Quais hábitos de compra vão ficar no pós-pandemia?

O debate sobre o que continua a ser tendência no mundo de mercado já está em voga e alguns aspetos de consumo vieram mesmo para ficar.

O relatório da Accenture, que contou com respostas de 9.653 consumidores de 19 países entre fevereiro e março, revela que aqueles que não recorriam ao comércio eletrônico com frequência – correspondendo àqueles que usavam os canais digitais para menos de 25% das suas compras antes da pandemia – aumentaram as compras digitais em 343% desde o início do surto. De acordo com a empresa de consultoria global, as pessoas estão comprando de tudo por meio online, desde moda e decoração até produtos de luxo e alimentação.

Ainda que as alterações variem entre entrevistados, trabalhar num terceiro espaço que não a própria casa ou o local habitual de trabalho, tornou-se na vontade de 79% dos entrevistados. De igual forma, as experiências de compra online parecem ser um caminho sem volta e o futuro indica que é difícil presenciar um retrocesso para os níveis anteriores a março de 2020.

No início da pandemia, os setores de vestuário e calçado foram muito afetados, uma vez que muitos consumidores tiveram de se adaptar à transição para a compra desse tipo de artigos online. No entanto, as compras de e-commerce dos utilizadores antes considerados de “baixa frequência” cresceram 375% nessas categorias, incluindo os acessórios.

Após o aumento no vestuário, calçado e acessórios, se seguiu um crescimento de 360% nas compras dos utilizadores não assíduos de marketplaces no consumo de produtos eletrônicos. Os artigos de higiene pessoal e maquiagem registaram um incremento de 350%, enquanto as compras de artigos de luxo e decoração para a casa subiram 319% e 315%, respectivamente.

“As principais varejistas se adaptaram rapidamente ao crescimento do comércio eletrônico e estão a usar a tecnologia para chegar aos clientes de novas formas. Muitos aplicaram tecnologias disruptivas, como a realidade aumentada, para recriar a experiência da loja física e ajudar os compradores a visualizar melhor uma peça de mobiliário ou de roupa, enquanto outros transformaram lojas fechadas em centros de distribuição locais com tecnologia de embalagem e recolhe”, afirma Jill Standish, diretora sênior e chefe do grupo do setor de varejo global da Accenture, ao Sourcing Journal.

“Mesmo no mundo pós-pandemia, as empresas vão precisar de satisfazer o apetite dos consumidores por compras online com entrega rápida e serem mais ponderadas nos investimentos que fizerem em pessoal, cadeias de aprovisionamento, lojas físicas e canais digitais para estarem bem posicionadas para alavancar o crescimento”, completou.

Tendência em crescimento

De um modo geral, a adoção do e-commerce aumentou nos compradores de baixa frequência ao longo do ano, duplicando desde os primeiros meses da pandemia. Em junho, aquando da primeira análise de consumo no âmbito da “Covid-19 Consumer Research”, a Accenture descobriu que as compras online dos utilizadores não habituais tinha crescido 170%, uma subida bastante inferior comparativamente ao aumento recente de 343% registada em março.

Os resultados do mês passado também mostraram que o varejo, conjuntamente com a hotelaria e restauração, tem uma oportunidade de aumentar as receitas se os consumidores levarem a sério a possibilidade de trabalharem num terceiro espaço, tendo em conta que mais de metade dos inquiridos do estudo está disposta a pagar do próprio bolso até 100 dólares (cerca de R$ 539) para exercer funções a partir de um café, bar, hotel ou varejista com um espaço destinado a esta finalidade.

Isto vai ao encontro de um dos principais conselhos de Jill Standish para as retalhistas no ano passado, quando a Accenture divulgou a pesquisa de junho, na qual a diretora sénior da Accenture. Referiu que elas precisavam aumentar as suas capacidades analíticas para perceber o impacto da pandemia nos negócios locais. Além disso, acrescentou, ‘as retalhistas devem avaliar cuidadosamente os ativos físicos, ou seja, quais são as lojas que devem manter abertas e que inventário deve ser colocado estoque, tendo atenção, por exemplo, se e quando é que as escolas reabrem. As varejistas também podem experimentar espaços temporários, como pop-ups em comunidades locais”.

Futuro tecnológico

O desejo de trabalhar a partir de um terceiro espaço vem acompanhado de uma mudança de atitude perante as viagens de negócio, uma vez que 46% dos inquiridos não têm planos para viajar por motivos laborais no pós-pandemia. Os entrevistados incluídos nesta percentagem pretendem ainda diminuir as viagens de negócio para metade.

“A pandemia forçou o pragmatismo criativo, especialmente para as empresas de viagens e hotelaria, lutando por encontrar fontes de receita suplementares durante a crise”, garante Emily Weiss, diretora e chefe do grupo do setor de viagens global da Accenture.

“Alguns hotéis transformaram os quartos em restaurantes pop-up, enquanto outros experimentaram oferecer escritórios temporários para clientes que procuravam um terceiro espaço para trabalhar. Embora tenha havido experiências inovadoras, as empresas precisam de dar dimensão a esses novos serviços e abordar o foco renovado dos viajantes na saúde e segurança, por exemplo, usando a cloud para ajudar a permitir interações totalmente sem contato”, elucida.

Embora o relatório mais recente da Accenture não tenha entrado em detalhes no que diz respeito aos serviços de varejo capacitados digitalmente e que ganharam força durante a pandemia, os dados indicaram que os consumidores esperam que a tecnologia continue no centro das atenções.

“Os efeitos em dominó da pandemia serão sentidos por algum tempo e vão servir como uma ilustração poderosa da necessidade das empresas voltadas para o consumidor serem ágeis, resilientes e responsivas às mudanças. Do desastre e da necessidade vem a oportunidade; a pandemia gerou uma nova onda de inovação“, salienta Oliver Wright, diretor sênior e chefe do grupo da indústria de bens de consumo global da Accenture.

Fonte: Redação | Foto: Reprodução