Os anos 90 e a renúncia ao visual icônico do jeans

Na semana passada, vimos que de certa forma nos anos 80, a mulher empoderou o jeans com suas curvas, e com isso deixou registrado na modelagem da five-pockets a conquista de uma nova atitude e um novo patamar relacionado ao ítem.



Passada esta década, quando chegou nos anos 90; apesar de continuar estampando as páginas da Vogue, o jeans deixou de ser uma prioridade no guarda-roupa jovem. Para um adolescente em suas faculdades normais, ser flagrado em um exemplar de Levi’s 501, tal qual o look dos pais, definitivamente não causava boa impressão: fato que levou a grife a fechar nada mais nada menos do que 11 fábricas ao longo da década, devido à redução na procura pelo produto.



A juventude em massa passou a exercitar a construção de um estilo pessoal na aparência de outros tecidos. Com isso, adotaram ítens como calças cargo, e roupas de sportswear de marca. Neste cenário desfavorável, a indústria jeanswear mostrou traquejo: adotou a sagaz estratégia de distanciar o jeans do seu próprio aspecto original, como solução para garantir sua presença no cenário da moda. O jeans então deixou de “parecer” a five-pockets da Levi’s. Tomou emprestado para si a leitura de outros tecidos: tornou-se listrado, colorido, estampado; e dissimulava-se das antigas associações através de novos cortes, desenhos, volumes e lavagens. Nas esporádicas aparições em que mantinha seu formato original, posicionava-se como peça vintage, com jeitão de descoberta “relíquia” em mercados ou lojas de segunda mão.



Mesmo em menor escala e popularidade, o jeans nunca saiu definitivamente de cena e manteve-se presente no visual das pessoas e nas transformações da moda em seu sentido mais amplo. Foi nesta década caracterizada pelas linhas mais limpas e minimalistas, que o jeans somou ao seu repertório de estilos o visual carpinteiro e o look denim da cabeça aos pés como um dos mais direcionais, assim como macacões e shorts com suspensórios. Foi também nos anos 90, que os passos criativos do hip hop tornaram-se mais populares, e com eles o jeans inserido na cultura das ruas, desta vez em volumes amplos, nas variações do fit baggy, em composições poluídas e soltas. Desta influência, a década somou ao guarda-roupa histórico de modelagens do segmento uma linha de cortes relacionada ao tamanho excessivo: estilo conhecido como oversized, caracterizado por ganchos longos, entrepernas relaxados, cintura caída – algumas vezes, revelando ousadas confissões do underwear.



A nova leitura veio dotada de novas mensagens: a liberdade de movimento praticada pelo rap, a cultura da ostentação, os diálogos com o skatewear, com o basquete e rap. Mais referências foram criadas para atender às inspirações da moda, como a prática do jeans de segunda mão, tão fortemente relacionada ao estilo pauperista característico do grunge do final da década. Também a lógica de em tempos de “baixa” do visual índigo, distanciar a aparência o jeans do seu aspecto original, através da reformulação da sua própria leitura.



Conforto, movimento, cultura de rua, visual índigo e não índigo. A capacidade de se apresentar à cada estação, tanto reformulando sua própria linguagem, quanto negando seu visual, foram as principais heranças deixadas para o segmento denim na década de 90: um período que tanto soltou a silhueta do jeans em volumes, quanto acompanhou o senso de minimalismo através da modelagem, ao incorporar o enxugamento de suas medidas chegando ao estimado resultado do fit skinny. Habilitado a lidar simultâneamente com estes dois novos direcionamentos, o jeans estava pronto para entrar nos anos 2.000 com todos os diferenciais que o tornariam o segmento mais sólido da indústria do vestuário. Até a próxima semana!

VIVIAN DAVID | FOTOS: REPRODUÇÃO