A roupa de trabalho que ganhou capa na Vogue

Na semana anterior, em nossa primeira publicação onde conhecemos a relação da origem do tecido denim e sua relação com a história do jeans, vimos que já no ano de 1920 a peça denunciava sua vocação democrática: era considerado um um traje popular entre diversos trabalhadores que necessitavam de roupas duráveis que não rasgassem com facilidade. Ainda assim, preservando sua origem modesta, o ítem caminhava na direção de um futuro singular no universo da moda na medida em que vestia os mais diferentes sentidos: a virilidade dos cowboys do oeste americano, a esperança incansável dos mineradores, a simplicidade e o jeitão amistoso dos trabalhadores da fazenda, dos rancheiros e agricultores.



Caminhando pelos anos sem negar a poeira das fazendas, a descendência proletária, e o objetivo de igualar e proteger pessoas comuns; o jeans acabou somando em sua alquimia a mais improvável das qualidades, dado o seu perfil inicial. Tornou-se moda: e por moda, entenda-se desejo, padrão ideal de beleza, e confirmação. Nada mais lógico, do que aparecer na capa da Vogue, fato que ocorreu em 1930, ano em que pela primeira vez tivemos uma modelo vestindo denim na capa, insinuando que o jeans poderia ser uma escolha, e não apenas uma roupa prática para o trabalhador.



A esta altura, “assaltos” ao guarda-roupa masculino em busca da peça eram frequentes, já que o jeans na versão masculina passou a ser adotado por mulheres do oeste americano em ranchos e fazendas, e também vestia as moças em suas passagens pelos dude ranches – os ranchos de férias. Não demorou muito tempo para que em 1934, a peça conhecesse os contornos e as curvas da silhueta feminina, através da introdução dos primeiros modelos de jeans direcionados para mulheres: o Lady Levi’s Jeans, da Levi’s, e o Lady Lee Riders, da marca Lee.



Homens e mulheres, cada um dispunha da sua própria versão da peça que viria a se tornar o mais democrático ítem do vestuário. Mas ainda assim, neste ponto teve início um hábito deveras inspirador para o segmento jeanswear e para a moda em geral: o da apropriação e transferência de referências masculinas, para volumes e silhuetas femininas – uma prática que no jeans, é dotada de significados relacionados à liberdade e à emancipações do gênero.



Dois anos depois a peça deu também seu primeiro passo para o uso da marca como um sinal de status e valor imaterial: o acréscimo de uma etiqueta vermelha no bolso traseiro do jeans, com a assinatura Levis Strauss. Assim, em 1936, tivemos o primeiro ítem do vestuário de que se teve notícia, ostentando orgulhosamente a marca em seu lado externo, como artifício para elevar a percepção de qualidade e estilo da peça.



E engana-se quem julga que neste período a história do jeans evoluiu apenas em cenário internacional: um pouco antes de adentrar a década de 50, no Brasil emergia a primeira tentativa de reprodução do jeans americano, através do modelo lançado por uma confecção Paulista chamada Roupas AB. Limitado pelo excesso de goma, e pela rigidez do tecido pesado; o modelo intitulado “Jeans Rancheiro” na época não vingou. No entanto deixou claro para a indústria do vestuário nacional que havia um novo mercado pronto para ser desbravado.



Concluindo: pelo mundo afora, o jeans somou à boa fama de durão dos trabalhadores braçais, o visual honesto capaz de priorizar a personalidade de quem o veste. Nas mulheres, somou argumentos relacionados à liberdade, despojamento e emancipação. E de posse de tantas leituras, qualificou-se para sua mais atemporal missão: a de ítem coringa para a roupa como forma de expressão. E assim, deixou preparada sua afinidade para com o senso de rebeldia que viria a caracterizar o frescor da nova geração da década de 50, tópico da nossa próxima publicação. Não perca!


VIVIAN DAVID | ILUSTRAÇÕES I e II: VIVIAN DAVID / DEMAIS IMAGENS: REPRODUÇÃO