Consumidores europeus estão mais dispostos a gastar com moda

De acordo com estudo realizado em parceria entre IFM- Institut Français de la Mode e a Première Vision Chair, apresentado na edição online da Premiére Vision, as compras de moda continuam sendo um prazer para os consumidores europeus. Contudo, eles exigem cada vez mais produção local e responsabilidade ecológica. O levantamento analisou cinco mil consumidores nos quatro dos principais mercados de consumo da Europa: França, Itália, Alemanha e Reino Unido.

Apesar da incerteza causada pela pandemia, que está levando 42% das mulheres e 30,4% dos homens europeus a realizar uma redução no consumo, há uma parte dos consumidores – 13,7% das mulheres e 17,1% dos homens – que deseja aumentar as suas compras de moda. Cerca de 88,9% destes consumidores indicam estar motivados por um impulso por “compras de vingança”, um fenômeno em que os consumidores são impelidos a comprar devido às restrições impostas pelo confinamento.

Em França, segundo o estudo, o mercado de vestuário surge em quarto lugar, com 8,2% das respostas, entre os consumidores que admitem querer comprar mais, depois das categorias de saúde e bem-estar, produtos alimentares e mobiliário/decoração e à frente de férias, gastos com tempos livres, automóveis e desportos.

Não é uma grande percentagem, mas é significativa“, afirmou Gildas Minvielle, diretor do Observatório Económico do IFM, durante o webinar de apresentação do estudo, que sublinhou ainda que o mais interessante é “o ranking das prioridades”.

Além disso, explicou que na França “o comércio eletrônico tem sido um grande apoio durante o ano e durante a crise. Nos primeiros sete meses do ano, houve um aumento de 11% nas vendas online de vestuário e, para todo o ano de 2020, será ainda maior. Por isso é significativo, quando temos em conta que no ano passado, em 2019, cresceu apenas 3%”. Isso não impedirá, contudo, que o mercado francês de moda “caia provavelmente 20%, talvez menos”.

Jornalista Karine Porretj e Gildas Minvielle

Os dados mostram que os europeus devem fazer compras nos próximos meses sobretudo nos períodos de saldos e promoções, devido à situação econômica atual, e que há um desejo cada vez maior de se focarem em produtos atemporais (para 83,7%) e para 47,3% deles, isto é, quase um em cada dois consumidores, em artigos mais caros e de maior qualidade.

Consumo responsável

A tendência parece se alinhar com a tendência para um consumo mais ponderado. De acordo com o estudo, os produtos de moda ecologicamente responsável são atrativos para a maioria dos consumidores inquiridos. Cerca de 64% dos europeus querem comprar peças feitas com materiais mais ecológicos e 30,1% estão dispostos a pagar mais por isso.

Esta percentagem sobe para 66,1% em França e para 76,2% em Itália, com os italianos tendo uma visão semelhante independentemente da idade. “É interessante constatar que não há diferença entre países do norte (Alemanha e Reino Unido) e países do sul (França e Itália)”, destacou Gildas Minvielle.

No geral, entre os consumidores europeus mais jovens, dos 18 aos 34 anos, a percentagem é ainda mais elevada, atingindo 73,1%.

As matérias-primas são o principal motor das compras ecologicamente responsáveis. Na Europa, 41,8% dos consumidores citam os materiais mais ecológicos (reciclados, orgânicos ou novas fibras) como o principal critério quando escolhem um produto ecologicamente responsável. Os consumidores britânicos e alemães são os mais numerosos ao citar este fator (43,8% e 45,6%, respetivamente).

Este interesse é compartilhado pelos jovens em todos os países europeus. “Isto pode sugerir que numa altura de crise de saúde, um interesse em matérias-primas está relacionado com preocupações globais de saúde”, refere o estudo.

Na França e Itália, países com tradição de produção e forte know-how, os consumidores continuam mostrando um forte interesse pela produção eco friendly (40,7% entre os franceses e 44% para os italianos).

Entre os jovens dos 18 aos 34 anos que não planejam comprar moda responsável, o preço continua a ser o principal obstáculo (61,8% desses europeus estão à espera de preços mais acessíveis).

Há igual interesse pelo mercado de segunda-mão. Cerca de 30,8% dos europeus gostariam de fazer compras neste tipo de loja nos próximos meses e 44,3% dos jovens manifestam a mesma vontade.

Produção local preferida

As etiquetas também se revelaram um fator importante, com a maioria dos consumidores europeus atentos, sobretudo à indicação “made in” (60%), e 58,5% reconhecem dar preferência à produção local. Entre os indivíduos da faixa etária 18-34 anos, 33,1% estão mesmo dispostos a boicotar certos produtos fabricados no estrangeiro.

Os consumidores europeus indicaram que são muito a favor de colocar o local de produção nas etiquetas e até a tornarem isso obrigatório, o que exigiria a adoção da diretiva europeia por parte de todos os países-membros.

Em países com tradição de produção, a questão é ainda mais importante. Em Itália, 73,5% dos consumidores prestam atenção ao local de produção e 72,9% preferem produtos “made in Italy”.

O ‘made in’ tornou-se novamente num tema importante“, garantiu o diretor do Observatório Económico do IFM. “Tal como a responsabilidade ambiental, saiu reforçado”, acrescentou.

“A mensagem dos consumidores neste estudo é que o mundo de amanhã, o futuro, não será uma cópia exata do mundo antes (da pandemia). Precisamos de um novo paradigma. Um paradigma onde o ‘made in’ e a responsabilidade ecológica terão um papel muito importante. Isso vai ajudar a reconstruir a confiança”, concluiu Gildas Minvielle.

Fonte: Portugal Têxtil | Fotos: Reprodução