Encontro de Titãs: Tufi Duek e Renato Kherlakian revivem suas histórias no jeans

A Denim City São Paulo reuniu em live, realizada última semana, sob o comando do consultor Carlos Ferreirinha, os maiores nomes do mercado jeanswear: Renato Kherlakian, da Zoomp e Zapping, e Tufi Duek, da Forum e Triton. Com muitas histórias para contar, os profissionais que tem no sangue o gosto e o “tino comercial”, abordaram várias etapas das marcas que fizeram sucesso entre os anos 70, 80 e 90.

“Chance única, oportunidade histórica de ter dois nomes que foram definitivos em criar conceitos que até hoje permeiam a indústria têxtil e de moda e, além disso, o conceito de lifestyle da moda brasileira. Foram poucas as marcas brasileiras que na sua história confrontaram as marcas internacionais em produto, qualidade, posicionamento”, afirma Carlos Ferreirinha. “Até hoje elas são as grandes referências da moda nacional e da indústria do jeanswear”.

A Zoomp criada em 1974 e, agora fora do mercado, foi uma das primeiras a ser desejada e cobiçada e, apesar de ter um preço elevado, era acessível, unindo vestibilidade, qualidade e durabilidade. “Criamos um hábito dentro desse consumidor […] O indivíduo não precisava atravessar o Atlântico para encontrar um produto de qualidade”, comenta Renato.

A Forum, criada em 1981, foi vendida em 2008 e ainda mantém seu sucesso investindo também em outros lifestyles. “Conseguimos dar valor ao ‘Made in Brasil’. Eu ficava orgulhoso dentro do avião quando contava quantas pessoas estavam usando calças da Forum”, diz Tufi.

Segundo Tufi, atualmente precisamos ver para onde a moda vai seguir, lembrando que para construir o novo temos que olhar para o passado e valorizando sempre o produto nacional, o feito em casa. É um momento de “desglobalização”, de olhar o local.

Um pouco de história

Durante a transmissão ao vivo, Tufi contou que sua paixão pelo jeans começou bem antes de criar a primeira marca, a Triton quando ganhou a primeira calça numa época que não existia denim no Brasil. A Forum surgiu da ideia de seu irmão para a introdução do jeans, uma peça democrática, que todo mundo usa e quer ter igual, diferente do prêt-a-porter. Tufi buscou inspiração na Zoomp que já existia, em outras marcas ícones da época como Fiorucci, Wrangler, Levi’s®.

Já o logo veio da ideia de uma placa para “parar e prestar atenção”. “Não queria copiar ninguém e encontrei um lugar no bolso para colocar minha logomarca”, comenta Tufi. “Mais do que fazer uma calça jeans é o reconhecimento da marca que conquistou seu espaço. Meu objetivo sempre foi desafiar os concorrentes e construir meu DNA em cima de um produto que nunca saiu de moda”, completou.

A Forum buscou criar novos pontos de vendas por todo Brasil e depois internacionalmente. Em 1994, a coleção “Made In Brasil” apresentada na Estação Julio Prestes foi um sucesso e, desde então, a marca sempre buscou inspiração na brasilidade.

Além disso, a Forum realizava turnês de desfiles pelo país juntamente com as lojas franqueadas. Em 2000, foi criada a primeira flagship na Oscar Freire com uma arquitetura ousada em tons de vermelho, branco e preto. Participou ainda do Morumbi Fashion e São Paulo Fashion Week.

“Sempre busquei me preocupar com a melhor memória que podemos buscar para o consumidor porque a moda é memória, é história. Eu queria levar para a equipe o conceito do que era a Forum”, comenta Tufi.

Já Renato Kherlakian começou com uma confecção de camisas de patchwork, mas sempre foi apaixonado pelo denim. Após uma viagem de férias olhando o céu azulado e a imagem de um raio, veio a inspiração para investir em uma matéria-prima mais permanente com um jeans que não fosse five pockets, voltado só para a mulher respeitando as curvas e numeração intermediária.

O primeiro jeans stonado e rasgado do Brasil. “No final dos anos 70, a marca (Zoomp) já era consolidada no mercado e muito desejada”, afirma Renato.

