O Fórum Ambição 2030, evento promovido pelo Pacto Global da ONU – Rede Brasil, aconteceu no último dia 3 de abril no Hotel Rosewood em São Paulo, reunindo altas lideranças com o intuito de mobilizar empresas e organizações brasileiras para que assumam compromissos e ações em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). “Essa iniciativa é uma resposta à necessidade de acelerar o progresso em direção à realização dos ODS e de enfrentar os desafios globais urgentes, como as mudanças climáticas, a desigualdade e a pobreza”, comentou a organização do Fórum.
O evento promoveu o lançamento do Grupo de Trabalho (GT) em Direitos Humanos para o setor de Moda Têxtil, que tem o objetivo de engajar as empresas para que se unam de forma colaborativa para trabalhar os desafios em direitos humanos no segmento. A iniciativa tem co-liderança da Live! e do Grupo Malwee e apoio da Riachuelo. A programação contou discussões sobre os Impactos da Cadeia de Moda na economia: renda e trabalho das mulheres; Lançamento do GT Moda Têxtil; A Interseccionalidade de direitos humanos na cadeia da Moda e Têxtil; Consumo Sustentável e os ODS 2030 e Influenciando consumidores a escolherem produtos sustentáveis.
Confira alguns insights apresentados durante as rodas de conversas.
Camila Valverde COO do Pacto Global da ONU – Rede Brasil e diretora de Impacto abriu o evento enfatizando a importância da discussão sobre consumo consciente envolvendo o setor têxtil. “20% dos empregados da indústria no Brasil estão no setor têxtil e 60% são mulheres, então nós temos uma grande oportunidade de gerar impacto positivo na vida das mulheres na sociedade porque esta é uma cadeia que vai do campo, da plantação do algodão ao pós-consumo do vestuário”, comentou Camila.
Sobre as condições e oportunidades de trabalho para as mulheres, Joice Sens, Fundadora e Diretora Criativa da LIVE! afirmou que é importante as empresas oferecerem condições e um olhar humanizado para que elas consigam conciliar família, filhos e o emprego.
Já Ana Fontes, Vice-Presidente do Conselho de Administração do Pacto Global da ONU – Rede Brasil e Fundadora da Rede Mulher Empreendedora e Instituto Rede Mulher Empreendedora disse que empreender não é igual para homens e mulheres pois há muitos desafios como a necessidade de uma rede de apoio, a economia dos cuidados, entre outros. Ela afirma que muitas começaram seus negócios próprios depois que se tornaram mães e, não optaram porque queriam, mas sim porque foram obrigadas, para conciliar os diversos papeis em sua vida. Mas ainda ganham pouco, mesmo assim é com essa renda que conseguem sustentar as famílias e muitas vezes sair de um casamento tóxico.
Ana também trouxe um dado interessante: 70% dos empregos são gerados por micro e pequenos negócios.
A Rede Mulher Empreendedora tem um programa que seleciona negócios liderados por mulheres, qualifica, certifica e conecta esses negócios com grandes empresas.
“Se não acelerarmos, não vamos chegar nos objetivos de desenvolvimentos sustentáveis porque não só as mulheres são as mais impactadas, mas também, os demais grupos que estão à margem dos debates das tomadas de decisão, que têm o poder de trazer novas perspectivas e possibilidades, inovação e transformação, efetivamente”, diz Tayna Leite, Head de Direitos Humanos e Trabalho do Pacto Global da ONU – Rede Brasil.
O bate-papo que lançou o GT Moda Têxtil trouxe como moderadora: Gabriela Almeida, Gerente de Direitos Humanos e Empresas, Pacto Global da ONU – Rede Brasil; Luciana Campos, Gerente de Relações Institucionais do Itaú Unibanco; Pedro Villela, Gerente Executivo de Responsabilidade Social da Eletrobrás, Isabela Veronezzi, CEO Reorder e Head Sustentabilidade da LIVE! e Carlos Eduardo Maia, Diretor de Sustentabilidade e Recursos Humanos da Malwee.
Luciana falou sobre a importância das alianças dos diferentes setores em diversos projetos e ações, Isabela comentou como avançar gerando renda e apoio às mulheres. Para Carlos Eduardo, a questão dos direitos humanos é o maior desafio. É importante ainda que empresas concorrentes abordem os problemas comuns e tentem resolve-los. Outro ponto é trabalhar a diversidade no mercado de moda quebrando mitos de belezas e corpos ideais.
“Sustentabilidade é uma grande fortaleza do Grupo Malwee. Nosso plano 2030 é super estruturado e claro e do ponto de vista social é um grande desafio e nada melhor do que estar num grupo de trabalho, liderando esse movimento junto com outros parceiros para acelerarmos a indústria”, comenta Carlos Eduardo.
