O tropeço inspiracional que criou o stonewash e a indústria das lavanderias

Como vimos na semana passada, existe um motivo muito astuto no fator logística do segmento denim, o qual foi definitivo para consagração do índigo como sua cor base até os dias de atuais. E caminhando pelas transformações dos anos 40, 50, e 60, o jeans preservou sua aparência “nua e crua”, levando inalterado nas transformações do seu fit o tom azul profundo e uniforme do seu pigmento original. Mas por trás desta trajetória, o cenário dos bastidores da história do jeans ainda era simples. Além do fechamento da peça com acessórios próprios de sua linguagem, como linhas de maior titulagem, botões de metal e rebites; o jeans ainda não sofria processo algum de lavagem, sendo o capricho final do seu acabamento constituído unicamente pela aplicação de uma simples goma. O processo que envolvia apenas algumas dezenas de funcionários, ao final das contas, acentuava tanto a rigidez do tecido quanto a sensação de desconforto proporcionada pela peça.



É fato: até os anos 60 um jeans só podia envelhecer por meio de causas naturais; e todo e qualquer efeito de desgaste só poderia ser atribuído aos vestígios do acaso e à passagem do tempo. Mas este fato mudou quando o jeans “tropeçou” na inspiração da dupla francesa de estilistas Marithe Bachellerie e François Girbaud. Neste ponto os bastidores da confecção da peça sofreram sua maior e mais grandiosa transformação. O displicente “encontrão”, levou a dupla de criadores a investigar diversas técnicas de desgaste e desbotamento no jeans, com o objetivo de simular as heranças de conforto e “vestibilidade” deixadas após o uso contínuo ao longo de muitos anos. Dessa pesquisa nasceu o Stonewash – a famosa lavagem envolvendo a centrifugação do jeans com água e pedra pomes, cuja aparência viria a se tornar a mais representativa e icônica do segmento.



Com a nova criação, o mercado da moda assistiu a transformação da experiência de vestir uma calça jeans, em uma sensação incomparavelmente mais confortável. O stonewash colocou em evidência o mais novo apelo associado ao jeans, na medida em que removeu uma parte considerável da inconveniente rigidez característica do seu acabamento. Tratava-se então, de um visual que criava um novo mercado, acompanhado de uma solução reprodutível, compatível para aplicação industrial, e inegavelmente qualificada a provocar uma nova e imensa expansão no segmento. A partir deste momento além do visual, o grande apelo de uma calça jeans passou a ser também a experiência do seu uso: mais acolhedor e permissivo para a mobilidade.



De posse de tamanha conveniência para o mercado da moda, a aparência do jeans lavado pelo stonewash transcendeu seu planejamento criativo singular, e assumiu o patamar da influência: condição que o jogou para muito além do status “inspiração direcional”. Entre os looks que transitavam pela moda de rua, o jeans passou a se tornar cada vez mais frequente. Dentre tais aparições, o stonewash passou a representar o visual mais adotado. Quando “pisou” na década de 80, o visual envelhecido do denim lavado alcançou o status de aparência “predominante”. Neste momento, nos bastidores da história do jeans, uma indústria gigantesca emergia: a das lavanderias e acabamentos de jeans. A antiga goma tornou-se um perfume antiquado: a indústria jeanswear segmentou-se entre lavanderia e confecção.



Senhoras e senhores: aqui temos a primeira aparição de uma importante fórmula, cuja aplicação no jeans costuma definir a diferença entre uma tendência passageira e uma macrotendência; ou mesmo ampliação de mercado. No universo denim, toda e qualquer aparência inédita que venha acompanhada por um processo de confecção mais reprodutível, já nasce potencialmente habilitada a gerar crescimento exponencial. Foi o que aconteceu com a proposta da lavagem com pedra. O que o público viu e adotou foi um design novo, acrescido de um adjetivo até então, nunca associado ao jeans: o conforto. Mas foi a capacidade de abastecer o crescimento pela sua demanda, que tornou a adesão em massa desta nova proposta possível.



O stonewash só ganhou a proporção que conhecemos, porque trouxe para a indústria, junto com seu visual, uma sensível redução no tempo e no custo de produção do jeans. A nova logística tornou sua confecção mais ágil, seu ritmo mais veloz e surgiu propondo uma das mais importantes rotas produtivas para a indústria do vestuário, levando de encontro à rápidas mudanças pela sua demanda. Mas também trouxe consequências ambientais até então ignoradas pelo pelo ciclo da moda, pois não incluiu o fator sustentabilidade no seu planejamento, já que não era uma cultura da época. Felizmente, na semana que vem vamos entender como a gigante indústria do jeans global, de lá para cá vem conseguindo reverter esta má fama de indústria poluente, conquistando o título de segmento modelo neste quesito. Até lá.

VIVIAN DAVID | FOTOS: REPRODUÇÃO