Ronaldo Fraga voltou às passarelas do São Paulo Fashion Week (SPFW) após um hiato de seis anos, abrindo a temporada N60 com um desfile que foi pura emoção. Realizada no Museu da Língua Portuguesa, a apresentação marcou o retorno de um dos maiores nomes da moda brasileira com a coleção “Minas-Nascimento”, inspirada na trajetória e na poesia de Milton Nascimento. O estilista mineiro transformou a passarela em um cortejo festivo e espiritual, repleto de simbolismos e referências à geografia afetiva de Minas Gerais.
O desfile começou com um cortejo de crianças vestidas de anjos, seguido por uma procissão de modelos que cruzou o auditório sob uma fita de LED desenhando no ar as montanhas mineiras. As luzes alternavam entre tons de amarelo e azul, cores que remetiam ao amanhecer e ao anoitecer, enquanto projeções de letras de Milton e desenhos de Fraga envolviam o público. Na trilha sonora, múltiplas versões de “Ponta de Areia” embalavam a atmosfera de reverência ao artista homenageado.
Entre os tecidos escolhidos, o jeans apareceu em versões cruas e bordadas, que reforçavam o caráter artesanal da coleção. Ao lado do linho e do tafetá, o material ajudou a compor um mosaico de texturas que remetia à simplicidade e à força da terra mineira. A cartela de cores, por sua vez, transitou entre tons terrosos, metálicos, azuis profundos e dourados, evocando o contraste entre o chão e o céu, a luz e a sombra — uma tradução cromática da paisagem e da música de Milton.
O trabalho manual, marca registrada de Fraga, apareceu com força em rendas, crochês e bordados em ponto-cruz, confeccionados por artesãs de Minas Gerais, Goiás e Santa Catarina. As estampas traziam pássaros, notas musicais e versos bordados, compondo uma verdadeira narrativa visual sobre pertencimento e memória. Cada peça parecia guardar uma lembrança, um fragmento da história compartilhada entre o estilista, seu estado natal e o cantor que o inspirou.
Mais do que um desfile, “Minas-Nascimento” foi um ato de afeto coletivo e um manifesto sobre o papel da moda como expressão cultural e política. Ao costurar música, palavra e tecido, Ronaldo Fraga reafirmou sua vocação de contador de histórias e seu compromisso com uma moda que fala sobre o Brasil — um Brasil que canta, sonha e resiste. Em seu retorno triunfal ao SPFW, o estilista mostrou que vestir é também um gesto de memória e que, como Milton, continua transformando o cotidiano em poesia.
Fonte: Ana Gimonski | Foto: Divulgação

















