A vida é mesmo breve. Até poucos dias atrás, os observatórios de tendências estavam analisando as coleções de Verão 2021 de Kenzo. Nesta semana, repentinamente, analisamos seu legado conjugando-o com o verbo pretérito após seu falecimento aos 81 anos, vítima da Covid-19. Então, perdoem os leitores se já leram muito sobre este renomado estilista, no entanto a abordagem aqui é diferente.
Pois, se para a moda no geral ele foi o primeiro designer japonês a ganhar fama em Paris, para o segmento denim, Kenzo foi um dos primeiros (se não o primeiro) a compreender a relação entre o jeans e a inclusão das minorias na alta moda. De fato um visionário, se considerarmos que equidade e inclusão tem se mostrado uma busca e um traço de comportamento consensual das gerações mais novas de todo o mundo, acelerado pela pandemia.
Kenzo Takada nasceu em Himeji, na província de Hyogo, no Japão. Seu pai tinha uma casa de chá em uma vila tradicional do distrito da cidade, e por lá, ele cresceu rodeado por gueixas. O interesse por moda manifestou-se cedo, desde jovem futuro estilista lia as revistas Vogue de sua irmã.
A primeira formação de Kenzo foi em literatura, mas logo desanimou da escolha e mudou seu foco para o Bunka Fashion College, a contragosto dos país. Ele foi um dos primeiros estudantes do sexo masculino a ser aceito na instituição. Então, já nessa parte da sua linha do tempo, o designer viveu na pele questões envolvendo igualdade e inclusão.
Nos anos de 1960, Kenzo assimilou a ideia de uma moda mais democrática e acessível, quando trabalhou em uma loja de departamentos criando cerca de 40 estilos por mês. Assim, o designer foi vivenciando já naquela época conceitos do fast fashion e incorporando ao seu método de trabalho o ritmo constante da renovação das tendências.
Em 1964, Kenzo mudou-se para Paris, inicialmente planejando uma passagem breve pela capital francesa. No entanto, acabou ficando e por lá, continuou sua formação. Ele foi o primeiro japonês a mostrar seu trabalho na Ecole de la Chamber Syndicale de la Couture, abrindo portas para outros criadores compatriotas que vieram depois, como Issey Miyake e Kansai Yamamoto. Mais uma vez, o estilista viveu momentos de ruptura de padrões e inclusão na prática.
Quando chegou em Paris, Kenzo não falava francês, nem tinha dinheiro ou emprego. Então, investiu seu tempo em observar vitrines e capturar o espírito da moda de rua local. Desta vivência, incorporou em seu trabalho com propriedade o que as gerações mais novas realmente queriam da moda.
Kenzo acabou testemunhando os acontecimentos de 1968 e os motins de Paris, o que lhe valeu uma perspectiva global da moda e rendeu uma incomparável intuição eclética, que o permitiu incorporar a diversidade de influências étnicas sem preconceito em sua estética.
Quando se fala em diversidade, se fala em democracia. É aí que entra a ligação da moda criada por Kenzo com o jeans – a peça mais democrática já criada pela indústria do vestuário. Não foi só na apreciação rica de estampas e padrões que o designer mencionou esses ideais. Em 1971, Kenzo incluía a five pockets em suas nas coleções, com direito a visual lavado e bainha enrolada.
A primeira boutique de Kenzo foi aberta em 1970, a Jungle Jap. Por lá, o jeans esteve presente junto à suas criações, ajudando a romper o discurso comportado de coletes e suéteres multicoloridos, finalizando produções multicoloridas e ajudando a dar conexão a composições formadas por looks e camadas dramáticas. Se olharmos bem, muitas de suas coleções desde cedo propuseram looks agênero.
Kenzo Takada também viu com antecipação o movimento das colaborações. Já em 2016, realizava colaborações com a H&M e Vans. Nelas, se assistiu fatos históricos que trouxeram discurso de diversidade, o manteve vivo no DNA de sua marca mesmo após sua saída em 1999, quando deixou a estética de sua grife aos cuidados do designer italiano Antonio Marras.
Universo do skate, visual upcycle, looks leves e despreocupados. Todas as vontades manifestadas pela moda de rua mundial passaram por suas coleções. Deixamos uma galeria em homenagem à visão de moda libertária proporcionada por esse cativante criador mostrando as diferentes versões conferidas ao denim ao longo de sua trajetória profissional.
Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução















