Os bastidores da escolha do índigo como a cor base do jeans

Todo espetáculo possui dois elencos: o dos palcos, e o dos bastidores. O primeiro, enche os olhos, arranca aplausos, provoca inspiração. O segundo, corresponde aos indispensáveis 99% de toda a transpiração, sem a qual o grande mise en scene simplesmente não aconteceria. Com o jeans não poderia ser diferente: trata-se de uma roupa que carrega história, e como tal, tem dois lados. Um é mais conhecido, narrado a partir das transformações percebidas no seu visual: repleto de episódios marcantes como adesões de grandes ícones, campanhas inesquecíveis e aparições nas passarelas. Mas existe também uma outra versão desta narrativa, que permanece em sigilo assim como o seu lado avesso. É aquela que conta os segredos envolvidos em sua mão de obra, confessa lógicas evolutivas, e ostenta tecnologias que transitam culposamente desde equívocos ambientais do passado até as soluções limpas e orgulhosas que conferiram ao seu presente um modelo para o futuro. E a partir desta semana, este será o ponto de vista explorado em nossas publicações semanais sobre a história do jeans.



E o primeiro tópico desta visão histórica é a sacada industrial que levou a escolha do corante índigo como sua cor base principal. Ao contrário do que se pensa, o primeiro jeans não foi confeccionado em denim, tampouco era azul. Sua coloração era bege terrosa, pois esta era a cor do tecido original de Gênova. O tecido “de nimes”, antecessor do nosso estimado denim, era feito de uma espécie de sarja, e seu fio, tramado a partir de uma estopa de algodão fortemente trançado. A escolha do azul para o seu tingimento não foi obra do acaso: desde a antiguidade até o período colonial, a planta de onde se retirava o corante consistia na única capaz de fixar coloração nas roupas sem o acréscimo de mordante (fixador de cores). O índigo representava um processo de tingimento mais simples, e portanto, durante todo este período histórico, sua colheita foi uma atividade chave para a confecção de vestimentas.



Partindo deste pressuposto, pode-se até especular que neste ponto teve início a construção da associação do índigo ao comum; e portanto, ao mais popular e democrático – e porque não? Já no século XVII, o azul era uma tonalidade mais associada à maioria, enquanto a coloração vermelha era reservada exclusivamente à nobreza, pois seu corante precisava ser retirada de um pequeno inseto chamado cochonilha. O índigo, por sua vez, brotava na abundância das plantações. Heis aqui então, o primeiro grande segredo industrial que envolve o ciclo produtivo do universo denim: a escolha do processo de tingimento mais simples, elaborada a partir de uma matéria-prima disponível em grande quantidade no mercado. Na semana que vem, vamos falar sobre o início dos processos de lavagem no jeans.

VIVIAN DAVID | FOTOS: REPRODUÇÃO