Indústria da moda x novo consumidor: como se preparar para estas mudanças

Dentro da programação do SCMC (Santa Catarina Moda & Cultura) Conecta, o diretor da Tecnoblu, Cristiano Buerger recebeu Claudio Grando, diretor da Audaces, para discutir sobre a nova relação de consumo entre o cliente e a indústria.

Novos tempos e mudanças muito rápidas permeiam o mundo da moda. É preciso ser ágil, criativo e conhecer de perto esse novo consumidor, que segundo Cristiano, comanda a cena. Claudio Grando aponta três grandes disrupções que se intensificaram neste momento.

A primeira é a digitalização, intrínseca em mundo cada vez mais digital, seguida pela aceleração, que está acontecendo em todos os mercados, inclusive no mundo da moda. Aqui, vale ressaltar que muito se discutiu sobre uma moda mais sustentável e mais lenta, mas segundo Claudio, o mundo, mesmo durante a pandemia, com todos em casa, não parou e está mais acelerado do que nunca.

Por fim, há o poder que está com o consumidor: “Nunca na história, o consumidor teve o poder que tem hoje. Ele pega o celular e decide qual design, estilo de roupa quer comprar e paga o preço que acha justo”, comenta Claudio. E, continua: “Essas três diretrizes já estavam presentes em nossas vidas e agora ficaram mais evidentes e nós ligados à indústria da moda estamos sentindo tudo isso.”

Coleções assertivas

Segundo Cristiano Buerger, a taxa de assertividade de uma coleção gira em torno de 20 a 30% dos produtos lançados. O desafio é como aumentar esse valor gerando melhores resultados e bons volumes.

Claudio acredita que é possível aumentar essa margem para 50 a 60% seguindo algumas premissas. O primeiro passo é a equipe se dar conta de que a taxa de assertividade é baixa para depois encontrar qual caminho seguir. É necessário ser mais rápido. Atualmente, não cabe mais criar o Inverno de 2020, por exemplo, em 2019.

“Muitas empresas já estão sentindo o cliente hoje e lançando o produto dentro de uma semana ou 15 dias. Esse é o caminho. O que a gente não pode mais pensar é em ter um tempo de desenvolvimento de coleção de seis ou nove meses”, comenta Claudio. “Independente do seu modelo de negócio, do seu canal de venda, a sua roupa precisa chegar ao consumidor que quer uma novidade de agora, e não uma novidade de nove meses atrás”, completou.

Digitalização

O mundo digital está presente em várias esferas do segmento de moda e, pode ser o diferencial dentro do processo de criação, desenvolvimento de coleção e entrega mais rápida para o consumidor final.

Dentro desse tema, Claudio aponta a Indústria 4.0 como facilitadora para os processos de criação onde a equipe precisa trabalhar como um time, e não mais em uma sequência, quando demanda um maior tempo. As coleções também precisam ser menores e mais assertivas.

Os profissionais destacaram ainda a importância da cadeia de moda brasileira. “É muito provável que o Brasil esteja entre as duas ou três cadeias de moda que mais rápido conseguiram sair da crise. A partir de julho, aconteceu uma aceleração muito grande e até faltou matéria-prima. Algo que era inimaginável em março, abril, maio […] Isto mostra a criatividade, a forma como o Brasil, no varejo ou atacado, consegue ser ágil, eficiente, entendendo bem o consumidor final e a nossa cadeia”, afirma Cristiano. E, continua: “Se tivermos esse entrosamento entre consumidor final, comércio e indústria, isso vira uma potência espetacular”.

“O poder de criação do brasileiro é fantástico […] O grande desafio é dar o poder de criação e ao mesmo tempo deixar claro para as pessoas o que elas têm que criar. Qual o objetivo da empresa?”, comenta Claudio.

Calendário de Moda

Muito se tem falado sobre o calendário de moda ultrapassado, onde deveria haver menor tempo para a compra de coleção. Não faz sentido comprar agora o Inverno do ano que vem, mas sim em fevereiro ou março.

“Essa assertividade de 20/30% acaba passando também para a multimarca ou outros varejos que talvez estejam nesse modelo mais antiquado”, disse Claudio, que afirmou ainda sobre algumas multimarcas que já trabalham nesse novo calendário e estão muito felizes com os resultados porque conseguem ser mais competitivos. Os grandes magazines também já estão inseridos neste modelo.

Consumidor Final

E como entender melhor o novo consumidor que é o foco central de qualquer empresa de moda? Para Claudio Grando, é importante ter um e-commerce para se relacionar com esse consumidor final onde a tecnologia permite que ele seja um aliado e não um concorrente aos canais de venda.

Outro ponto importante, segundo o diretor da Audaces, é a equipe de criação que deveria também estar na rua, conversar com o consumidor, ir nas lojas, observar o mercado. “O período criativo do estilista fica parecido com a assertividade das coleções – de 20 a 30% porque ele perde muito tempo resolvendo problemas – o custo que ficou mais alto, o acessório que está em falta, a peça piloto que precisa ser refeita […] é na rua que as coisas acontecem, é na rua que as pessoas usam as roupas, quanto mais interagir mais insights terá”, comentou.

Claudio Grando ainda comentou sobre as pequenas marcas de moda que surgiram durante a pandemia, que entenderam a oportunidade de mercado, como os consumidores se comportam, que já nasceram digitais e obtêm sucesso pelo forte relacionamento com o cliente.

O diretor indicou que as empresas precisam “aprender a contar uma história”, pois os consumidores mudaram, querem algo confortável e não somente conforto físico, mas também “espiritual”, buscam por processos responsáveis.

Equipe

Qual seria o perfil dessa equipe para fazer parte dos novos processos? Segundo Claudio Grando, são as pessoas multifuncionais juntamente com a Indústria 4.0 na criação, produção. Além disso, ele ressalta que muitas vezes há problemas de comunicação dentro da empresa, o que atrasa ainda mais o desenvolvimento da coleção.

Para isto, existem ferramentas digitais que podem colaborar nesses processos dentro da cadeia de moda. “O poder efetivamente está na criação e esse poder tem que ser usado com responsabilidade. É fundamental saber o que seu consumidor quer comprar”, afirmou Claudio.

E, neste momento, as empresas que mudaram seu mix de produtos conseguiram vender mais, onde as pessoas buscam por peças confortáveis e tops, por conta do home office e transmissões ao vivo.

“Acredito muito na moda brasileira, ela está num momento fantástico nesse pós-pandemia. Nos tornamos digitais, mais ágeis, estamos entendendo melhor o consumidor, o poder que a nossa cadeia tem e que agora mais do que nunca, ficou claro que é uma fortaleza gigante dentro do país. Temos que ocupar um espaço maior, fora do Brasil, temos que ganhar o mundo, temos pessoas, criatividade e inteligência para isso. Acho que, inclusive, pós-pandemia a moda brasileira estará mais presente fora do Brasil”, finalizou o diretor da Audaces.

Confira a transmissão completa na íntegra:

Fonte: Vanessa de Castro | Foto: Reprodução