Profissional multifuncional é responsável pelo novo visual do Festival do Jeans de Toritama

Apesar da cara de menino maroto, Leopoldo Nóbrega é um multifuncional profissional de moda. O garoto é artista plástico, estilista, cenógrafo e consultor em moda e mercado, e foi um dos responsáveis pela realização do 9º Festival do Jeans em Toritama. Em entrevista especial, Leopoldo conta ao Guia Jeanswear um pouco de sua trajetória e sobre a concepção do Festival.

GJ – Leopoldo, fale um pouco para o GuiaJeanswear sobre essa paixão que você tem pela moda e pela arte, que atravessa fronteiras para exibir com orgulho a cultura Nordestina.

LN – Eu diria que está no sangue criativo que herdei da família. Minha mãe é artista plástica, minha avó era costureira das boas, meu avô tocava cavaquinho e sapateava e toda a família sempre demonstrou talento. Inicialmente fui conquistado pelas artes plásticas sob influência da minha mãe.

Fui criado em um mundo de cores, tintas, telas e muitas referências de história das artes. Durante minhas investigações, ainda muito criança, com 10 ou 12 anos, mergulhei na cerâmica (minha primeira paixão). Em seguida fiz curso técnico de quí¬mica industrial para focar ainda mais na cerâmica e suas alquimias. Realmente fantástico! Quando vi, tinha descoberto uma liga muito resistente que deveria servir para algo que precisasse de resistência mecânica. No turbilhão dos experimentos resolvi aplicar à moda e para minha surpresa, a resposta foi imediata: Novo talento na moda pernambucana! Anunciaram os jornais e revistas. Meio sem entender o que isso significava para o mundo da moda, fui percebendo como poderiam ser interessantes essa mistura. E segui com todo o apoio da famí¬lia e amigos que acreditavam no potencial. Isso foi há 12 anos. Comecei com produções conceituais no meu atelier em Recife.

GJ – Há quanto tempo você está atuando na região do Nordeste?

LN – Há oito anos venho me dedicando ao universo industrial e trâmites peculiares da região agreste de Pernambuco. Atuando em consultorias, gestão, desenvolvimento de produtos para magazines e marcas locais, campanhas e militâncias políticas. Em outubro de 2008, fui convidado pela ACIC (Associação Comercial Industrial de Caruaru) para fundar uma Câmara dos Profissionais da Moda.

GJ – Qual o objetivo desta Câmara?

LN – O objetivo estratégico é fortalecer a classe de profissionais da moda (estilistas, modelistas, styling, fotógrafo, designer etc.) e criar uma promoção dos mesmos como profissionais. O resultado vai de capacitar o mercado a projetá-lo de forma correta, com valor agregado, aumentando a estima da sociedade local e descobrindo talentos.

GJ – Como foi sua trajetória até chegar no Festival?

LN – Quando fui convidado a integrar a equipe executiva do Festival do jeans de Toritama (composta pela: Primeiro Plano – eventos corporativos e ACIT), como consultor em moda e mercado, diretor de arte, curador e cenógrafo, percebi a total liberdade para criar um novo formato de comunicar o Jeans produzido em Pernambuco. Resolvemos apostar em um formato multicultural, mais próximo do conceito de festival, em que a moda fosse nosso grande elo.

GJ – Qual o objetivo do Festival?

LN – Atrair o público de outros estados e de diferentes segmentos para um festival do jeans recheado de moda e arte, bem ao estilo pernambucano, deslocando a referência de agreste para Pernambuco e investindo na arte popular como um traço expressivo na identidade nacional. Porém, o objetivo principal foi de reforçar a identidade institucional de Toritama e mostrar que o jeans pode ter valor agregado, valorizando a criatividade, o conceito, a qualidade e a tecnologia na sua produção.

GJ – Como surgiu a ideia de introduzir o movimento Armorial no Festival?

