Cadeia do jeans se compromete em ações para vencer a Covid-19

Para a indústria do jeans e da moda brasileira, existem três diferentes cenários para a criação estratégica neste momento: o realista, o otimista e o pessimista. Em qualquer um deles, só existirão concorrentes no futuro se todos forem aliados no agora.

Da fibra ao varejo, o momento demanda o fortalecimento através da união. Foi convergindo para este pensamento, que o webinar “Industria do Jeans e da Moda Brasileira – Como lidar durante e depois do Covid-19”, ocorreu na última segunda-feira, pelo Youtube. A discussão foi mediada por  Maria José Orione, diretora acadêmica da Denim City São Paulo e orientadora do curso One Year Fashion Business do IED.

Gilberto Stocche, da Santista Jeanswear; Gustavo Manfredini, da Capricórnio Têxtil, José Eduardo Nahas Filho, da Zune Brands; Paulo Totaro, da L’Orsa; o consultor e estilista Robi Spatti e Ronaldo Faria, da Jungle Lavanderia foram os “players” do mercado convidados a debater o assunto com propriedade e profundidade. Um “meeting” que foi muito além da conversa e acabou culminando em comprometimentos e acordos de ajuda mútua, cruciais para um plano de ação em equipe neste momento.

Contextualizando a importância das confecções dos pequenos e médios empresários, Paulo Totaro, que também integra o conselho consultivo da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), lembrou a importância da cadeia de confecção. Segundo ele, uma das áreas que mais emprega no Brasil. “Poucas pessoas sabem mas a nossa área gerou um PIB de faturamento de 48,3 bilhões só em 2019; e no mesmo ano empregou 1,5 milhão de colaboradores diretos e 8 milhões e meio de pessoas nos subcontratos. Somos o segundo maior empregador do Brasil”, afirmou.

Paulo explicou que os confeccionistas já vem enfrentando períodos difíceis há cinco anos, por isto, a pausa atual compromete seriamente suas folhas de pagamento. Como sugestão, propôs que ao invés do método atual fossem aceitas as três ultimas folhas de pagamento para a respectiva liberação do dinheiro aos micro e médio empresários, com financiamento do valor para pagamento em cinco anos.

“Isso vai dar um acréscimo de 5% na folha”, concluiu, fazendo a ressalva de que a medida só teria eficácia se fosse combinada a uma politica de volta ao comércio.

Opinando a favor de uma retomada gradual e consciente, sugeriu logísticas envolvendo alternância de horários e rodízios, enfatizando que as mercadorias do varejo são também perecíveis. Concluindo seu apelo, Paulo fez um chamado aos governantes para que olhassem para estes empresários e entendessem que no formato atual eles não estão conseguindo acessar as linhas de crédito.

Gilberto Stocche, da Santista, iniciou suas contribuições compartilhando as ações realizadas pela companhia. “Criamos um comitê de crise, reavaliamos nosso planejamento e fizemos um cenário realista e outro pessimista”, contou, apontando que, devido a importância do fluxo de caixa, o cenário pessimista foi tomado como referência. “Embora tenhamos ficamos torcendo para que ocorra o realista”, explicou.

Como estratégia para atravessar o que chamou de “crise sem precedentes”, apontou a união dos elos da cadeia e destacou o papel social das tecelagens: “temos que passar pela crise como primeiro objetivo, e como segundo preservar empregos, pois é nosso papel social”, afirmou. “Temos que agir de forma diligente para passar pela crise cumprindo este papel”, defendeu.

Sinalizando a forma como esse papel social pode ser conduzido, Gilberto compartilhou as metodologias adotadas pela Santista até aqui. “Nossas ações envolveram parcerias com fornecedores, bancos e apoiadores e com os funcionários, ouvindo, concedendo, apoiando”, explicou. “Alem disso, fizemos uma negociação com o sindicato com redução de jornada e redução proporcional de salário, a qual foi aprovada”, contou.

O workwear, um dos diferenciais da companhia, de acordo com o empresário, logo ao sentir aumento em sua demanda foi alvo de ações como doações para empresas e hospitais. “É uma variedade importante da empresa e espero ter colaborado com a situação difícil com o que estamos fazendo”, justificou.

Gustavo Manfredini, da Capricórnio, contou que buscou antecipadamente informações com colegas do mercado financeiro para saber o que estava acontecendo no mundo e na América Latina com relação a pandemia. “Eles me trouxeram um cenário tenebroso”, contou. O empresário contou que a partir destas informações criou um comitê de crise, chamado “Bora Vencer”.

“Minhas primeiras atitudes foram olhar as pessoas e o caixa da empresa e em uma semana nós estávamos em home office”, contou. “Tomamos a decisão de tirar quinze dias de ferias coletivas e não se fala em demissão na empresa , pois o momento é de aguardar. Nossos cuidados, o protocolo de álcool gel, rodízio, comunicação, tudo foi feito”, explicou.

Ainda sobre as medidas que refletiram o cuidado com os colaboradores, elencou o uso do WhatsApp em reuniões diárias para compartilhamento de problemas e vivências em equipe e trabalhos de liderança, com intuito de levar tranquilidade aos representantes da empresa.

No quesito estratégias, Gustavo Manfredini contou que o cenário pessimista foi eleito como referencial. Dentro deste contexto, transparência foi adotada como estratégia. “Estamos procurando entender as necessidades dos nossos clientes e fornecedores e a ordem é fazer o máximo para eles”, contou o empresário, anunciando entre os resultados da conduta as parcerias firmadas com bancos e fornecedores.

