Qual o denim do futuro?

O mundo vem passando por transformações numa velocidade impressionante. E com isso, claro, o comportamento do consumidor também mudou. Dentro desse contexto como podemos inserir o denim do futuro para esse cliente cada vez mais antenado e exigente?

Este foi o principal debate na roda de entrevistas com a jornalista Lilian Pacce, que aconteceu durante o primeiro dia de abertura da Denim City SP. A conversa contou com a participação de João Bordignon, diretor de marketing da Capricórnio, Kassen Hamade, diretor comercial da Consciência Jeans, Newton Coelho, diretor de negócios da Santista, Michel David, diretor presidente da Jolitex Denim, Zuninho, diretor do grupo Zune Brands e Renato Kherlakian, embaixador da Denim City SP.

Iniciando a conversa, João Bordignon apontou dois lados: do consumidor, com as diferentes possibilidades que o e-commerce trouxe como a personalização e infinitas opções para escolher, e do varejo, com os desafios de montar uma coleção, entregas para atender essa aceleração, experiências no digital com novos aplicativos como o Tik Tok. Além disso, não podemos esquecer o consumo mais consciente que também se intensificou durante a pandemia enaltecendo o upcycling e economia circular.

“Sustentabilidade é o trabalho de uma vida, mas a gente precisa começar, ter uma estratégia clara, metas definidas e comunicar. Hoje a grande mudança dentro do nosso setor, do ponto de vista da sustentabilidade, dessa pressão que a gente sofre cada vez mais do consumidor, é deixar clara a comunicação, o que estamos fazendo, como e em que tempo”, explica João Bordignon.

Lilian questionou se existe espaço para uma mudança realmente significativa na estrutura de uma calça jeans, inventada há 150 anos. Kassen Hamade afirmou que acha complicado mudar o que foi implantando lá atrás, porém, ressaltou a importância da tecnologia incluindo fios inovadores e modelagens. “Devemos investir mais em tecnologias e não esquecer a parte da sustentabilidade”, ressaltou.

E por falar em mudanças, há novidades pipocando no mercado com novas matérias-primas, corantes sem anilina, tecnologias a laser. Será que essas inovações serão as protagonistas do denim do futuro ou apenas coadjuvantes?

Segundo Michel David, as matérias-primas têm se reinventado com tecnologias diferentes, como os fios de lyocell, modal e elastano. Porém, ele acredita que no mundo denim, o algodão é o item principal e pode vir permeado com os novos fios. Além disso, ele concorda que as indústrias devem investir na sustentabilidade, reduzindo o consumo de água, corantes, emissões de CO2.

“Sou um apaixonado por tecido, tudo o que é novo, me encanta. As matérias-primas têm se reinventado, mas são bacanas como satélites. Eu ainda acredito que no mundo do denim, a gente tem um rei absoluto que é o algodão e, ele precisa ser enriquecido com essas matérias-primas satélites que vão deixar a moda mais divertida e moderna”, disse Michel.

Quanto à Indústria 4.0 e os seus benefícios dentro da cadeia do denim, Newton Coelho afirma que já é uma realidade para várias empresas onde surgem, por exemplo, teares inteligentes, com economia de energia e produtos de melhor qualidade.

“Quanto mais gente olhar a cadeia em si, cada vez mais teremos aplicativos integrados com a visão do consumidor. Olhando lá na frente, eu posso escolher a estampa da minha camiseta, o design do meu jeans, como quero a lavagem. A gente consegue customizar lá na ponta […] unir processos integrados com mais comunicação eletrônica e com a participação humana, desde a concepção de uma peça, que pode ser feita à distância, encurtando o tempo de desenvolvimento de um tecido, uma peça da confecção até fazer o que o meu consumidor deseja. Hoje a cadeia está muito mais curta, está tudo muito próximo”, comentou Newton.

Sobre tamanhos únicos ou a mudança na oferta de numeração em função dos tecidos com alto power, Zuninho acredita que quando falamos de um produto com elasticidade, devemos analisar dois aspectos: estético e funcional, sem esquecer que o nosso país valoriza muito a sensualidade e o corpo bem marcado.

“Quando falamos em funcionalidade, temos que lembrar da época em que o jeans era 100% algodão e não era propriamente, um produto confortável, onde os tecidos eram mais pesados. E o elastano quebrou esse paradigma”, afirmou Zuninho. “Em relação aos tamanhos únicos, na minha opinião é uma tendência de nicho e não terá uma escala enorme”, completou.

Zuninho destacou ainda que, além do elastano, existem outros fios e fibras novas como variações de viscose ou ecologicamente corretos que utilizam fibras nobres e oferecem muito conforto e toque suave.

