O slow fashion no mercado jeanswear

É quase impossível imaginar pequenas produções quando falamos de mercado jeanswear. O segmento que engloba diferentes processos, fornecedores, funcionários e uma demanda sempre acelerada, segue, normalmente para o fast fashion, marcas específicas com uma infinidade de lojas ou franquias pelo país ou ainda para as grifes de luxo, em locais, claro, onde existem diversos nichos e bolsos de consumidores.

Mas e se pensarmos no jeans como um slow fashion, onde as peças possam ser produzidas artesanalmente, com pouca lavanderia e valorizando o autêntico denim?

Esse foi o assunto da live “Slow Fashion & Jeans Lifestyle” apresentada por Ana Henkel, da Tecnidenim, com as presenças de Antônio Ferreira Junior, proprietário da Fertex Selvedge Denim e Gerson Krieger, da Krieger Jeans.

Os empresários se complementam dentro da cadeia – Antônio mantém a tradição do selvedge denim confeccionado através de tear de lançadeira, com tingimento em meada e conceito totalmente artesanal. Para quem não sabe o que o selvedge, é aquela bordinha colorida, como se fossem listras, na lateral do tecido e, que são valorizadas nas barras viradas e, que no início era vendido para os trabalhadores e não carregava beneficiamentos, por isso, até hoje, os modelos mais valorizados não passam por lavanderia.

“É um tecido que tem uma extremidade própria, tingimento com irregularidades, não é uniforme e um conceito único que segue o ‘comprar menos, porém melhor’ ”, afirma Antônio.

O fabricante conta que o valor é sim mais alto do que os outros tecidos do mercado, por uma série de motivos, justamente por ser um processo “hand made” realizado em teares antigos japoneses e com ótima solidez. Além disso, é um produto com a cara do Brasil, mais leve que os tradicionais japoneses, macio (não é engomado) feito com fios retorcidos que criam maior resistência.

Para Antônio, o país produz muito mais tecidos do que o necessário: a capacidade industrial no Brasil é de 60 milhões de metros de denim por mês. E no meio disso tudo entra o sistema de preço mais baixo (exigido pelos consumidores e na disputada acirrada pela concorrência), que é quando a qualidade começar a cair. “Mas acho que isso vem mudando aos poucos. É importante fazer um jeans democrático”, afirma Antônio.

Ana Henkel, Antônio Ferreira Junior e Gerson Krieger

“Voltar às origens, valorizar produtos feitos em casa e a profissão do costureiro, que se perdeu com o tempo”, diz Gerson que mencionou ainda a Denim City SP, um excelente local que vem trazendo os mais jovens para o mercado.

“Enquanto todo mundo da indústria vem brigando contra o tempo, no nosso caso, a gente usa o tempo a nosso favor. O processo de tingimento é mais lento e por isso a cor migra muito menos do que um tecido feito em tecelagem industrial. Nós não utilizamos fixadores para corantes porque nosso índigo é feito por camadas”, comenta Antônio.

A verdadeira sustentabilidade, segundo Gerson, está na mudança de comportamento, tudo atrelado ao modelo cultural em que estamos vivendo, onde muita gente vem buscando o consumo local, peças duráveis e que surgem do slowfashion. E, foi exatamente essa atitude que o empresário tomou durante a crise da Covid-19.

“A pandemia fez a gente refletir, ressignificar, voltar os olhos para o denim original e aí tive a ideia de começar a fazer produtos diferentes”, comenta Gerson Krieger, que aposta no desenvolvimento de mini cadeias valorizando todos os processos e profissionais e, também o produto brasileiro. Para ele, há espaço para todos, os grandes e os pequenos que estão apostando no slowfashion.

O jeans da Krieger é produzido em pequena escala, tem sua identidade única, mais transgressora, com desgastes manuais e artesanais. Os cuidados com os detalhes são vistos nos pespontos, linhas mais grossas, forro do bolso em 100% algodão.

“Não dá para fazer isso em alta escala, tem que ser em baixa escala. Além disso, costumo trabalhar com pessoas que façam a produção em todos os processos e escolho bases premium”. Gerson conta que utiliza as peças do workwear como referência, porém em modelos atemporais, que possam durar. Tudo feito com muito amor e carinho, o que para o empresário, é uma das principais qualidades de sua marca.

Ana Henkel afirma que as pessoas no passado tinham um apego emocional ao jeans e agora, o slow resgata esse conceito que está ligado ao lifestyle.

Fonte: Vanessa de Castro | Foto: Reprodução