A recuperação do denim no mercado internacional confirma uma mudança de ciclo no consumo de moda: após anos dominados pelo athleisure, o jeans volta a ocupar o centro das decisões de compra. O segmento, que fechou 2024 avaliado em 86,7 bilhões de dólares, deve crescer 42% até 2030, sustentado por taxas anuais acima de 6% e pela preferência renovada do público por peças duráveis, versáteis e culturalmente simbólicas. A revalorização do denim favorece gigantes como Levi’s, Gap e American Eagle, ao mesmo tempo em que pressiona marcas antes impulsionadas pelo boom das roupas esportivas e confortáveis.
A perda de fôlego do athleisure — impulsionada pelo desgaste da estética Y2K e pela saturação de materiais como lycra e nylon — coincide com a ascensão de valores ligados à resistência e à confiabilidade, atributos históricos do jeans. Em um cenário econômico global marcado por incerteza e receio de perda de poder aquisitivo, consumidores priorizam peças de maior longevidade, reduzindo o protagonismo de leggings e activewear. Essa virada estilística também é reforçada por tendências culturais recentes, que ampliam o apelo do denim e o reposicionam como peça-chave, não apenas no guarda-roupa, mas no debate social e estético contemporâneo.
A movimentação já se reflete nos números da cadeia produtiva. A região da Ásia-Pacífico desponta como principal polo de crescimento, com projeção de atingir 34,6 bilhões de dólares em consumo e manufatura até 2030. Índia liderará o avanço regional, enquanto a América do Norte — berço do denim — segue como maior mercado consumidor. Paralelamente, o algodão, matéria-prima essencial do jeans, vive um momento delicado: seu preço deve voltar a subir em 2026 e 2027, após uma breve queda em 2025, ao passo que a oferta global deve cair 2% na temporada 2025-2026, pressionada por recuos expressivos na produção de Austrália, Turquia e Estados Unidos.
Mesmo nesse contexto de custos crescentes, o denim cresce também por força das estratégias agressivas das marcas. A Levi’s avança no reposicionamento promovido pelo Project Fuel e apostou em Beyoncé para a campanha Reimagine, que revisita o legado da companhia. Já a Gap ressurge no centro da cultura pop com Better in Denim, impulsionada por figuras como Gwyneth Paltrow, Apple Martin e o grupo Katseye, protagonista de um vídeo que ultrapassou 400 milhões de visualizações. A American Eagle, por sua vez, viralizou com a polêmica campanha estrelada por Sydney Sweeney, que acabou impulsionando suas ações após repercussão até na Casa Branca.
Os resultados começam a aparecer: a Levi’s registrou aumento de 7% na receita e multiplicou seus lucros no último trimestre, enquanto a Gap manteve vendas estáveis, mas ampliou seu lucro em quase 5%. As marcas de activewear, ao contrário, enfrentam dificuldades diante da mudança de humor do consumidor. Lululemon viu seu lucro cair mais de 5% no segundo trimestre e perdeu 40% de seu valor de mercado em um ano, pressionada pelo fraco desempenho nos Estados Unidos. Já a Under Armour registrou queda nas vendas, voltou ao prejuízo e reduziu suas projeções para o exercício fiscal.
A ascensão dos jeans e o enfraquecimento das peças esportivas sinalizam não apenas uma virada estética, mas uma mudança estrutural no comportamento de consumo pós-pandemia. A moda, que já foi dominada pelo conforto absoluto, agora se inclina novamente à solidez e ao classicismo — e poucas peças representam isso tão bem quanto o denim. Entre incertezas econômicas, reconfigurações culturais e desafios na cadeia do algodão, o jeans não apenas sobrevive: ele volta a ditar o ritmo.
Fonte: Ana Gimonski | Foto: Divulgação









