Adriano Goldshmied fala sobre o jeans do futuro na Denim City SP

O jeans é uma peça do vestuário que felizmente dispões de muitos ícones do segmento absolutamente atuantes na cadeia de moda, e comprometidos com a missão de ajudar a prever suas próximas transformações.

Um deles é Adriano Goldshmied, personalidade chave que junto com outros grandes ícones ajudaram o jeans a se tornar o imenso mercado colossal que conhecemos. E nada mais imperdível do que escutá-lo falar sobre “O que foi, o que é e o que será a calça jeans” na abertura de uma instituição que promete revolucionar o mercado jeanswear nacional, a Denim City SP.

A participação de Adriano, também conhecido como “o grande mago do denim”, no segundo dia do ciclo de palestras da inauguração da Denim City SP, foi simbólica do prenúncio de mais uma memorável transformação.

Logo no início da palestra transmitida ao vivo, e disponibilizada na íntegra no Youtube, Adriano Goldshmied reforçou na audiência, essa convicção. “A abertura da Denim City SP é como um sonho virando realidade”, comentou ele, recordando a visita do grupo brasileiro a unidade da Denim City Amsterdam, local onde a primeira idealização de uma filial no Brasil se esboçou.

“Sabemos que poucas pessoas não podem fazer muita coisa mas um grupo unido compartilhando objetivos é algo transformador”, afirmou o especialista, referindo-se ao grupo de brasileiros que se mobilizou para concretizar o projeto.

Logo após alertar o setor sobre a urgência de se implementar ações sustentáveis Adriano começou a narrar sua trajetória de trabalho. O expert destacou que sua primeira experiência com moda, em uma província chamada Cortina, foi definitiva para que ele compreendesse já nos anos 70, com muita clareza, o conceito de jeans premium.  “Cortina tinha clientes importantes, como celebridades, e eles buscavam algo de valor e especial”, explicou, justificando a forma como sua visão de qualidade foi construída.

“Naquela época o jeans era totalmente diferente do atual”, disse. “Era um uniforme dos trabalhadores e não fazia parte do mundo da moda […] O interesse por moda na época passava longe do blue jeans, pois marcas muito novas nasciam e a procura era por tecidos coloridos, florais”, completou ele, ressaltando que só 20 anos depois, em 1992, o denim apareceu na capa da Vogue.

Foi quando assistiu os protestos das novas gerações na Europa, que o grande mago do jeans entendeu que o denim de alguma forma era o uniforme dos protestantes e marcaria seu futuro. “Percebi que o jeans era o produto que trazia uma visão de protesto e foi quando o transformei em minha principal atividade comercial”, contou.

De acordo com Adriano, a principal dificuldade no início foi montar uma cadeia.  ”A coisa mais difícil da época era receber o denim, então dediquei minha carreira a missão de trazer o jeans e transformar ele no que é hoje”, afirmou.

Entre os insights mais marcante de sua carreira compartilhados pelo especialista em denim, destaque para o momento em que o especialista percebeu nos efeitos do jeans uma oportunidade única que transformaria o mercado. “Não pensávamos nas lavagens do jeans até o momento em que vimos os hippies nos Estados Unidos vestindo a peça com marcas de descoloração”.

Adriano Goldshmied apontou que, assim que viu a proposta, realizou um experimento com um balde de jeans com cândida para conseguir chegar ao efeito.  Ao conseguir, percebeu imediatamente que o processo tornava o jeans muito mais agradável de vestir e comprou uma máquina de lavagem de um hospital para iniciar uma produção reproduzindo a lavagem.

Segundo ele, foi quando nasceu a incrível indústria de acabamentos do jeans. “Conheci Luigi Martelli, proprietário de uma lavanderia que fazia lavagem de linho para hotéis e o convenci Luigi a fazer lavagem para nossas peças […] Ele começou um processo que mudou completamente a história do denim”, afirmou.

Contudo, Adriano destacou que o início da produção de jeans lavados foi frustrante pois não chegava nem perto do efeito do jeans usado de verdade. Foi quando iniciou uma pesquisa para conseguir obter efeitos vintage reproduzindo a beleza e aparência de uma peça com desgaste natural.

