A década em que o jeans inverteu o ciclo da moda

Um pouco antes de adentrar na década de 50, enquanto no mundo o jeans já estampava a capa da revista Vogue elevando-se ao patamar da roupa de trabalho para uma escolha de moda; no Brasil emergia a primeira tentativa de reprodução do jeans americano, através do modelo lançado por uma confecção Paulista chamada Roupas AB. Limitado pelo excesso de goma, e pela rigidez do tecido pesado ao ponto de formar vincos; o modelo intitulado “Jeans Rancheiro” na época não vingou. No entanto deixou claro para a indústria do vestuário nacional que havia um novo mercado pronto para ser desbravado.



Mas se no Brasil o mercado jeanswear ainda não acontecia de fato, durante esta mesma década, no mundo sua evolução era inegável: nesse período, o jeans tornou-se o fardamento dos adolescentes que o adotavam “falas” de desobediência e discursos de contravenção. Mérito do deslumbramento das telas de Hollywood durante os anos dourados, quando ídolos da cultura pop associaram o uso da peça à comportamentos ligados à desordem, revolta, e até mesmo vício e desilusão.



Enquanto em “Rebelde Sem Causa” (1955), o personagem interpretado por James Jean vestia jeans e jaqueta de couro, associando-o à conduta do jovem desregrado e inconsequente; em um “Um Bonde Chamado Desejo” (1951), o ítem incorporava força e brutalidade na displicente composição com t-shirt suada – principal figurino do ator Marlon Brando. Estava criado então, um novo discurso para o jeans; e com ele, seu elixir para a juventude eterna perante os movimentos da moda.



Note-se que a fórmula de vestir o jeans com significados através da imagem de uma celebridade continua em voga até hoje. E foram muitos os ícones da música, cultura e comportamento que ajudaram a construir a atemporalidade do jeans: além de James Jean e Marlon Brando, nesta época é possível encontrar o jeans vestindo tanto o glamour de Marilyn Monroe à fabulosa coreografia de “Jail of Rock” de Elvis Presley.





E as transformações do seu discurso por personalidades influentes não estão apenas no passado: em 2014, quando Barak Obama quis se igualar com o cidadão americano comum, utilizou o discurso invisível da moda ao aparecer publicamente vestindo jeans em um jogo de Baseball. E aqui no Brasil, no ano de 2012, quando o tremendão Erasmo Carlos declarou em entrevista que independente da idade, definia-se pela atitude de roqueiro; ilustrou sua afirmativa confessando que iria usar jeans até morrer. Com seu depoimento, simplesmente endossou o recente fenômeno global de comportamento; definido pela presença de uma conduta juvenil e criativa transformadora na terceira idade.



De volta ao passado; o que o mundo mostrava era um cenário com mais fabricantes, caracterizado pela atribuição de novos sentidos para a peça – que agora jogava seu carisma para um universo bem mais jovem. Eram os filhos do legado de prosperidade econômica do pós-guerra – o chamado baby boom – que haviam crescido e estavam prontos para adotar o novo discurso encarnado pelo jeans, com topetes, cigarros ao canto da boca, jaquetas de couro e motocicletas. Enquanto isso as moças, aos poucos abandonavam as saias rodadas em prol do jeans com gracioso formato cigarrete, sapatos baixos e suéter.



E foi neste ponto, quando o jeans tomou o rumo da libertação e vestiu a bandeira do comportamento, que o ciclo da moda ganhou uma nova sequência. Pode-se dizer, que até os anos 50, os adultos ditavam moda, com as novas gerações copiando o estilo dos pais, enxergando neste ciclo um privilégio e demonstração de maturidade. Mas depois que a juventude vestiu o jeans relacionando-o à atitude de liberdade, a indústria do vestuário assistiu ao surgimento de um novo mercado: o da moda jovem, filão comercial da década onde o jeans atuava como importante protagonista. Mais uma vez, a peça abre caminhos comerciais para si e amplia sua própria demanda, na medida em que passa a fazer parte do guarda-roupa diário e coloquial de um novo segmento, criado a partir de sua própria conduta. E por essa razão, sua confecção representava um mercado extremamente atraente do ponto de vista comercial. Novos fabricantes surgiram, e com eles um cenário de competição, girando principalmente na órbita de três marcas icônicas, as quais permanecem desejo até hoje: Levis, Lee Cooper e Wrangler. Na semana que vem vamos conhecer a segunda tentativa de inclusão do jeans americano em território nacional, e o surgimento da estética hippie. Aguarde!

VIVIAN DAVID | IMAGENS: REPRODUÇÃO