A Zoomp realizou desfiles pelo país, trabalhou com top models como Gisele Bündchen, e teve ainda a direção criativa de Alexandre Herchcovitch. Sempre foram ousados em campanhas provocativas e buscaram ainda a internacionalização da marca através da publicidade e a presença em grandes magazines de moda.

“Temos orgulho de levar o jeans anatômico brasileiro que levanta o bumbum para a Europa e outros mercados”, comenta Renato que ainda lançou, em 2016, o livro “Uns Jeans, Uns Não” contando a história da marca. “Vejo com muita satisfação e alegria o reconhecimento que o mercado tem com o meu trabalho e com o do Tufi”, acrescentou.

Dificuldades

Naquela época, o denim não tinha stretch e esta era uma das maiores dificuldades na hora de lavar devido ao encolhimento da peça. Então, era necessário entender os limites dos tecidos para o ajuste perfeito. A Zoomp estudava a anatomia do corpo da mulher para que a calça se moldasse.

“O outdoor da Zoomp foi através do derrière das meninas”, comenta Renato.

Na sequência, Tufi comentou sobre a falsificação das marcas que foi um grande problema, além da instabilidade na economia, a falta de matéria-prima.

Futuro

Renato Kherlakian indicou esperar que seja possível reeditar os anos 70, 80 e 90, com a característica e a pujança que tiveram, a partir do momento que haja um reequilíbrio no Brasil, para que possam novamente estar alinhados à moda internacional.

Segundo Tufi, o jeans vive um outro momento: mais sustentável, consciente, personalizado, de reuso, continua como símbolo de resistência, não entrou no fast fashion, atemporal, modificando ainda o posicionamento de grandes marcas.

“O momento agora é de um novo olhar para o sócio ambiental, com menos química, mais preocupação com a natureza e que está transformando toda uma geração, e esse é o futuro que temos que levar para as novas marcas, estilistas, designers a pensar olhando para trás em que ponto que estamos e como podemos olhar para frente. Repensar o lado social, ambiental, tecnologia, a conexão do antigo e o novo”, afirma Tufi.

“Dois gigantes do jeans, estão fazendo falta no mercado, as duas marcas literalmente marcaram época, devido à qualidade dos produtos, porque foram inovadores, batalhadores, exigentes, subindo a régua”, comentou a jornalista Lilian Pacce, em vídeo apresentado durante a transmissão.

Ferreirinha encerrou o bate-papo abordando uma reflexão em cima de inspirações citadas por Tufi e Renato. “Sejam curiosos, busquem referências em tudo o que te inspira, deixe o olhar aberto, mantenha o pensamento estratégico, mantenha o magnetismo de marca, o brilhantismo, mantenham o sonho de fazer diferente, busquem referências locais, é o momento de acreditar nos princípios culturais e, tantas vezes negligenciados por nós mesmos”, apontou.

“Criem iconografias, imagéticas, desde os logos, adesivos do carro, campanhas, lojas, desfiles, se mantenham incomodados, inquietos, tenham marcas manifesto, desafiadoras, que questionem, que tragam reflexões, não apenas sejam parte de uma conformidade e, por último, valorizem as pessoas, como o universo de profissionais que passaram pelas duas marcas. É além de brasilidade, é ter orgulho de fazer uso de algo produzido no Brasil, com referências e mão de obra brasileiras, que evoquem em nós o orgulho de fazer uso de uma marca brasileira”, finalizou.

A Denim City SP é uma grande operação que vai nos trazer uma série de benefícios e colocar o Brasil na rota da internacionalização novamente e da qualidade”, comentou Renato.

“O jeans ultrapassou a barreira de uma categoria de produto, porque senão Chanel, Dior, Gucci não fariam o jeans também, eles entraram no nosso mundo e a gente estava entrando no deles. O jeans é um status, posicionamento, de qualquer pessoa, de qualquer classe, seja social, de idade, de época, tamanho, não importa. Ele ultrapassou essa categoria de roupa e virou uma categoria do jeans brasileiro que já teve tão forte no mercado e, que ele possa com essa nova geração construir um novo momento do jeans brasileiro”, afirma Tufi.

Confira a transmissão na íntegra:

Fonte: Vanessa de Castro | Foto: Reprodução