No painel: “A interseccionalidade de direitos humanos na cadeia de Moda e Têxtil”, Fernanda Simon, Diretora Executiva do Instituto Fashion Revolution Brasil, questionou como podemos minimizar o impacto da indústria de moda ao meio ambiente.
“As mulheres fazem parte da história da Indústria Têxtil, mas muitas ainda continuam trabalhando muito e ganhando pouco. Há muitas delas em situação de trabalho análogo à escravo”, afirma Fernanda Simon. E continua: “A cadeia produtiva da moda é extremamente complexa porque quando a gente imagina que a fibra precisa ser extraída para produzir o fio, tecido, passa por beneficiamentos para virar uma roupa, transportar para ser vendido… são muitos processos produtivos, então o risco de ter violações dos direitos humanos dentro dessa cadeia é enorme”.
Sobre a produção do algodão Fernanda traz um viés bem polêmico.
“Nós somos um dos maiores produtos de algodão do mundo e ele é vendido como sustentável, mas quando olhamos para como e onde o algodão é produzido, sabemos que vem do Cerrado e é um dos maiores motivos do desmatamento daquela região, é produzido pelo sistema de monocultura, com agrotóxicos. As populações locais também são afetadas pelos resíduos químicos com pesticidas que prejudicam a vivência das pessoas que moram naqueles locais”, diz Fernanda.
Segundo a diretora, existe uma grande demanda pelo algodão, mas será que precisamos de tudo isso e, não podemos converter para uma opção mais ética, mais ecológica?
“Falar sobre isso está muito conectado com a moda. Se não tivermos transparência, como saber onde precisamos melhorar, quais são os verdadeiros gargalos da indústria?”, diz Fernanda.
Esse é o principal projeto do Fashion Revolution – apresentar os índices de transparência da moda, avaliando as grandes marcas de varejo do mercado brasileiro.
Para Isabela Veronezzi, CEO de Sustentabilidade da LIVE! é importante apresentar transparência nos processos como acontece na empresa que vem verticalizando sua cadeia para ter o maior controle sobre todas as etapas, gerando menos impacto. “Estar nesse evento também é uma iniciativa para olhar para o consumo e levar essa conscientização ao consumidor final. Os GTs têm esse objetivo de compartilhar, debater”, comenta Isabela.
A profissional ainda conta que a LIVE! economiza até 70% de água, recicla e a devolve mais pura ao meio ambiente e criou ainda um fio com poliamida e elastano reciclados seguindo na economia circular.
Luanna Toniolo, Co-fundadora e CEO da TROC, e-commerce de second hand que faz parte do Grupo Arezzo, esteve presente na conversa sobre “Consumo Sustentável e os ODS 2030″ e falou da importância dos novos brechós para as questões de sustentabilidade, porém há ainda preconceito e, falta uma mudança cultural para esse segmento avançar.
Maíra Pereira, Diretora Pós-Consumo da Ambipar Environment disse que 5% do resíduo urbano é têxtil, com quatro milhões de toneladas de roupas jogadas fora, por isso há a necessidade de engajar as pessoas e educar o consumidor de forma transparente. Para a diretora, um dos elos vitais da cadeia são as cooperativas que precisam desenvolver tecnologias para a reciclagem dos produtos.
“Precisamos juntar todas as forças para que a gente possa estruturar essa cadeia e fazer tudo isso sair do papel, não só pela lógica do lucro, mas pela lógica de uma transformação ecológica, cuja economia tem milhares de novos negócios para surgir. Não estamos falando de não consumir, mas sim de olhar para forma como se consome, criar novos negócios que podemos alavancar a base da pirâmide, famílias, pessoas, mas precisamos olhar para a questão de finanças sociais”, relata Maíra.
Para Ana Domingues, CEO da FleishmanHillard Brasil, os consumidores também podem pressionar as empresas e fazer a diferença.
No bate-papo, “Influenciando consumidores a escolherem produtos sustentáveis”, Thais Farage, Consultora de Consumo Feminino abordou que os produtos sustentáveis precisam ser bons, de qualidade, com informação de moda, atraente e que vistam bem, porque um artigo somente com apelo da sustentabilidade, não irá vender. “É preciso aprender a comprar roupas que possam ser usadas mais vezes e também recicladas”, afirma Thais.
“Que tipo de influência estamos exercendo nessas decisões de compra? São de fato, responsáveis?”, questiona”, Ana Paula Passarelli, Diretora de Operações da Brunch.
E continua: “Pensar em influência e consumo, são dois assuntos transversais em tudo que fazemos, a gente acorda e abre o Instagram e já começa a ser influenciado e quando você vê, já esta com o produto no carrinho de compra e o que está movimentando essa criação de conteúdo, esse comportamento?”
Já Isa Silva, Fundadora da Isaac Silva, disse que em sua marca, ela ensina como usar da melhor maneira possível, com algo positivo.
Fonte: Vanessa de Castro | Foto: Equipe Guia Jeanswear












