Quando os anos 60 cantaram iê iê iê no Brasil

Rebeldia, desobediência e renúncia à valores antigos: território perfeito para a criação de novas ideologias. a mesma geração que vestiu o jeans tornando-se influência e que como vimos na semana passada, modificou o ciclo da moda, com o tempo saiu dos bares e ganhou as ruas com discursos de pacifismo e liberdade, preparando as transformações para a nova estética hippie que estava prestes à emergir.



Enquanto isso, por volta de 1957 no Brasil surgia a segunda tentativa de jogar no mercado uma versão nacional para o jeans americano, pela Alpargatas do Brasil – isso mesmo, a atual detentora das influentes marcas Havaianas, Topper e Rainha; entre outras grifes. O produto se chamava “Calças Rodeio”, e já nascia anunciando seu grande diferencial: a única confeccionada com o brim coringa, que dura a vida toda, e não encolhe. Com cowboys impressionando o imaginário das crianças e adolescentes nas telas nacionais, o similar tupiniquim do jeans “gringo” definitivamente se consagrou. No entanto, enquanto no mundo o jeans caminhava desbotando seu tom azul, em solo tupiniquim o tecido da peça ainda era rígido, desconfortável e a calça não desbotava.



Ao chegar nos anos 60, em todo o mundo o jeans vestia rapazes e moças que rejeitavam valores relacionados à guerra, ao consumismo, e desenhavam um novo lifestyle: colorido, livre e relacionado à simplicidade. O novo discurso adotado pelo jeans, desta vez valia-se da prática da personalização atuando como uma espécie de idioma: patches, bordados, rasgos e detalhes frayed (desfiado em franjas) formando juntos, um estilo capaz de comunicar através da moda valores como liberdade, desapego e desprendimento no amor.



Ponto para a linguagem do segmento, que relacionou a peça novamente a um marco histórico, e deixou registrado em uma importante herança de visual a experiência de liberdade de toda uma geração. Cores luminosas, lavagem com pedra, strass e patches eram algumas tendências da década de 60. Os cortes populares incluíam a boca de sino, cintura nos quadris, e por influência de Mary Quant, a popularização das minissaias, as quais pouco tempo depois ganhariam a sua versão blue denim, nos anos 70. A idéia do “faça você mesmo” levou para as ruas todo um arsenal de artifícios criados pelo próprio usuário de jeans, e das ruas o segmento registrou muito bem tal estilo, hoje absolutamente reprodutível, e constantemente revisitado quando o espírito do nosso tempo pede por mais liberdade.



Mas enquanto no cenário internacional o jeans transitava em visual esfarrapado discursando sobre paz e amor, cantava iê iê iê no Brasil. Nessa época a própria Alpargatas lançaria sua versão definitiva para o jeans americano, ensaiado anteriormente pelo já mencionado modelo Rodeio, atendendo às exigências dos jovens que haviam crescido e se tornado mais “criteriosos”. Surgia então o modelo Far-West, que apresentava-se para o mercado apelando para o irresistível discurso do senso de juventude, fundamentando seu conceito em slogans com “todo mundo é gente moça, quando veste jeans far-west”, devidamente ilustrados por campanhas reunindo jovens, adultos e crianças na mais perfeita alegria e comunhão.



Com a influência da Jovem Guarda, a grife adotou excelentes estratégias “marqueteiras”, como as calças com etiquetas “Calhambeque” e “Tremendão” lançadas em consonância com a tietagem pelos ícones musicais Roberto e Erasmo Carlos. Com a iniciativa, a marca fundada no Brás, não só propagava a associação do jeans ao rock em território brasileiro; como também o fazia acrescentado um toque genuíno nacional. Nascia aqui o jeito brasileirinho de associar o jeans ao senso de rebeldia: mais alegre, espontâneo, e bem humorado.


VIVIAN DAVID | IMAGENS: REPRODUÇÃO