O consumo das famílias brasileiras, historicamente responsável por cerca de dois terços do PIB nacional, vive um momento de aparente contradição. Mesmo com indicadores positivos, como o desemprego em níveis historicamente baixos e o crescimento da massa salarial, o desempenho do varejo segue tímido, a inadimplência cresce e a confiança do consumidor continua em queda. O cenário acende um alerta sobre a real saúde financeira das famílias e os entraves à retomada do crescimento econômico sustentado.
A taxa de desemprego, segundo a Pnad Contínua do IBGE, está em 6,2% — o menor nível desde 2012 — com cerca de 103 milhões de brasileiros ocupados. No entanto, a taxa de participação da força de trabalho está abaixo do ideal, em torno de 62%, frente aos 66,5% registrados no início dos anos 2000. Isso sugere que, apesar da baixa formal no desemprego, há um número significativo de brasileiros fora do mercado de trabalho, seja por desalento, informalidade ou receio de perder benefícios sociais.
Outro dado que aparenta otimismo, mas requer análise cuidadosa, é o da massa salarial real, que atingiu R$ 354 bilhões por mês — o maior patamar dos últimos 12 anos. Apesar disso, o varejo não reagiu à altura: o crescimento acumulado entre janeiro e maio de 2025 foi de apenas 1,1%, bem abaixo dos 4,1% observados em 2024. Isso indica que a renda extra pode estar concentrada nas camadas mais altas da população, que consomem menos bens essenciais, impactando negativamente setores mais dependentes da base da pirâmide.
A confiança do consumidor também vem caindo, influenciada diretamente pela inflação de alimentos, que voltou a acelerar desde o fim de 2024. O índice recuou para 85,9 pontos, afetando principalmente as famílias de menor renda, que destinam uma parcela significativa do orçamento à alimentação. Essa perda de confiança contribui para a retração do consumo, mesmo com aumento da renda média.
Além disso, a inadimplência continua avançando de forma preocupante. Em maio de 2025, 77 milhões de brasileiros estavam com dívidas em atraso, um salto em relação aos anos anteriores. O valor médio por pessoa inadimplente gira em torno de R$ 6 mil, sinalizando que o crédito continua sendo um peso relevante no orçamento das famílias e limitando ainda mais sua capacidade de consumo.
Com juros ainda altos e uma inflação que segue pressionando os itens básicos, o cenário para 2025 é de consumo moderado. Embora haja expectativa de melhora com o possível recuo da inflação e, futuramente, dos juros, o atual descompasso entre indicadores macroeconômicos positivos e o comportamento do consumo revela um mercado interno fragilizado, que depende de medidas estruturais para voltar a ganhar tração de forma sustentável.
Fonte: Ana Gimonski | Foto: Divulgação









