A década que a mulher empoderou o jeans com curvas

Enfim, hoje, dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher; nossa narrativa sobre a história do jeans chega aos anos 80. Coincidentemente, foi nesta década que o denim literalmente curvou-se ao imenso poder da silhueta feminina; com diversas mulheres influentes no cenário da moda internacional e nacional emprestando suas curvas ao jeans. O resultado disso, foi simplesmente a migração do ítem para o patamar de luxo, e a five pockets orbitando como inspiração na mente dos designers formadores de opinião. Entre estas personalidades, a mais icônica sem dúvida foi a modelo de 15 anos Brook Shields, que imortalizou a frase “não existe nada entre mim e minha Calvin Klein”, ao estrelar um comercial da marca. Polêmico e sedutor, além de colocar o jeans como um forma de vestir-se sexy no dia-a-dia com uma naturalidade que ainda hoje é reivindicada pelo gênero, o vídeo elevou o status da moda jeanswear como um todo.





Quem diria, foi com a influência de uma atitude feminina mais ousada, que a vestimenta modesta dos trabalhadores iria parar nas mãos de grifes elegantes, como Gucci, que começou a fabricar sua própria marca de jeans. O denim agora era também um tecido considerado chic. Grandes ícones da sensualidade passaram a comunicar sua atitude através da linguagem do jeans, entre elas Madonna, ainda que na modelagem baggy – hit da década. Surgiu então, o design de jeans, transformando a peça verdadeiramente em símbolo de status, com marcas como Calvin Klein, Jordache e Gloria Vanderbilt constando entre as mais populares.



Além da nova leitura conquistada, a década de 80 associou ao jeans uma espécie de vínculo com o culto ao corpo, proporcionando através dos fits ajustados uma maneira distinta de revelar uma espécie de “nudez” permitida pelos códigos de vestir; uma vez que são modelagens extremamente focadas na definição fiel das curvas do corpo feminino. A idéia não poderia ser mais conveniente para o mercado jeanswear brasileiro, e marcas relevantes do nosso território, como a Dijon e Staroup, novamente merecem destaque, pelo pioneirismo na associação entre moda e publicidade praticado na época. Enquanto a Dijon reforçava o processo de construção do DNA do jeans nacional, reformulando sua silhueta através das curvas de Monique Evans e Luiza Brunet; a Staroup incentivava a fusão de significados entre o jeans e o padrão ideal de beleza, através do inesquecível comercial “gordinha do escritório”. Na campanha, a então adolescente atriz Vivianne Pasmater declarava guerra contra a balança, movida unicamente pelo desejo de vestir uma calça jeans Staroup em numeração menor. Até hoje a idéia de vestir um jeans para ostentar um corpo bem esculpido, ilustrado pelo comercial, define comportamentos de consumo e inspira salas de desenvolvimento relativas ao segmento. E até hoje, vemos as mulheres conciliando com muita garra trabalho e visual, pressa e cuidados com a imagem pessoal: idéia presente nestas divas brasileiras que levaram junto com suas atitudes, a imagem da indústria do jeans brasileiro.





Mas nem só de padrões de beleza viveram as campanhas de jeans nacionais da década perdida. A indústria índigo nacional mostrou seu valor também no quesito atitude, esclarecendo sua plena inclusão no espírito de rebeldia inerente ao segmento. Aproveitando o misto de alívio pós-golpe militar, bem como os vestígios de consciência política deixados pela ditadura, o ítem despertava o desejo dos adolescentes através da campanha “Passeata”, da então desejada marca Staroup. Criada em 1988, a propaganda mostrava com inteligência e bom humor, jovens estudantes em confronto com a polícia lutando por seus direitos. O resultado deste comercial de TV foi muito além da conquista do cobiçado prêmio Leão de Ouro em Cannes; pois contribuiu para a construção da associação do jeans à idéia de juventude, pioneirismo, rebeldia e transformação no mais autêntico contexto histórico nacional. Obviamente, todos estavam devidamente fardados pelo uniforme da liberdade: homens e mulheres, lado a lado em um protesto destemido contra a opressão. Estimados leitores, esta foi a primeira parte da década de 80, período histórico em que a mulher elevou o status do jeans transferindo para o ítem a idéia de empoderamento com relação ao próprio corpo. Depois disso, as curvas da five-pockets nunca mais foram as mesmas. Na semana que vem veremos as lavagens ácidas que permearam a década com muito excesso. Aguarde!


VIVIAN DAVID | FOTOS: REPRODUÇÃO