E frente a todas essas mudanças o que será fundamental para o lojista e para o consumidor? Renato Kherlakian acredita que aconteceram alterações importantes com relação ao elastano no denim, onde atualmente, tanto o homem quanto a mulher já se adaptaram à elasticidade, praticidade e conforto dessa matéria-prima.

Para o futuro, independente de ser uma multimarca, loja de departamentos, site, é preciso que aconteça uma adaptação às novas tecnologias para a criação do jeans ideal para cada pessoa, onde seria possível até, o cliente escanear seu corpo e encomendar o seu tamanho adequado.

“Essa transparência das medidas, das proporções do jeans tem que ser bastante claros para fazer sua compra e não ter que trocar depois […] Por isso é necessária a formação de mais profissionais voltados ao produto índigo que estejam concentrados nessas evoluções para que sejam criadas novas técnicas”, afirmou Renato.

E continua: “Nesses últimos anos foram poucos os nomes que surgiram no mercado de estilistas ou de criação que pudessem ter o seu renome confirmado nos dias atuais. A criação se tornou uma semelhança muito grande. Nós vamos ter que fazer uma fusão grande desses conhecimentos (parte criativa, tecnologia têxtil e matéria-prima), dessas capacidades, para que a criação possa ajudar muito a tecnologia e a adequação das matérias-primas para que possam ser desenvolvidas no futuro”.

Para Lilian Pacce, cada vez mais o ato de consumir vai ser um ato de cidadania, como se fosse um investimento. “Essa consciência está sendo despertada”, afirma.

A jornalista questionou os convidados sobre o jeans dos sonhos: “Se a gente pudesse sonhar independente de limitações econômicas, tecnológicas, idealizando a calça jeans dos sonhos. Como ela seria?”.

De acordo com João Bordignon, o conceito wearable no jeans seria incrível, onde a roupa vem atrelada aos benefícios de saúde. Kassen Hamade destaca o conforto cada vez mais valorizado dentro do segmento. Já Michel mescla o conforto ao estilo de cada pessoa, em um denim que também transmita nossa personalidade.

Newton Coelho acredita na integração da cadeia, desde o algodão, passando pela tecelagem até as confecções, varejo e o consumidor. Ele acrescentou também a elaboração de um produto personalizado, individualizado, feito sob medida e, que ainda traga algumas funções como a peça inteligente que possa medir a glicemia, por exemplo.

“Quanto mais a gente conseguir ouvir e entender esse consumidor moderno nesse desenvolvimento, mais sucesso as empresas terão, mais sucesso o jeans brasileiro terá criando um denim do futuro para as pessoas do futuro”, detalhou Newton.

Zuninho acredita no jeans 100% reciclável, onde a peça não é jogada no lixo, mas sim transformada, reutilizada de uma forma contínua, um produto que consiga ser construído no menor impacto possível.

Segundo Renato Kherlakian, as calças poderiam ser retrabalhadas, redesenhadas e reprogramadas não no sentido de customização, mas de se trabalhar outras formas que possam ser facilmente adaptadas ao consumidor. “Acredito muito nessa ideia de não só criar uma peça do zero, mas principalmente, reutilizar peças usadas que possam ser compostas numa nova ideia e proposta de direção e estilo para o denim”, afirmou.

E, continua: “Agora, o jeans dos sonhos continua sendo aquele que veste bem, tem um bom desbote, e que cause uma boa impressão de silhueta do corpo. Esse é um sonho que não acaba, tem que continuar. Ele tem que ser feito com qualidade. Acredito que o índigo nacional tenha muita condição de ser feito e construído com maquinários de ponta, para que a resistência, durabilidade, tempo de vida útil de um jeans, seja qual for a matéria-prima, seja um parceiro do consumidor”.

Denim City SP

Por fim, Renato Kherlakian, comentou sobre a importância da Denim City SP para o mercado do denim nacional. “Tenho orgulho de ter participado dessas últimas décadas do denim nacional. O ‘jeans Brasil’ se tornou uma realidade nesses últimos anos e, provavelmente através da abertura da Denim City SP, nós teremos uma trajetória brilhante, extremamente azulada para o futuro, onde podem se tornar realidade, todas essas questões como a medição da febre, através do jeans”, afirmou.

E“É uma missão importante também para o varejo se adaptar a todas essas questões básicas do futuro. Uma delas é o grande incentivo para que as escolas trabalhem mais focadas na matéria-prima denim, para que aja uma possibilidade maior dessa comunicação entre tecelagem, confecções, lojistas e consumidores. Esse marketing deverá ser muito mais ampliado e muito mais reconhecido pelas pessoas porque é o consumidor que vai ditar, de uma certa forma, no futuro, as novas regras de consumo, de sustentabilidade, não deixando de lado, a parte sensual e a vestibilidade da matéria-prima”, finalizou.

Confira a roda de conversas na Denim City SP na íntegra:

Fonte: Vanessa de Castro | Foto: Reprodução