O uso das pedras foi o marco que alcançou tal meta. Adriano contou que ao se estabelecer com diversas marcas, foi surpreendido com a competição do jeans do Japão. “Eles estavam pesquisando a muito tempo, usando teares de tamanhos diferentes e rapidamente tomaram a liderança do mercado de ponta do jeans”, disse.

“Nós dávamos conta do tremendo impacto que a nossa pesquisa, nosso design e nossos produtos causariam no meio ambiente, e em países como Asia, China, Vietnã, Paquistão […] Na época éramos apenas uma voz  e a palavra sustentabilidade não era conhecida”, apontou Goldshmied.

Adriano afirmou que, apenas nos anos de 1990, tomou consciência da necessidade se uma abordagem mais limpa e sustentável nos processos de fabricação do jeans. “Começamos a refletir sobre os químicos, a saúde dos trabalhadores, mas na época éramos apenas uma voz pequena no deserto e ninguém estava disposto a nos ouvir”, detalhou o experto, ressaltando que na época ainda não se visualizava o impacto dessas mudanças nas vendas do produto.

O jeans, no entanto, estava nas mãos de alguns artistas pois os processos eram artesanais. “Repetir o protótipo era bastante difícil […] As coisas mudaram quando os fabricantes das maquinas começaram a investir e trabalhar em novas maquinas”, afirmou Goldshmied. Elas levaram a indústria do jeans para uma nova era. De acordo com Adriano, foi o início de uma direção extremamente positiva pois foi a partir daí que se passou a perceber a sustentabilidade de forma promissora.

Adriano contou ainda que a introdução do uso do laser foi um processo que trouxe muitas lágrimas, porém, ano após ano acabou se tornando protagonista das criações. Um tempo depois, veio uma máquina para equalizar as cores e em seguida o ozônio, que também mudou a cena do setor, pois permitiu fazer a descoloração do denim salvando toneladas de água, energia e químicos.

“Faz muito tempo que faço parte de um projeto chamado Wiser Wash, uma patente desenvolvida em Los Angeles e que em essência tem o objetivo de evitar o uso de pedras e qualquer produto químico, além de economizar água, energia e reduzir a emissão de carbono obtendo peças bonitas e contrastantes”, explicou.

O expert opinou que a visão de que apenas o processo de acabamento da indústria denim é poluente é equivocada. “É necessário discutir todos os processos da cadeia produtiva, começando pela agricultura […] O algodão tem um papel super relevante na produção e temos que discutir como se faz o índigo, como se tingem as peças, como se faz a tecelagem e como se dá o acabamento dos tecidos e por fim como se faz o acabamento da roupa”, apontou Goldshmied.

Questionando a importância dada ao algodão no Brasil e defendendo a inclusão de fibras como celulose – que são mais ecológicas – na produção, Adriano afirmou: “Temos que levar em consideração que plantar algodão tem um preço muito  alto, desgasta o solo, usa muita água e ocupa muita área e implica em um revezamento de plantio”.

Outra direção importante para composição do jeans anunciada por Adriano foi o cânhamo industrial. De acordo com o expert, a planta tem propriedades incríveis pois é mais resistente do que o algodão, não requer muita água nem muitas quantidades de terra para produção, é naturalmente bactericida e tem a propriedade de usar o dióxido de carbono da atmosfera e devolvendo-o para o solo promovendo assim a sua regeneração. “Não só é uma fibra incrível mas também oferece oportunidade de melhorar a saudade da terra”, explicou.

A reciclagem e economia circular também foi enfatizada por Adriano como definitiva para o futuro do setor. Concluindo sua visão do jeans do futuro, o especialista destacou o papel decisivo dos caminhos da digitalização impostos pela Covid-19. “Não é possível distribuir e chegar ao consumidor final sem uma grande melhoria na digitalização”, explicou.

Citando Myr, software que permite digitalizar os processos de criação de design e lavagem, Adriano antecipou que o salto digital deve ir ainda além. Entre as prováveis mudanças, mencionou a capacidade de criar o produto por software, customizá-lo em conexão com os processos de lavagem e mesmo apresentar o produto virtualmente por um showroom e operando um desfile para o consumidor em formato digital.

“O jeans de amanhã é um ponto de interrogação, mas tenho certeza que ele tem diferentes caminhos mas mantém suas raízes no jeans de hoje”, afirmou  Adriano, concluindo sua reflexão.

Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução