Hadi Hamade detalha o segredo do sucesso da Consciência Jeans

É muito bom falar de marcas que criam e desenvolvem 100% das suas coleções em território nacional. É o caso Consciência Jeans, que completa 15 anos de trajetória em 2019.

Encabeçada pelos irmãos CEOs Hadi Hamade, que cuida da parte comercial da empresa, e Kassem Hamade, responsável pela qualidade e logística do chão de fábrica, a empresa começou como confecção e evoluiu para uma marca no final de 2008. Desde então, se propõe a conscientizar cada vez mais as pessoas fazendo jeans. As coleções refletem o estilo híbrido, diversificado e eclético típico da consumidora – e do consumidor – de denim no Brasil.

Em 2014, quando a Consciência Jeans teve seu grande “boom” e visibilidade, através de uma coleção autoral inspirada em diversas regiões do nosso país. Hadi Hamade já havia compartilhado um pouco da visão e da estratégia que vinha  diferenciando a marca em sua última entrevista concedida ao Guia JeansWear.

O ritmo de crescimento continuou, atravessou as estações e manteve a evolução independente das instabilidades de mercado. Deste modo, nossa CEO Iolanda Wutzl retomou a conversa com Hadi para saber qual o segredo dessa trajetória promissora, que tem se diferenciado e somado qualidade ao nosso mercado. Confira a entrevista completa abaixo!

Guia JeansWear: Como vocês definem o atual consumidor da marca?

Hadi Hamade: A cada dia o nosso consumidor tem mudado. Atendemos desde uma menina de 12 anos que usa tamanho adulto até moças com perfil maduro. Somos muito versáteis, conseguimos atender diversos públicos.

GJ: Qual o segredo do sucesso para se tornar mais forte a cada ano no segmento jeanswear?

Hadi: Acreditamos que a Consciência ainda pode crescer muito. Se está dando certo o mérito é de muito trabalho, trabalho árduo. Produto, marca, inovação e pessoas. São nossos pilares.

GJ: Vocês fazem mais os dois gêneros, feminino e masculino, mas percebemos que o feminino é mais forte. Qual o motivo?

Hadi: Na verdade, a Consciência trabalha ambos os gêneros, porém o feminino tomou uma forma maior após 2014, porque nessa época todo o Brás migrou para o masculino, em uma espécie de reação a crise. E nós, enxergamos nessa movimentação uma oportunidade para aumentar o espaço do nosso mix feminino, que era 50% até então. Hoje, esse percentual é de aproximadamente 85%.

GJ: O que mudou nos últimos quinze anos neste mercado?

Hadi: A influência das redes sociais foi a principal mudança. Antigamente, nossa preocupação era produto e quantidade. Com as redes sociais, a qualidade tornou-se uma preocupação. Conseguimos enxergar esse diferencial e focar mais o produto com qualidade.

GJ: Vocês pretendem atender outros nichos de mercado, como plus size, por exemplo?

Hadi: Este ano fizemos diversos lançamentos, comemorando nossos 15 anos de existência. Um deles foi a linha Curves, lançada em março deste ano (não chamamos mais de plus size mas de curves).

GJ: Um dos produtos de maior visibilidade da marca de vocês é o Extreme. Conte-nos como a adesão e popularidade desse produto tem acontecido no mercado e nas redes sociais.

Hadi: Começamos o movimento Extreme no ano passado, quando fizemos o provador de uma calça pequena. Depois, foi a vez do lançamento do produto Extreme nas academias, com a embaixadora Lorena Batalha, e Lorena desafiou a Taís Leia – uma ex-bailarina, que juntou as amigas e lançou o ballet Extreme. Agora está tendo o movimento de cavalgadas com o Extreme Power: uma ideia da Ana Beatriz, parceira nossa das lojas Benjamim de Caruaru. Ela mesma produziu o vídeo e o material e nos enviou. O jeans hoje não te limita mais, ele se transformou em uma calça legging.

