Quando o visual do jeans assumiu sua culpa ambiental

Stonewash: uma criação que gerou inspiração, que gerou um visual novo, que levou o conforto diretamente para o topo da lista de adjetivos atribuídos ao jeans. Junto com essa nova qualidade, novos e poluentes ingredientes passaram a ser requisitados para dar continuidade à história do jeans. E foi desta maneira, que o processo simplificado da aplicação de goma que antes demandava apenas algumas dezenas de funcionários, multiplicou a mão-de-obra da indústria denim para a casa das centenas, e tornou-se uma ciência bem mais complexa.



Com as exigências de insumos necessários para o desenvolvimento do jeans tomando nova dimensão, a fabricação de cada exemplar da peça passou a exigir de forma displicente, nada mais nada menos do que 1.500 galões de água. Além disso, passou a implicar no despejo de silica e permanganato de potássio no meio ambiente, em consequência dos constantes processos de desbotamento exigidos pela nova forma de dar acabamento. Na mão de obra relacionada ao ítem, foram adotadas técnicas insalubres, como jatos de areia. A nova realidade, deixou um rastro irreparável de produtos químicos para cada calça adquirida; e os exemplares de “five-pockets”, bem mais numerosos e corriqueiros no guarda-roupa global.



Nas décadas de 80 e 90, ao mesmo tempo em que a produção e o consumo da calça jeans galopava; as preocupações relativas à sustentabilidade passaram a sair do anonimato. Aquecimento global e escassez de água tornavam-se tópicos insistentes em telejornais e previsões catastróficas. Os dados correspondentes ao “lado B” da indústria denim, onde estavam os “meios para os quais se obtinham os fins”, pouco a pouco passaram a “vazar” do seu sigilo estratégico levando constrangimentos à consciência do consumidor. Este, por sua vez, passou a se inteirar sobre a falta de etiqueta ambiental praticada pelo ítem de moda, do qual ele mesmo era o principal conivente.



Depois disso, declaradamente, comprar um bem de consumo passou a significar também comprar a culpa pela sua produção. No caso do jeans, comprar uma única calça, no estilo icônico da Levis; passou a implicar também em vestir a responsabilidade pelo gasto de 920 galões de água, 400.000 kilowatts de energia, e 32 kilogramas de dióxido de carbono expelidos no ar. De acordo com a própria marca em dados que só vieram à tona no ano de 2006, seria o equivalente a manter uma mangueira de jardim giratória funcionando por 106 minutos, dirigir por 125.502 km e manter ligado um computador por 556 horas. Também o plantio do algodão exigido para confecção do denim, impondo uso excessivo de águas subterrâneas e pesticidas, passou a ser visto com grandes culpas e responsabilidades, incluindo o aumento do nível do mar em cerca de três mm por ano. Definitivamente, o consumidor informado, não se sentia nenhum pouco confortável em ostentar um jeans lavado, perante tais revelações.



Não é a toa que justamente a década de 90, apresentou uma queda pela demanda do jeans e das peças confeccionadas em denim. Para constar em editoriais, o artigo definitivamente deveria parecer de segunda mão, ou mesmo dissimular seu visual com tingimentos coloridos lembrando outros tecidos. Era a tendência, mas por tendência leia-se uma trajetória desenhada não apenas por gostos e preferências, mas também por implicações industriais. Nesse caso, a associação das discussões ambientais com o impacto gerado pelo seu processo de fabricação, sem dúvida reforçou a estratégia de distanciá-lo da sua leitura poluente, dissimulando sua aparência original, como forma de afastar-se das discussões sobre sustentabilidade.



Todavia, com a consumação da complexa etapa do beneficiamento na indústria do jeans, um terceiro mercado era criado: o das companhias responsáveis pelo desenvolvimento e aprimoramento das máquinas, ingredientes químicos, e métodos envolvidos no acabamento da peça. E foi justamente neste parque industrial, que o jeans começou a encontrar soluções para aliviar a sua culpa, e vislumbrar novas práticas. Não perca na semana que vem, os ingredientes que libertaram as alquimias do jeans da sua má fama, e as tecnologias que reduziram sensivelmente o consumo de água na etapa do acabamento.

VIVIAN DAVID | FOTOS: REPRODUÇÃO