na lista de desafios deste setor tão importante, temos o mais definitivo de todos: o reconhecimento de que se trata de uma indústria gigante que depende completamente de todos os outros elos da cadeia para girar. “O que eu vejo como grande vantagem para a Cristal é que nossos clientes não vendem em grandes centros, eles representam uma parcela minoritária da nossa produção por isso percebo o impacto dessa crise não como algo da minha empresa mas da cadeia como um todo”, completou Hiago.

Deste modo, mesmo permanecendo ativas e sentindo apenas parcialmente a crise, as companhias de químicos e acabamentos para o denim estão encontrando as suas soluções para sobreviver ao agora tomando como mote a percepção de todos os elos da moda. A estabilidade dos colaboradores e parceiros se mostram primordiais.

“A principal ação anti-crise que vejo é  não gerar desemprego”, defende Hiago, da Lavanderia Cristal. “Até porque quando a coisa melhorar você vai precisar de bons profissionais novamente e a partir do momento que se tem demissão a roda não gira mais, você não tem mais pessoas lá na ponta comprando”, explica.

“Temos reuniões online a todo instante, dicas, trabalhos em equipe, tudo para sentir e transmitir o menor impacto possível aos nossos clientes, de toda esta crise financeira que começa ocorrer”, compartilha Ciro, da CHT. “É momento de unir forças em tudo: ajudas voluntárias e econômicas e adotar negociações realmente feitas visando o bem estar de todos, literalmente o C2C (Cradle to Cradle)”, opina, sinalizando mudanças também na gestão dos negócios decorrentes da crise.

São muitos os desafios. Como consenso, todos se preparam para o pior. E também como unanimidade, todos – independente de uma atuação regional ou mundial – esperam pelo melhor. “O jeans sobreviveu a gripe espanhola, à primeira e a segunda guerra mundial e irá sobreviver ao novo coronavírus, e voltará diferente, menos poluente e mais sustentável”, afirma Marco Britto do Grupo GB Customização, propagando otimismo.

Neste momento, onde os consumidores refletem suas atitudes e se tornam mais atentos à procedência do seu próprio consumo, chamamos atenção para o papel das lavanderias e a oportunidade de se investir em maquinário para beneficiar o produto do princípio ao fim em solo nacional. Também o privilégio de dominarem soluções de esterilização, como uma estratégia poderosa de valor e convencimento para este momento de crise, a qual as marcas podem e devem explorar.

Ainda no quieto vantagens frente a crise, destacamos o respaldo de alguns elos da cadeia que são próprios do setor, como as empresas de produtos químicos que neste momento apresentam estabilidade maior e mantém seu elo da cadeia ativo e operante. O jeans é uma escolha de moda estável e sem arrependimentos para o consumidor – contanto que tenha fit, preço e qualidade. E para que isto seja retomado, as lavanderias são elementos fundamentais.

Aos nossos leitores, lembramos que o segmento é grandioso e consistente, e que historicamente sempre reagiu às dificuldades valendo-se de avanços e expansões no mercado como estratégia. Logo, temos argumentos e trajetória para transformar esta crise sem precedentes, em mais um capítulo de superação deste incrível produto.

Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução