Que tipo de moda estamos querendo? E que mundo é esse que queremos imaginar?
Através dessas duas inquietações Jackson Araújo iniciou seu talk “A moda para o novo mundo já chegou”, em parceria com a Fundação Hermann Hering, durante a Semana Fashion Revolution. O evento foi realizado totalmente de maneira online, com transmissão via Instagram, como modo de evitar aglomerações por conta da pandemia do Covid-19, o novo coronavírus.
Analista de tendências de moda e ativista de racionalização criativa para a sustentabilidade, Jackson vem estudando e construindo tais reflexões desde 2014 analisando a valorização do coletivo em uma nova forma de economia que chamou de afetiva. A pauta se tornou assunto principal do projeto Trama Afetiva, realizado com o patrocínio da Fundação Hermann Hering desde 2017.
Mas afinal, o que é a economia afetiva e como ela pode permear essa nova moda? “Ela parte da premissa que vivemos em uma nova era movimentada pelo senso de responsabilidade coletiva e por um novo poder regido pelo desejo de organizar o todo – a vida social, política, econômica e cultural a partir de uma criação de rede em que cada um de nós possamos sentir parte de um movimento de transformação socioambiental”, afirma Jackson.
Segundo Jackson, o mundo já vinha desgastado e contaminado bem antes dessa pandemia e, agora mais do que nunca, é hora de rever os pontos ultrapassados e os que entram em cena e serão valorizados.
Passado e presente
Sai de cena o “Do It Yourself” (Faça você mesmo) abrindo espaço para a moda do “Faça com os outros e Faça para os outros”.
Sai o enriquecimento pessoal e entra o fortalecimento do ganho coletivo.
Sai o individualismo e entra a interdependência, a relação de uma construção sólida em que um depende do outro. Um grande exemplo disso é o isolamento e o uso de máscaras para nos proteger e, também os outros. Há ainda a valorização do coletivo em uma relação transparente entre designers, modelistas, costureiras, tecelagens e consumidores.
Sai de cena o sistema de produção que prioriza a fabricação em massa e entra a produção em ritmo de ateliê, valorização do design, acabamentos, do feito à mão e artesanal.
Fica no passado a ocultação dos impactos ambientais do ciclo de vida das roupas e de como essas peças são descartadas e entra a transparência em relação à durabilidade, como é feito o descarte, reuso, upcycling, entre outras alternativas. Além disso, será necessário valorizar as pesquisas para o desenvolvimento de materiais que sejam saudáveis tanto para a pele quanto para o meio ambiente.
Sai o custo baseado na mão de obra e materiais baratos para a valorização dos aspectos sociais da produção, preços reais.
A sustentabilidade sempre foi assunto na moda, mas também se fortalece e torna-se indispensável na construção de um novo futuro. “É impossível do meu ponto de vista, a gente imaginar um novo mundo sem fazer uma reflexão profunda sobre a emergência climática já estabelecida”, comenta Jackson.
Uma nova moda aqui e agora
“Desde 2000 estamos falando sobre slowlife, slowfood, slowfashion, já antecipando aquilo que seria inevitável e que estamos vendo hoje. Agora que essa pandemia coloca todo mundo dentro de casa e nos obriga a desacelerar a vida em busca de evitar um colapso no sistema hospitalar, por exemplo, com reflexos desastrosos na economia global, é importante lembrar que toda a economia está colocada em cheque. O velho formato do capitalismo está sendo questionado. Essa tomada de decisão sobre um estilo de vida mais desacelerado de produção e consumo mais lento é o que vai definir as diretrizes para a gente imaginar qual seria a moda para esse novo mundo”, destaca Jackson.
O jornalista ainda pontua os valores da moda deste novo mundo:
- 1. Diversidade de corpos, discursos, políticas públicas, justiça social.
- 2. Priorização do local em relação ao global. “Isso já deveria ter sido estabelecido há muito tempo e não somente agora com a pandemia. Pensar em construirmos para um país tão diverso propostas de design para vestir que respeitem corpos, meio ambiente, deslocamento de produto, por isso a valorização do local é tão importante porque vai diminuir os impactos da cadeia de insumos de transporte, diminuindo a utilização de combustível fóssil, petróleo e seus derivados, existentes ainda nas matérias-primas das roupas”, afirma Jackson.
- 3. A promoção da consciência socioambiental em todos os pontos da cadeia e a valorização dos cuidados com o ecossistema.
- 4. Contribuição para a confiança entre produtores e consumidores através da transparência em todos os processos.
- 5. Manutenção principalmente da produção entre a pequena e a média escala. “Essa quantidade de coisa que se fez e se faz que fica parado em estoque que eventualmente pode parar no aterro sanitário não tem mais sentido”, diz Jackson.
Esses foram os principais tópicos que irão permear essa nova moda que já chegou e que segundo Jackson segue a seguinte premissa: “A Moda não é feita sobre roupas mas sobre pessoas”.
Fonte: Vanessa de Castro | Fotos: Thays Bittar/Reserva Reprodução









