Relação “Comunicação x Consumo Consciente” é tema de roda de conversa

Em 2013, o mundo concentrou a atenção em Dhaka, Bangladesh, quando no dia 24 de abril, o edifício Rana Plaza – um prédio de três andares onde funcionava uma fábrica de tecidos – desabou, deixando 1.133 mortos e 2.500 feridos. A tragédia levantou a questão sobre o verdadeiro custo da moda, as condições de trabalho nesse meio e o seu impacto em todas as fases do processo de produção e consumo. Tais questionamentos deram origem ao “Fashion Revolution Day”, movimento criado por um conselho global de líderes da indústria da moda sustentável, que se uniu em prol da conscientização e para mostrar ao mundo que a mudança é possível.

O movimento cresceu e se transformou na “Fashion Revolution Week”, que nesse ano aconteceu entre os dias 24 e 29 de abril. Em São Paulo, o evento foi realizado no espaço Unibes Cultural, com palestras, brechó colaborativo e debates concentrados no dia 28.
A expressão #whomademyclothes? segue servindo como ponto de reflexão. A intenção é mudar a forma como os consumidores pensam, trocando o “De onde é a sua roupa?” pelo “Quem fez a sua roupa?”, abrindo então o debate para a origem de todas as peças que utilizamos cotidianamente apenas pelo status e para “estar na moda”.

Entre tantos aspectos abordados durante o dia, a relação entre “Comunicação e Consumo Consciente” teve destaque na programação, reunindo Rafael Morais; idealizador da Brasil Eco Fashion Week, Lilian Pacce; jornalista e consultora de moda; Gladys Maria Tchoport e Claudia Kievel, curadoras da Jardim Secreto Fair, em uma roda de conversa, mediada por Ana Carolina Fonseca de Olyveira, do Fashion Revolution.

Durante o bate papo, a coincidência do São Paulo Fashion Week ter acontecido na mesma semana que o Fashion Revolution não passou em branco, no entanto, a jornalista Lilian Pacce lembrou de marcas que levaram o consumo consciente para a passarela da semana de moda, tais como Osklen, que fez um desfile 98% sustentável com a coleção ASAP (As Sustainable As Possible), consagrando a bandeira que a marca levanta, já que o significado de seu nome é “guardião das florestas”. Fabiana Milazzo utilizou sobras de caríssimas rendas, coletadas durante três anos, para desenvolver uma coleção feita de retalhos. Já Ronaldo Fraga foi atrás de bordadeiras de Mariana e pediu para que as mesmas bordassem jardins que existiam na região antes da tragédia que aconteceu em 2015. O seu desfile, intitulado “As Mudas”, foi feito por mulheres que ele capacitou e representa o renascimento da cidade.

“Vai demorar muito para o mercado aderir. Esse é um processo longo. É uma questão que sempre tem que ser debatida na moda e é uma pena que os dois eventos tenham acontecido na mesma semana”, diz a jornalista.

Gladys Maria, do Jardim Secreto, conta que o projeto é uma forma de incentivar o pequeno produtor, mas que sente que falta uma ênfase da mídia, opinião que é reafirmada por Claudia Kievel, sua sócia. “Porque não falar sobre consumo consciente no São Paulo Fashion Week? É um assunto que está em pauta e o momento de abordar isso é agora. Somos humanos criados em uma sociedade consumista, principalmente para a mulher, e esse é um movimento de transformação”.

Já Rafael Morais pondera. “Talvez o papel de todos nós seja entender a diferença do próprio público. Por qual motivo estamos aqui? Para disseminar a informação e ter um entendimento mais profundo. As coisas estão mudando, e estão mudando rápido. E é um desafio, pois são públicos diferentes, e temos que chegar no público para gerar uma mudança de comportamento”, diz.

Quando questionados sobre as atitudes que podem auxiliar na conscientização e propagação da ideologia do consumo consciente, as opções são variadas: brechós, bazar, outlet e feira de troca já se tornaram um mercado que gera impacto. Além disso, reciclagem e customização de peças antigas, armário capsula e valorização de pequenos produtores e marcas independentes são algumas das alternativas mais conhecidas. No entanto, Lilian Pacce falou um pouco sobre a sua campanha #1lookporumasemana, um desafio lançado por ela própria em julho de 2017. “O desafio começou depois que eu vi um estudo que dizia que a geração z não queria mais repetir roupa, por já ter postado nas redes sociais, principalmente no instagram, onde popularizou a #lookdodia”.

Pacce explica que a ideia é criar a reflexão de que não precisamos de tantas roupas quanto imaginamos, além de conscientizar sobre o desperdício de água e energia e exercitar a criação de estilos, por meio da variação de acessórios e jeitos de usar. “Roupa pra mim tem memória afetiva. Fiquei chocada quando soube dessa informação. Esse desafio é um exercício de estilo, com mais de duas mil impressões da rashtag. É uma pequena contribuição para inspirar as pessoas a mudarem de atitude. A mudança é recente, e cada um fazendo o seu, a coisa acontece. Brasileiro sempre achou que a água era inesgotável, e a gente já começou a perceber que não é assim. Com o #1lookporumasemana, a gente economiza água, energia, roupa…”, conclui.
Uma coisa é certa: a mudança vai começar a surgir quando os consumidores criarem a consciência. “Estou vendo várias esferas. Pequenas e grandes marcas, o cenário é bem positivo”, diz Rafael Morais. “E o consumidor tem força. Quando você começa a cobrar transparência e que a marca seja correta, acaba impulsionando esse tipo de atitude. Esse é o momento para usar a rede social para mudar o mercado, que já entendeu que isso tudo é também uma questão de economia”, completa Lilian.

Aprofundar o assunto e torna-lo pauta constante na agenda da cobertura de moda é uma forma de mostrar que o assunto não é uma moda passageira. “Não é uma onda, é uma tsunami, e a tendência é aprofundar”, diz Pacce.

“A gente tá falando do nosso planeta, então a solução é mudar o nosso comportamento. Tudo bem repetir roupa. Tudo bem uma peça que vale por oito”, lembra Carol.

Mas a mudança tem que ir além. Para Claudia, não basta que seja apenas ela seja motivada por fatores econômicos. “Tem que partir da consciência ambiental também”.

Uma coisa é certa: o cenário aos poucos está mudando e a tsunami da sustentabilidade ganha cada vez mais força. É hora de aprender a nadar para acompanhar esse processo e mudar de dentro pra fora. Estamos todos juntos nessa.

Fonte: Kessy Christine | Fotos: Equipe Guia JeansWear