Ao longo dos últimos cinco anos, as vendas de vestuário registraram um forte crescimento no Brasil, mais do que em qualquer outro lugar do mundo, com a exceção da China. Melhor que ninguém, a Inditex tem aproveitado as oportunidades geradas pelo mercado brasileiro, ao contrário de rivais como H&M e Gap.
Há mais de uma década que o maior retalhista de vestuário do mundo, a Inditex, tem registado taxas de crescimento de dois dígitos no Brasil. No entanto, H&M e Gap, o segundo e terceiro maiores retalhistas de vestuário do mundo, respectivamente, ainda não conseguiram apanhar o barco.
É difícil analisar os mais recentes resultados financeiros trimestrais dos principais atores mundiais de fast-fashion, sem concluir que a sueca H&M e a norte-americana Gap Inc. estão em risco de ficar muito atrás da espanhola, a menos que consigam conquistar terreno nos mercados emergentes.
O lucro líquido da H&M caiu 18% e houve uma derrapagem de 21% na Gap ao longo do período de 13 semanas, contadas até o dia 30 de abril deste ano. Em contraponto, o lucro líquido da Inditex aumentou 10%.
H&M e Gap não estão apenas lutando contra os preços do algodão, estão também muito expostas ao aumento dos custos de produção na Ásia. A H&M, por exemplo, subcontrata e produz cerca de três quartos dos seus produtos na região. A inflação salarial na China é um problema crítico. A preocupação com estes custos crescentes é tal que, a Gap – que produz cerca de 30% dos seus produtos no país – planeja transferir a produção para lugares de menor custo, como o Vietnã e a Índia, até 2015.
Já em oposição, a Inditex opera um modelo de forte produção caseira, com cerca de metade dos seus produtos fabricados na Espanha, Portugal ou Marrocos, e apenas 35% na Ásia.
Como a H&M tenta reter a quota de mercado ao não repassar os aumentos nos custos de produção para o consumidor, os seus resultados têm tornado-se, inevitavelmente, mais espremidos. A Gap, por sua vez, cortou a sua previsão de lucro anual, referindo que os custos unitários vão subir cerca de 20% durante o segundo semestre deste ano.
Mas é na penetração de mercados emergentes que a sueca e a americana estão mais em risco de perder terreno para a Inditex. Por exemplo, os mercados de baixo desempenho da Europa Ocidental representaram cerca de 84% das vendas no comércio da H&M em 2010, em comparação com 65% no caso da espanhola. No caso da Gap, os Estados Unidos alimentaram quase 80% das suas vendas no varejo no ano passado.
E estas diversidades regionais estão prestes a aumentar no curto e médio prazo, porque cerca de 80% das aberturas de novas lojas da Inditex em 2010 foram em mercados emergentes, em comparação com cerca de 30% para a H&M. Este ano, o magazine sueco planeja 35 novas lojas na China, o mercado de moda que mais cresce no mundo, mas a espanhola está conta abrir quase três vezes e meia esse número de lojas.
A fraca presença da H&M e da Gap nos mercados emergentes é ainda mais evidente no Brasil, onde nenhuma possui qualquer ponto de venda e onde as vendas de vestuário no comércio têm aumentado significativamente.
Pela natureza da sua localização no hemisfério sul, o Brasil é um mercado complicado para uma empresa de vestuário ocidental, na medida em que as estações do ano estão invertidas em relação às bases de tendências de consumo no hemisfério norte. E os consumidores locais estão muito bem informados para aceitar as propostas da estação anterior.
Aí reside uma dificuldade fundamental: as empresas de vestuário ocidentais, com grandes ambições no Brasil, necessitam desenvolver linhas de moda especificas para as estações do hemisfério.
A Inditex, através da Zara, começou a fazer exatamente isso e está novamente à frente. Em 2010, as vendas no varejo através das lojas Zara brasileiras atingiram os 282 milhões de dólares, mas esse valor deverá subir acentuadamente em 2011 e 2012, impulsionado pela sua nova coleção no hemisfério sul em mais de 30 pontos de venda.
Já H&M e a Gap perderam posto em termos da primeira fase do crescimento de fast-fashion no Brasil, permitindo que a espanhola tomasse a iniciativa. No entanto, ainda haverá muito mais crescimento em terras brasileiras, com implicações também para a procura na Argentina e no Chile.
Toda a América do Sul é ainda uma terra de oportunidades, muito auspiciosa para ser desperdiçada.
PORTUGAL TÊXTIL | FOTO: REPRODUÇÃO










