Tendências para retomada do comércio são foco em webinar da Santista

A Santista Jeanswear promoveu, na última semana, seu primeiro webinar com o tema “E agora, o que a gente faz?”. A transmissão reuniu sua gerente de comunicação e moda, Sueli Pereira, o diretor IEME – Inteligência de Mercado, Marcelo Prado, e o diretor de negócios da tecelagem, Newton Coelho.

O bate-papo abordou o mercado brasileiro e os impactos da Covid-19 no consumo, com as perspectivas e ações na retomada do comércio pós-quarentena. Em uma época de incertezas, urgência, impaciência e a busca por respostas e conclusões imediatas, a Santista preferiu entender o cenário e os desejos de clientes, parceiros e colaboradores antes de realizar esse primeiro encontro. E a principal pergunta recebida foi essa: O que fazemos?

Antes de tentar concluir qualquer resposta, Marcelo Prado trouxe uma pesquisa sobre o cenário atual com dados comparativos em relação ao ano passado e projeções para o futuro. No mercado nacional, o consumo de varejo local de roupas em geral movimentou R$ 231,3 bilhões em 2019, com 6,3 bilhões de peças e um consumo per capita de R$ 1.100 por ano.

O varejo físico corresponde a 98,3% do mercado com taxa de crescimento de 2,5%, em 148 mil pontos de vendas, enquanto o e-commerce abrange 1,7%, com taxa de crescimento de 33%. Em 2020, esse número, pelo menos, deve dobrar. Já a maior parte do poder de compra vem das classes A e B, com 51%.

Denim

Dentro do segmento jeanswear, foram movimentados R$ 25,3 bilhões no ano passado, o que corresponde a 11% do consumo no varejo, com um crescimento anual de 4,3%. O gasto por pessoa é de R$ 121 ao ano e o valor médio por peça girou em torno de R$ 78. O segmento mantém 5,6 mil unidades produtivas com 301 mil empregos diretos, 341 milhões de peças produzidas entre o denim, colors e malhas, sendo que 0,2% foram destinados à exportação e de 2 a 3% importação.

Entre 2014 e 2019, a produção de jeans sofreu queda de 6% em peças e alta de 31% em valores nominais. Pernambuco é o maior polo produtor do Brasil atualmente, com 17% do total de peças confeccionadas em jeans. Dentre o mix de produtos confeccionados no último ano, a calça fica em primeiro lugar com 56% da produção jeanswear, seguida da bermuda, shorts, saia, jaqueta, camisa e vestido.

E como o consumo de moda foi afetado durante a pandemia? A pesquisa mostra que a maioria realizou compras em janeiro (49%) e fevereiro (32%), com uma diminuição bastante significativa em março (14% antes de fecharem as lojas e 4% após o fechamento). 67% das pessoas não pretende comprar nada durante a crise, 14% disseram que gostariam de comprar roupas e 13% calçados e roupas.

Apenas 51% dos consumidores receberam ofertas pela internet, seja por email, SMS ou aplicativos como WhatsApp e Instagram. Entre os canais de relacionamento para realizar as compras, 58% estão usando os sites das lojas, 38% utilizam o WhatsApp e 37% o Instagram.

Vale destacar que 76% dos entrevistados disseram que pretendem realizar as compras pela internet, enquanto 16% preferem aguardar as lojas físicas reabrirem. Muitas pessoas se mostraram interessadas nas compras online, mas as marcas precisam se mostrar ativas, em um relacionamento direto com os clientes.

As principais motivações de compras nesse período são os descontos relevantes nos valores para 37% dos entrevistados, além do frete grátis (26%), prazo de entrega curto (13%), cupons especiais de descontos (12%) e algum desconto especial como o pagamento a vista (10%). Porém, 57% não se sentem motivados a realizar compras.

Outro ponto interessante a ser destacado é que 40% das pessoas disseram que vão continuar comprando da mesma forma, 29% pretendem comprar de forma mais comedida, 19% irão utilizar a internet e outros 11% estão aproveitando a crise para comprar tudo o que estão precisando. Para 2020, o cenário provável é de queda de 21,1% no volume de peças de vestuário.

Projeções para 2020

Segundo Marcelo Prado, a produção de vestuário caiu mais de 90% em abril e as vendas tiveram um déficit de 70%. “A pandemia se estendeu mais do que deveria, principalmente nas grandes metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo. Portanto, a recuperação vai ser lenta e gradual”, disse.

