Em talk da BRIFW 7 no evento SP2b, executivos de C&A, Grendene e Santista discutem tecnologia, pessoas e os caminhos para uma moda brasileira mais preparada para o futuro
A moda brasileira sempre precisou se adaptar. Mudanças econômicas, novos hábitos de consumo, transformações tecnológicas e desafios na cadeia produtiva fazem parte da história de uma indústria que, mais do que acompanhar tendências, precisa constantemente reinventar suas próprias formas de fazer negócio.
Foi esse o ponto de partida do talk “Uma Batalha Após a Outra: O Futuro da Moda à Brasileira”, realizado durante a BRIFW 7, com mediação da jornalista e consultora de inovação Maria Prata. No palco, três diferentes elos da cadeia estiveram representados: Camila Gadioli, Head Comercial de Estilo da C&A; Carolina Galvão, executiva de Digital Commerce da Grendene; e Newton Coelho, Diretor de Negócios e Tecnologia da Santista Têxtil.
A escolha dos participantes ajudou a construir uma visão ampla sobre um mesmo desafio. Do desenvolvimento e varejo de moda à indústria e ao comércio digital, todos os caminhos levam a uma necessidade comum: entender como incorporar novas tecnologias sem perder conhecimento, eficiência e, principalmente, pessoas.
Tecnologia já está mudando a maneira de fazer moda
No varejo, Camila Gadioli mostrou como a inteligência artificial começa a participar de decisões que impactam diretamente produto e estoque. Na C&A, a tecnologia vem sendo utilizada para aproximar a demanda da produção, contribuindo para reduzir excessos e evitar que peças permaneçam paradas.

Camila Gadioli – C&A
É uma mudança importante porque mostra que a transformação digital não acontece apenas na comunicação ou na experiência do consumidor. Ela começa muito antes, na própria decisão sobre quanto produzir e o que colocar no mercado.
Na Grendene, Carolina Galvão trouxe outra perspectiva para a discussão: a transformação do perfil profissional exigido pela indústria.
Hoje, as empresas precisam de pessoas capazes de combinar conhecimentos de diferentes áreas — estratégia, tecnologia, dados, marketing e negócios. Como esses profissionais nem sempre chegam prontos ao mercado, a própria empresa passa a ter uma responsabilidade maior na formação de seus talentos.
O resultado é uma moda que precisa ser mais tecnológica, mas também mais preparada para aprender.
O conhecimento que não pode ser perdido
É nesse ponto que a participação de Newton Coelho, da Santista, ganha especial relevância para quem acompanha a indústria têxtil e, particularmente, o universo do jeanswear.

Newton Coelho – Santista Têxtil
Um dos aspectos mais interessantes trazidos pelo executivo foi a relação entre transformação digital e experiência profissional.
Em uma indústria que passa por processos cada vez mais automatizados, existe uma tentação de associar modernização à substituição. A experiência apresentada no talk aponta para outro caminho: preparar os profissionais que já estão nas empresas para trabalhar com as novas tecnologias.
O motivo é simples. Conhecimento industrial não se constrói da noite para o dia.
Profissionais que passaram anos dentro de uma fábrica acumulam uma compreensão dos processos que dificilmente pode ser substituída por uma ferramenta digital. Eles conhecem máquinas, materiais, problemas recorrentes e detalhes da operação que fazem diferença no resultado final.
Ao mesmo tempo, as novas gerações chegam com maior familiaridade com dados, sistemas e ferramentas digitais.
A combinação desses dois conhecimentos pode ser mais valiosa do que a substituição de um pelo outro.
Para o setor de denim, que reúne tradição industrial e uma busca permanente por inovação, essa discussão é particularmente pertinente. A evolução do produto passa por tecnologia, mas também por conhecimento técnico acumulado ao longo de décadas.
Quando a máquina precisa conversar com a máquina
Outro ponto levantado durante o encontro mostra como a digitalização está alterando até mesmo os critérios para investimentos industriais.
Comprar uma máquina nova já não significa olhar apenas para aquilo que ela consegue produzir. É preciso considerar também como ela se conecta ao restante do parque fabril.
Em uma indústria cada vez mais integrada, equipamentos precisam trocar informações, trabalhar com protocolos compatíveis e fazer parte de uma mesma estrutura digital.
A ideia parece simples, mas representa uma mudança significativa na forma de pensar a fábrica. A tecnologia deixa de ser um conjunto de equipamentos independentes e passa a funcionar como uma rede.
Para uma cadeia como a do jeans, isso abre possibilidades importantes em produtividade, controle de processos, qualidade e gestão de informações. Quanto mais conectados estiverem os diferentes pontos da operação, maior a capacidade de identificar problemas, acompanhar resultados e tomar decisões com base em dados.
É a indústria 4.0 deixando de ser apenas um conceito para se tornar parte da rotina.
O desafio está também fora das fábricas
A conversa mostrou ainda que a transformação da moda não depende exclusivamente dos investimentos feitos pelas empresas.
A formação profissional apareceu como um dos gargalos do setor. A velocidade com que novas tecnologias são incorporadas faz com que as competências necessárias mudem rapidamente, enquanto a formação tradicional nem sempre consegue acompanhar esse ritmo.
Por isso, empresas como a Grendene vêm criando iniciativas próprias para desenvolver profissionais.

Carolina Galvão -Grendene
O movimento revela uma mudança no papel das companhias: além de contratar, elas precisam formar. E, além de buscar novos talentos, precisam criar condições para que os profissionais que já fazem parte da organização continuem aprendendo.
Essa necessidade de atualização permanente talvez seja uma das características mais marcantes da nova indústria da moda.
Uma cadeia que precisa aprender a mudar
Embora cada participante tenha trazido a realidade de seu próprio negócio, o talk da BRIFW 7 mostrou que os desafios estão profundamente conectados.
O varejo precisa produzir melhor e reduzir desperdícios. A indústria precisa modernizar processos e integrar tecnologias. As empresas precisam encontrar e desenvolver profissionais preparados para um cenário que muda rapidamente.
E existe ainda uma questão maior: o reconhecimento da importância econômica e social da moda brasileira.
Em uma cadeia que emprega milhões de pessoas e movimenta diferentes setores da economia, a indústria ainda enfrenta desafios relacionados a políticas públicas, competitividade, custos, formação de mão de obra e investimentos em modernização.
Nesse contexto, adaptabilidade deixa de ser apenas uma característica desejável e passa a ser uma condição para permanecer competitivo.
A conversa entre C&A, Grendene e Santista mostrou que não existe uma fórmula única para essa transformação. Há, sim, diferentes caminhos que precisam acontecer ao mesmo tempo: tecnologia, formação, integração e capacidade de aprender

Maria Prata – Jornalista
.Para o jeanswear, talvez a principal lição esteja justamente nessa combinação. O futuro não precisa romper com a experiência construída pela indústria. Ele pode usar esse conhecimento como base para uma operação mais conectada, eficiente e preparada para o que vem pela frente.
Porque, em uma moda que enfrenta uma batalha atrás da outra, adaptar-se não significa abandonar aquilo que já funciona — significa encontrar novas maneiras de fazê-lo funcionar ainda melhor.
Fonte: Anny Garcia Foto: Guia JeansWear









