Como as empresas estão se preparando para retornar ao mercado

A Denim City SP promoveu, na última semana, sua quarta webinar. O bate-papo contou com a presença de Andrea Bisker, da consultoria Spark Off, Tito Bessa Jr., proprietário da TNG, Alberto Serrentino, da Varese Retail, Gabriele Zuccarelli, da consultoria Bain&Co., e mediação de Maria José Orione, diretora acadêmica da Denim City SP.

Uma das grandes preocupações será como se planejar para um retorno. Gabriele iniciou a conversa relatando sua experiência em relação à China, que é o único país que já está nesse estágio. “Acredito que existem dois momentos: da recuperação onde a economia volta em marcha lenta, onde as pessoas ainda refletem uma grande preocupação com a saúde e a contaminação ainda existe. O segundo momento é o que chamo de ‘novo normal’, provavelmente quando tiverem uma vacina”, indicou.

Na China, 80% das pessoas já voltaram a trabalhar e praticamente ninguém perdeu o emprego, diferentemente dos países ocidentais e, principalmente no Brasil, com cenários desanimadores. Em relação ao varejo, aumentou 40,5% o fluxo nos shoppings, mas esses números variam muito entre setores. O mundo alimentício se viu beneficiado num primeiro momento e mesmo depois da recuperação continua acima da média. Porém, os restaurantes ainda estão com movimento mais fraco.

“Em março, os restaurantes já estavam abertos e seguindo todos os cuidados de higiene, além de mesas mais distantes, mas com pouca frequência”, comenta Gabriele.

Categorias não essenciais como joias, vestuário, cosméticos sofreram bastante durante a crise e voltam lentamente. As compras de bens duráveis também retornam aos poucos. Serviços como academias atualmente tem um fluxo de 30% e menos opções de aulas.

O que se pode observar é que o online que cresceu muito durante a crise irá avançar cada vez mais, enquanto que as lojas físicas retornam aos poucos. “Para o mundo digital a situação é mais positiva. A recuperação mais rápida no pós-crise e especialmente nas categorias de beleza”, diz Gabriele. O vestuário está na casa dos 50%, tanto no físico quanto no digital.

A importância do e-commerce e do digital irá permanecer, além de outras inovações como a Telemedicina. Novos hábitos conquistados no home office destacam a compra de equipamentos de ginástica e fitness e, eletrônicos destinados ao trabalho remoto.

Cuidados com a saúde também terá maior peso na volta, com foco em nutrição, saúde mental, cuidados de forma mais ampla. Já a sustentabilidade cresce ainda mais tanto ambiental quanto social. Há ainda o incentivo aos pequenos varejistas com o consumo local. “Ainda não estão muito claras as mudanças de comportamento. Existe muita sensibilidade em relação aos preços, onde os consumidores focam no essencial, gastando menos”, afirma Gabriele.

Andrea Bisker enfatizou a importância das marcas se conectarem com esse novo consumidor. “Vamos olhar para frente (China) para entender o que podemos fazer quando tudo isso passar”, comentou.

E, continua: “A primeira pergunta a ser feita é: como você quer ser lembrado pós-Covid? O pensamento vai ser menos consumista e mais sustentável e incentiva peças duráveis, aluguel de roupas […] Agora é o momento de atuar como companheiro e não empurrar ofertas, incentivar comportamentos saudáveis e como podemos participar da rotina dos clientes durante o confinamento”, apontou. Um exemplo são as transmissões ao vivo e encontros online, sempre transmitindo informações confiáveis.

Outro ponto importante é a agilidade, tomando resoluções rápidas, reunindo líderes e parceiros, tornando-se acessível no online para o atendimento personalizado, ofertas de serviços, entre outras ações. “Que formas criativas podemos promover através de encontros com seu consumidor no online? Existe outra forma de comercializar seu produto?”, questiona Andrea.

Hoje, o movimento é da moda real para o online, sendo que no Brasil os varejistas cresceram 15% no digital. “Qual é o legado que você quer deixar para o seu consumidor? Essa é a principal mensagem. Estamos experimentando um momento único. O empresário tem que assumir um papel de liderança altruísta unindo objetivos com propostas para ajudar vidas, pensar emoções nesse sentido”, comenta Andrea.

Para Alberto, essa crise não tem precedentes e nem referências, nada parecido que pudesse inspirar qualquer tipo de modelo, por isso não sabemos realmente como sair dessa situação. O consultor acredita que existem duas perspectivas. A primeira delas é a curto prazo, durante o isolamento, é preciso avaliar o fôlego da empresa para aguentar a perda de receita, incorporando também todas as medidas do governo como por exemplo, aumento de liquidez e de crédito.