GJ: Vocês estarão presentes na Denim City. Fale um pouco dessa parceria, a importância e do que será apresentado lá?

Hadi: Foi paixão à primeira vista. O mercado denim hoje no Brasil é muito complicado. No varejo as marcas sofrem para vender o jeans, pois ainda existe a cultura de comprar tecido barato, fazer lavagem boa e conseguir um bom resultado. Mas a receita hoje é básica: tem que ter um jeans bom, costura boa, acabamento bom e lavanderia boa. O Denim City vai dizer isso para as pessoas, com tecnologia. É um projeto espetacular.

GJ: Vocês estão comemorando 15 anos. Para celebrar este momento, Renato Kherlakian irá realizar uma colaboração da marca. Como surgiu esta iniciativa?

Hadi: Sempre fui fã da Zoomp e do Renato. Pensei, cheguei nos meus quinze anos e preciso aprender com alguém. Quem pode me ensinar muito? E como temos muitos amigos em comum, acabamos nos conhecendo. Tudo que fizemos nestes quinze anos, de bom, com o DNA e a digital do Renato, esta é a ideia da coleção Consciência by RK 15 anos.

GJ: Você foi criado no Brás. Na sua opinião, o que falta para dar um up neste polo de São Paulo, que é uma referência no mercado jeanswear do Brasil?

Hadi: É uma pergunta que me faço diariamente. Será que foi mais forte no passado ou é mais forte hoje? Pois antigamente o Brás tinha quatro ruas e agora tem trinta. Hoje o jeans no Brasil é visto de duas diferentes maneiras. Algumas pessoas o vêem como um commodity, uma calça básica para se usar no dia-a-dia e pronto. Outras enxergam nele moda, sonho e produto. Para nós o jeans é isso, não é só uma five-pockets. Usamos ele por opção, porque buscamos estar na moda com o conforto do jeans. Não tenho uma certeza absoluta se essa divisão é um problema. Mas afirmo que todos que estão enxergando o jeans como commodity hoje, estão regredindo no mercado.

GJ: E quais são as principais marcas concorrentes da Consciência Jeans?

Hadi: Não tenho concorrência, tenho vizinhança. Quem faz produto bom nunca é meu concorrente: é meu complemento. Porque assim como eu, ele busca o melhor: a melhor lavanderia, treina costuras, pesquisa tecido e busca a melhor modelagem. Meu concorrente é aquele que não sabe fazer jeans, pois ele engana o cliente. Aquele que faz um jeans equiparado ou melhor que o meu, agrega ao mercado como um todo. Concorrente não é quem faz um produto similar, e sim quem faz cópias falsificadas.

GJ: Qual conselho você daria para as marcas que estão começando ou perdidas frente às mudanças de mercado.

Hadi: A realidade é muito traiçoeira, além da coragem é preciso ter planejamento. Antes de empreender, estude seu ramo, faça contas. É preciso saber onde se está indo e o que está fazendo. Empreender é um processo muito árduo. Você precisa estar disposto a abrir mão de todos os finais de semana, correr atrás, viajar, participar de congressos, vender bens para colocar no seu negócio para sobreviver. E quando você dá certo, as pessoas vão te copiar. Mas quando vem a crise é só o verdadeiro empreendedor que sobrevive, quem tem estilo próprio. Empreender é fazer aquilo que se sabe fazer de melhor. Tenha seu estilo. Saiba seu tamanho. Fature o que você pode. Preço é a ultima coisa que você pode oferecer ao mercado: primeiro você dá produto, atendimento, parcelamento. O preço prostitui todo o mercado, e não motiva a fidelidade.

GJ: Que mensagem você gostaria de deixar para o mercado denim nacional, como um todo?

Hadi: O Brasil tem tudo, desde o algodão, o fio, tecelagem, costureiras, mas não exportamos. O convite que tenho a fazer é para a união do setor, para que possamos ser o maior polo têxtil do hemisfério sul do mundo.

Fonte: Vivian David | Fotos: Arquivo Pessoal