Com a abordagem constante de pautas sociais e o crescimento do debate sobre consumo sustentável, o Fashion Revolution Brasil viu a necessidade de criar a versão brasileira do Índice de Transparência da Moda. O projeto piloto foi apresentado durante o evento realizado no último sábado, dia 28, no Unibes Cultural, em São Paulo.
O índice de transparência da moda é um relatório desenvolvido pelo próprio movimento, que está indo para o terceiro ano em escala global, e analisa em que medida grandes marcas do mundo estão disponibilizando dados publicamente sobre suas condutas e compromissos com práticas sociais e ambientais. A versão 2018, que analisa 150 empresas, foi lançada no dia 23 de abril, no Parlamento Inglês, e deu start para a semana Fashion Revolution, que marca as celebrações em lembrança da tragédia do Rana Plaza, em Blangadesh.
“Transparência é o novo poder. Uma conversa mais sincera entre quem produz e quem consome é importante, já que tudo está na rede hoje em dia. As pessoas pesquisam muito mais antes de comprar, então quanto mais transparente a marca for, mais ela tiver um diálogo honesto, ela se aproxima do seu consumidor, que por sua vez pode fazer escolhas mais conscientes sobre consumo”, explica Eloisa Arturo, mediadora do debate “Vamos falar sobre transparência: Índice de transparência da Moda no Brasil”, que contou com a participação de Aron Belinky, da FGVCes, e Edmundo Lima, da Abvtex.
Transparência é, em suma, a disponibilização pública de dados comparáveis e objetivos sobre os impactos sociais, ambientais, sobre governanças, compromisso e práticas de uma marca, e o diálogo transparente é necessário para que diversas questões sejam mais discutidas e melhor analisadas dentro da cadeia de moda. “A gente quer jogar luz em várias questões que precisam ser mais aprofundadas, como bem-estar, salário mínimo, empoderamento feminino, comércio justo, sustentabilidade ambiental, igualdade entre os gêneros, boas condições de trabalho, condição de vida sustentável e prestação de contas dos negócios, para que a gente consiga lidar com elas de uma forma mais eficaz, criando uma indústria de moda mais justa, segura e limpa, podendo ajudar na criação de novas políticas públicas que podem agir de forma mais ética e sustentável, além de gerar confiança no trabalhador, no consumidor e promover o nivelamento por um estágio mais alto de comparação entre as marcas”, diz Eloisa.
No Brasil, a necessidade de um índice exclusivo se dá por conta do seu tamanho e potência frente ao mercado global, que é o quarto maior parque de produção do mundo, e por isso, encabeça o projeto piloto, que conta com a parceria técnica da Fundação Getúlio Vargas, por meio do Ces. “A gente entende que esse é só o primeiro passo desse longo caminho que a gente tem pra percorrer junto com a indústria. Transparência não é o fim, é só o começo, e exige uma prestação de constas, que por sua vez traz mudanças práticas”, finaliza.
Aron Belinky, da FGVCes, explica que a aplicação do índice no Brasil precisou passar por alguns ajustes. “O nosso primeiro papel dentro desse convite foi discutir a metodologia internacional em relação a aquilo que acontece no Brasil. Foi um trabalho grande para confrontar a agenda brasileira com aquilo que o índice internacional trazia. Aplicamos as alterações de forma a dialogar com a realidade aqui no Brasil, e acordamos esses ajustes com a Fashion Revolution global. Alguns exemplos de alterações são a maneira como abordamos questões de raça, a questão do imigrante, ajudes que foram feitos para aproximar essas agendas, mas que em essência tem uma métrica que permite uma comparação”, conta.
Por uma questão orçamentária e por ser um projeto piloto, o escopo do Índice de Transparência da Moda no Brasil está limitado a 20 marcas nessa primeira edição. São elas: Animale, Brooksfiel, C&A, Cia Marítima, Ellus, Farm, Havaianas, Hering, John John, Le Lis Blanc, Malwee, Marisa, Melissa, Moleca, Olympikus, Osklen, Pernambucanas, Riachuelo, Renner e Zara, dividas por segmentos, já que a indústria tem uma variação nesse quesito. “Nós definimos seis empresas para varejo, cinco para jeans/jovem/casual, quatro para luxo/adulto, três para calçados e duas para esporte/praia. Não existe uma temática por trás disso, mas uma concepção do volume que é movimentado dentro de cada segmento. A escolha das marcas tem relação com o volume, tanto de produção quanto o de dinheiro que é movimentado, e a relevância que elas têm na memória do consumidor”, explica Belinky.
Baseada em padrões internacionais de referência, como “Objetivos de desenvolvimento sustentável”, da ONU, a nova metodologia foca exclusivamente na divulgação pública de informações sobre cadeira de fornecimento e foram alterados alguns pesos da pontuação para enfatizar o crescimento nos níveis de detalhamento das informações, especialmente no que diz respeito a divulgação de dados sobre fornecedores. O projeto conta com o Instituto C&A como financiador e a Associação Brasileira do Varejo e Têxtil (Abvtex) como apoiador institucional.
Para representar a Abvtex, Edmundo Lima esteve presente ao debate e falou sobre como a associação enxerga a transparência no mercado de moda. “É uma palavra chave nessa questão. Invariavelmente a gente só tem consciência e só pode agir para resolver as questões quando a gente tem visibilidade de onde está o problema e como é o contexto da cadeira de moda aqui no Brasil”, diz. Lima ainda completa enfatizando que a evolução só é possível por meio da transparência. “O país só melhora através das informações visíveis e da credibilidade dessa informação, para que exista a conscientização e a partir dai faça as suas escolhas. Que eu faça escolhas pautadas naquilo que eu conheça, da consciência que eu tenho enquanto ser humano e o que eu desejo para o futuro. Saber de onde vem minha roupa não é um clichê, ‘Quem fez a minha roupa?’ é uma pergunta importante”, finaliza.
Os participantes ressaltam que transparência não é a mesma coisa que sustentabilidade, mas que é um início para o desenvolvimento de um mercado mais justo. “A existência desse tipo de índice e desse tipo de preocupação tem gerado uma melhoria, pelo menos nas empresas formais. Esse não é um trabalho em vão, obviamente não é a bala de prata que vai resolver tudo, mas é um processo de melhoria que tem gerado resultados positivos para a indústria, encerra Aron.
Outras informações sobre o Índice de Transparência de Moda podem ser encontradas diretamente no site do Fashion Revolution.
Fonte: Kessy Christine | Fotos: Equipe Guia JeansWear