O segundo cenário, após o confinamento, vai depender da vida social voltar ao normal, onde as pessoas estarão frequentando espaços públicos. Pode-se projetar um retorno gradual e não homogêneo dependendo da região do país que passa por momentos diferentes em relação à pandemia.

“As vendas vão voltar em meados de maio e junho num patamar médio de 50%. Vamos ter que nos preparar para um período de transição gradual e lento. As empresas não entram da mesma maneira, e também não sairão os mesmos. Algumas irão encolher, outras sairão mais fortalecidas, onde podem ser incorporados novos consumidores”, comenta Alberto.

Ele ainda acredita que há um desafio enorme para as lideranças manterem o equilíbrio, estabelecendo diálogo e comunicação. As empresas vão ter que aprender a rever cenários e reaprender mais rapidamente com mudanças e dinamismo.

Tito apontou que sua grande especialidade é o “sofrimento atrás do balcão”. Com 36 anos no mercado a TNG já passou por diferentes crises que foram superadas. “Não há dúvida que o mundo vai ser outro, ele já é outro hoje. E estamos falando de relações comerciais, pessoais e financeiras […] As empresas capitalizadas vão se sair melhor mas estão todos no mesmo mar, é um desafio enorme mas o brasileiro está unido nesse momento”, afirma.

Para ele, “é preciso salvar, além do CPF o CNPJ”. O executivo estima que 80% das empresas vão precisar de medidas governamentais que auxiliem essa recuperação e lembra que estavam saindo de uma crise que se iniciou em 2014 e, acredita que o consumo vai cair em torno de 50 a 60% no primeiro bimestre terminando num final de ano com 20% a menos nas vendas.

“Em que condições as empresas vão manter seus empregos? Vai haver muitas demissões e por isso precisamos nos reinventar”, pontua Tito.

O empresário disse ainda que a internet irá crescer sim, mas o online não paga as contas, com exceção das marcas que nasceram exclusivamente para esse fim e, mesmo esses negócios vão ter dificuldades. A volta deverá ser planejada e o governo precisa efetivamente tomar providências em relação às medidas provisórias.

Atacado e multimarcas

Gabriele Zuccarelli acredita que as multimarcas, principalmente no interior sofrerão bastante. São regiões que ainda estão num primeiro estágio da doença e ainda não sabemos os números realmente que variam conforme o estado do Brasil.

“É preciso planejar para quando esses picos acontecerem porque a fase de recuperação não será tão boa quanto na China”, afirma Gabriele. Para o consultor o digital irá acelerar sim, mas no interior talvez o online não seja a solução.

Shoppings e os lojistas

Para Alberto Serrentino, é importante usar o bom senso e flexibilizar contratos entre shoppings e lojistas, incluindo aí, na volta, patamares de vendas diferenciados e horários alternativos. “É preciso haver bom senso e racionalidade para diminuir despesas, rever estratégias de comunicação e marketing”, afirma.

Varejistas e fornecedores podem se proteger, um ajudando o outro. O Brasil é um dos poucos países que tem uma cadeia completa. “As empresas têm que tomar decisões de maneira colaborativa, ágil e urgente”, diz Alberto.

Já de acordo com Tito Bessa Jr., os shoppings vão ter que se reconstruir também, incluindo a relação desigual que existia até então com seus locatários.

Gabriele comenta que especialmente para o vestuário, onde a recuperação vai ser lenta, é necessário focar já nas resoluções. Como fechar a conta? O que vou fazer com o digital ou com o número de funcionários? O risco maior, segundo ela, é se nos próximos seis meses após a recuperação, as contas não fecharem.

Aqui e agora

Segundo Andrea Bisker, é importante pensar num comitê de inovação para acompanhar o comportamento desse novo consumidor, investir em ação e não ativação, se preocupar em fazer coisas do que simplesmente pensar em campanhas. É momento de agir e não pensar só no resultado comercial, a solução deve ser boa para todos.

“Podemos pensar em parcerias, trabalhando juntamente com os concorrentes. Além disso é importante ter um propósito. O que você faz muito bem e o que você pode oferecer hoje para se preparar para o futuro?”, comenta Andrea. E, continua: “Historicamente as pandemias quebraram padrões. É hora de abraçar o novo”.

Confira a transmissão na íntegra aqui.

Fonte: Vanessa de Castro | Foto: Reprodução