Paralelamente, o digital vem permeando o varejo há mais de dez anos e muitas marcas vinham resistindo à ele. Neste momento, não dá mais para adiar, unindo a loja física ao e-commerce para potencializar as vendas. “Mais do que nunca a tendência são as marcas venderem mais e melhor fazendo uso intensivo e coordenado da internet com as suas lojas físicas e redes sociais”, completou Marcelo.

O calendário também foi readequado com essa crise, onde pela primeira vez o Inverno será vendido durante a própria estação. Outro fator importante é criar promoções criativas, pois preço todos vão ofertar, mas sim, pensar um modo de buscar diferenciação em campanhas com propósito, responsabilidade social, além da oferta qualificada e diversificada de produtos.

É essencial garantir os padrões de segurança para os consumidores. “Shoppings, lojas de rua vão abrir com muitas regras e cuidados. Os consumidores vão estar mais exigentes com as marcas em relação às práticas de higienização, por isso além do produto é preciso oferecer segurança”, comentou Marcelo.

O que realmente fica como ensinamento é saber utilizar os multicanais de vendas que foram descobertos durante a pandemia. Não haverá espaço mais para o “balconista passivo”, é preciso criar estratégias conjuntas entre fabricantes e gestores para garantir melhores resultados.

“A nossa grande obrigação como gestores é garantir que o consumidor nos encontre quando ele quiser, pelo canal que ele escolher”, afirma Marcelo Prado, que acredita que alguns hábitos ficarão desse período, mas a vida normal vai voltar aos poucos.

A empresa durante a crise

Segundo Newton Coelho, a Santista Jeanswear se preocupou com seus funcionários logo no início e seguiu todas as normas vigentes com afastamento do grupo de risco, suspensão de contratos, redução de jornada, trabalho home office, férias coletivas, entre outras ações. Agora, está seguindo uma série de medidas para a volta.

A empresa vem realizando uma revisão diária de seus negócios para decidir o que pode ser melhorado. “Mudamos também a comunicação interna e externa, entendendo, auxiliando e compartilhando os aprendizados. Todos estamos em uma fase de empatia e respeito dentro do mercado”, apontou Newton.

Para o diretor, ficarão vários aprendizados dessa crise, como o digital, integrando ferramentas, o home office que vem funcionando bem e a nova comunicação com o consumidor. Segundo ele, nada substitui o toque no tecido, mas estamos evoluindo em outras frentes, valorizando o que é mais interessante.

E, falando em produto, o diretor destacou a mudança no comportamento do consumidor com a valorização do conforto durante a quarentena onde entra o jeans com elastano, com toque mais suave ou mais leve, além de tecnologias com antibactericidas. É importante ainda readequar valores e portfólio nesse momento, para obter produtos de qualidade com preços adequados.

A valorização do produto nacional também foi destacada pelos profissionais, onde entra a união da cadeia com esse propósito, incluindo também a sustentabilidade como item essencial. “O Movimento #FeitoNoBrasil foi criado em 2014, mas não deu uma guinada. E agora veio à tona novamente”, comentou Sueli Pereira. As importações devem cair nos próximos 12 meses e isso deve trazer uma força na retomada.

E o que fazer na retomada?

De acordo com Marcelo Prado, o mercado de moda já está sendo restabelecido em algumas regiões do país e, em torno de 45 dias, 70 a 80% do comércio já estará aberto, ainda com restrições. O diretor sugere focar em locais que estão retomando suas atividades ofertando seus produtos de diferentes maneiras.

É interessante pensar também nos consumidores e refletir se todos serão afetados pela pandemia da mesma forma. “O que vemos é que o público A-, B e C+ são os que estão saindo melhor da crise devido a demanda reprimida, além de fatores como o frio, filhos que perdem roupas rapidamente”, disse Marcelo, que acredita que acontecerá um consumo efetivo em julho. Contudo, as pessoas de menor renda vão demorar mais para reagir.

É preciso escolher os melhores canais de vendas e a forma como iremos abordar os consumidores, além de olhar também para os clientes analógicos, mas que compram bastante. Como posso ajudá-lo?

Por fim, Marcelo ressaltou que é preciso valorizar nosso produto e também apostar nas exportações com opções de qualidade. “Você vende moda e não somente roupa, não queremos ser um país de baixo custo de produção”, afirmou.

“O Brasil precisa reconhecer o Brasil, mergulhar em nossas raízes, valorizar o que é nosso. Só isso que vai fazer com que o país deixe de vender preço e passe a vender valor”, acrescentou Sueli Pereira.

E Marcelo Prado concluiu: “Devemos olhar para a exportação focando na originalidade, brasilidade, com conceito de marca, criatividade, o que temos de melhor”.

Fonte: Vanessa de Castro | Foto: Reprodução