“Quanto antes começarmos, maior será o olhar positivo desta situação”, defendeu o empresário, enfatizando que toda crise tem seu início, fim e aprendizados. “Mas, para ter os aprendizados, temos que chegar ao fim delas”, alertou, comprometendo-se a ajudar tendo a Capricórnio como base.

“Esse é um momento em que não existem concorrentes: só teremos concorrentes se conseguirmos sobreviver”, afirmou, recebendo a aprovação de todos os participantes. Em seguida, Gustavo fez um chamado para que tecelagens, shopping centers, lojistas, Denim City, entre outros, formassem um grupo pedindo a reabertura do Brás.

Retomando a questão dos pequenos e médios confeccionistas, Maria Jose Orione trouxe a tona a pertinente problemática do motivo real pelos quais o respectivo setor está “tão sem caixa”. “Talvez este seja o momento de avaliar o porque disso, se é consequência natural do “game”, ou se é algo que temos que de fato rever no mercado”. Maria José aprovou a iniciativa da união da cadeia e assegurou o comprometimento da Denim City São Paulo com a causa. “Excelente sugestão, seguramente terminando esta live vamos conversar enquanto cadeia”, afirmou.

O ponto de vista do criador foi a contribuição de Robi Spatti, que fez um chamado para que as pessoas saiam da inércia e deem visibilidade aos seus problemas, para que possam receber ajuda real. “É preciso falar para a cadeia os seus problemas, para que todos saibam e para que assim possamos chegar a uma sintonia”, explicou.

Compartilhando com os ouvintes seu lado empresarial de consultor, Robi opinou: “Neste momento todo empresario deveria sentar com seu funcionário, e colocar a verdade. Temos que ter planos, tanto as pessoas que trabalham quanto as que entregam, com três datas (pessimista, otimista e realista), pois desta maneira fica mais fácil manter o emprego”, explicou.

Em complemento, sublinhou como de suma importância a conduta de preservação da expectativa de trabalho, como estratégia para manter a esperança de que tudo vai passar, para que ao final todos sintam que tenham de alguma forma contribuíram para que “as empresas conseguissem ficar de pé”.

Representando a cadeia das lavanderias, Ronaldo Faria, da Jungle Lavanderia, lembrou que as lavanderias são um elo do setor que dependem completamente de uma cadeia maior, que é a indústria têxtil. Assim, defendeu que toda a ajuda que o pequeno e médio empreendedor receber vai se refletir de modo positivo no setor das lavandeiras.

Ronaldo conta que o Covid-19 pode ser uma parte da cadeia que possa estender uma “bandeira branca” para o mercado. “Com minha experiência, sei que quando o Brasil cresce 2% não tem parte da cadeia para atender toda esta movimentação”, explica. “Se não cuidarmos do setor de lavanderias a hora que o Brasil começar a caminhar não haverá produção para ninguém”, complementa.

“A lavanderia que a um tempo atras era o fundo de quintal da confecção e que passou pelo momento de se habilitar, se adequar e se tornou empresa, senão se comportar como tal, se dando o respeito e cuidando das pessoas, cuidando da parte ambiental, da tecnologia e desenvolvimento vai ficar para trás”, alertou. Como estratégia, além para atentar para as exigências do mercado de lavanderia, também defendeu a união do setor.

José Eduardo Nahas Filho, da Zune Brands entrou no debate falando da curva de propagação do vírus e do prazo urgente que temos para voltar as atividades. “Se tivermos que ficar mais dois meses parados não é só o pequeno que quebra, então é importante entender que teremos que conviver com este vírus”, explicou.

“Temos um pais com extensão continental que nos permite tomar protocolos diferentes conforme a gravidade e o critério de cada região pois a economia precisa voltar a respirar. Vejo que o governo se mobiliza, mas o fator tempo deve ser levado em conta”, concluiu, intercedendo a favor de um retorno gradual e consistente.

Alinhado com todos os demais participantes, o empresário também opinou a favor da união da cadeia como única forma de sobreviver amenizando o impacto da crise. “Temos o privilégio de ter uma cadeia completa, se um desses elos não fizer força para puxar a corda não vamos ganhar esta briga”, incitou.

As considerações finais do debate, colocaram em pauta a insensibilidade dos bancos, que no ponto de vista dos empresários vem cobrando taxas elevadas para os menores. Também foi relembrado que o momento deve servir de lição par ao mercado, para que não se torne novamente dependente dos importados. “O brasileiro come aqui, trabalha aqui, temos que consumir no Brasil mesmo que seja mais caro”, afirmou Paulo Totaro.

Para melhorar a cadeia, os participantes do debate sublinharam o valor da empatia, da preservação de empregos e da saúde. Também defenderam um retorno disciplinado, cauteloso e gradual que impactaria com otimismo, observando os protocolos. Novamente levantaram a questão da reabertura do shopping do Brás neste contexto “começar a andar em 10, 20, 30%”, exemplificou Paulo.

Ao final, concordando com as iniciativas, os participantes engajaram-se e comprometeram-se com a criação deste protocolo, para levá-lo “contatos certos”. “Temos que ter medico de trabalho, máscara, álcool, colo para todo mundo”, concordaram. “Juntos podemos encurtar um pouco este tempo e este é um objetivo factível,  não somos concorrentes mas colegas de trabalho e levaremos este pleito adiante”, engajaram-se todos.

Confira a transmissão completa do webinar clicando aqui.

Fonte: Vivian David | Foto: Reprodução