LN – Descobrimos que em outubro deste ano, o movimento Armorial completará 40 anos, e mergulhei ainda mais na obra de Ariano Suassuna. Descobri que tudo começou em 1920, com Mario de Andrade, em São Paulo. O Brasil começava a criar suas próprias referências no cenário internacional. Em seguida tivemos o boom da semana de arte moderna que deu continuidade ao pensamento nacionalista e depois tivemos o movimento Armorial em paralelo ao tropicalismo, em 1960 e 1970. Por estarmos buscando essa identidade para a moda produzida em Pernambuco, abraçamos o legado Armorial e continuamos a absorver todas as referencias possíveis desse universo que trata das raízes pernambucanas. Arquétipos como: a feira, o circo, os cordéis, as xilogravuras, a figura do cangaceiro, a religiosidade, a cartela de cores sempre puras e fortes, os detalhes de couro e o encanto pelo lúdico. Tudo isso foi fonte de inspiração para o desenvolvimento do projeto.

GJ – O que você pretendia com essa união de moda e cultura?

LN – O desejo era agregar valor a produção local, resgatando um caminho conceitual para o jeans produzido, com base na identidade pernambucana. Como sabemos, a autoralidade sempre foi um ponto crítico nos grandes pólos de confecção. Acredito que podemos conquistar espaço na moda brasileira valorizando o que temos de mais importante: Nosso legado cultural.

GJ – E o circo, como entrou nessa História?

LN – Descobrimos que uma das primeiras peças teatrais escritas por Ariano Suassuna (o Auto da Compadecida) foi encenada em um circo e lançamos mão desse cenário. Convidamos Antúlio Madureira, grande expoente da música erudita e outras atrações locais que comungavam dessas influencias. Encomendamos um cordel para coroar esse momento. Lançamos: A Peleja da Moda com a Arte na Terra do Jeans.

GJ – O que você sentiu em participar dessa realização?

LN – Fiquei totalmente absorvido pela nossa própria história. Foi realmente emocionante.

GJ – Como foi a elaboração dos modelos?

LN – Em parceria com a equipe de estilo da Santana Textiles, (patrocinadora), que acreditou e vibrou com o projeto, demos um treinamento às marcas envolvidas, mostramos referências Armoriais, ideias de caminhos criativos e em pouquíssimo tempo (menos de 30 dias) tivemos as coleções dos desfiles. Todas as etapas foram em tempo recorde.

GJ – No desfile de abertura, você usou a Coleção chamada Nômades, o que você quis mostrar com ela?

LN – Esta coleção foi idealizada por mim (assinei 20 looks) e 10 foram assinados por 5 estilistas associados à câmara. Uma primeira experiência nesse formato. O conceito do trabalho envolvia o espírito nômade, por se aventurar em busca de novos territórios. Queria estimular uma quebra das fronteiras e mixar com o universo jeans. Apostamos, sobretudo, nas cores fortes, brilhos, tingimentos delavé, denim com variantes que vão do classic Blue Bi Elastic da Santana com 3% de elastano até os acabamentos vintage com leves detonados e sarjas, para um Verão Armorial 2011.

A coleção Nômades foi dividida em 3 momentos: Mistérios: inspirado no universo lúdico do circo e comportamento nômade, Fronteiras: que propõe a fusão de conhecimentos e referências poéticas da moda com a arte popular e Destinos: fazendo um mergulho no imaginário Armorial através de uma leitura urbana. Este terceiro bloco foi desenvolvido pela Câmara dos Profissionais da Moda.

GJ – Como você avalia os resultados alcançados?

LN – Independente dos resultados obtidos, temos a certeza que fomos ousados em nos aventurar por caminhos desconhecidos e plantar as sementes da moda pernambucana para uma política nacional de estilo e comportamento. Precisamos desmistificar a ideia de um pólo frágil, sem identidade, sem ousadia, sem história. O Festival do Jeans, passa a ser uma plataforma de comportamento e moda.

GJ – Quais são os planos para o próximo Festival?

LN – Infelizmente não conseguimos atingir nem 60% do orçamento previsto para infra-estrutura, cenografia, casting, imprensa, comunicação, serviços, intercâmbios, etc. Mas acreditamos no potencial filosófico, no aquecimento do mercado local e na possibilidade de melhorias para o próximo festival em 2011, para o qual já estamos trabalhando. Daremos continuidade ao processo de construção da imagem do festival do jeans de Toritama, como plataforma multicultural de moda e comportamento, fortalecendo a identidade da moda produzida no Pólo Agreste de Pernambuco para uma política nacional de estilo e identidade criativa.