As reações mundiais ao Covid-19 no setor têxtil do denim

Em um mundo globalizado, da mesma forma que as pessoas estão conectadas em rede, os negócios também estão. O impacto causado pela pandemia do Covid-19 nos últimos meses em cada país é sentido nos demais, seja pelo abastecimento de insumos, pela redução nas entregas ou pela mudança das relações e condutas de exportação.

Os “key players” das áreas que, inicialmente, já estão sentindo os efeitos econômicos e sociais da pandemia estão compartilhando seus aprendizados e previsões. Em entrevista à Sportswear International, executivos do universo jeanswear pelo mundo apontaram como alternativa voltar-se para o mercado doméstico, calcar-se no online e até mesmo entender que algumas produções estão migrando da China para outras regiões como Bangladesh. Confira abaixo:

Amy Wang, diretora-geral da Advanced Denim, China:

“Entre as consequências que o coronavírus vai trazer para o setor jeanswear e para o mercado de moda, teremos o impacto de novas exigências para os tecidos, para o estilo e mesmo para modelos de vendas. Por ora, nós estamos introduzindo variedades de denim anti-bacterianos e seguros para o meio-ambiente.

Concomitante a isso, as marcas vão implementar uma variedade de métodos de vendas online. Em termos de quantidade, especialmente na China, as tradicionais vendas realizadas offline terão uma ruptura até a metade de 2020, enquanto a influência nas vendas online serão muito menores, e irão aumentar gradualmente o segundo semestre deste ano”.

Amy Wang

 

Tolga Ozkurt, diretora-geral adjunta de vendas e marketing da Calik, Turquia:

“Devido a milhões de pessoas estarem isoladas em suas casas, um imenso decréscimo nas vendas irá afetar negativamente todos os elos da indústria têxtil. Vendas estão declinando, produção diminuindo, plataformas que reuniam expositores e eventos estão cancelando em massa suas exibições. Mas todos poderiam parar por um momento e entender que esta é uma crise que pode ser gerenciada e os negócios podem seguir conforme o habitual.

A era digital, que mais recentemente assumiu um grande espaço em nossas vidas, está ganhando alta relevância na atualidade. Nós estamos usando as soluções baseadas na tecnologia digital como vídeos e teleconferências para mitigar os efeitos desta pandemia. Nós interrompemos nossas viagens domesticas e internacionais por um momento. Estamos conduzindo todos os nossos encontros via plataformas digitais”.

Alberto Candiani, tecelagem Candiani, Itália:

“Nós não sabemos ainda qual será a dimensão do impacto do coronavírus nos nossos negócios e na cadeia de suprimentos. Atualmente é uma questão epidêmica oficial e infelizmente isso irá se perdurar pelas próximas semanas. Tudo será impactado de alguma forma por essa situação sem precedentes. Na Candiani, nós seguimos as instruções e restrições impostas pelo governo Italiano.

Para nós a saúde dos trabalhadores é a primeira prioridade. Nós continuamos aptos a operar seguindo regras muito específicas de precaução, mas francamente falando mesmo que nenhum dos nossos funcionários ou familiares estivesse afetado estaríamos enfrentando uma enorme ausência dos colaboradores. E isto obviamente irá afetar nossa produção e por consequência, impactará algumas das nossas entregas. Consideramos que ainda é muito cedo para falar das consequências desta situação”.

Alberto Candiani

 

James Shen, Foison Denim, China:

“Coronavírus está danificando seriamente as marcas locais e também movendo a produção da China para a Africa e o oeste da Europa”.

Onur Duru, diretor-geral da tecelagem Bossa, Turquia:

“Acreditamos que em virtude deste vírus cerca de 3 a 4% da produção do fast fashion, das pequenas quantidades e dos tecidos premium sejam direcionados para a Turquia. Nós acreditamos que as feiras de negócios de moda, as apresentações e as compras irão se tornar digitais enquanto os pedidos sofrerão uma queda estimada de 15% devido ao contexto atual.

Estamos revendo nossos planos de crescimento em termos de compras, admissão de pessoas e outros aspectos similares e pensamos que esta situação deverá se prolongar por pelo menos dois meses”.

Paolo Gnutti, PG Denim, Itália:

“Esta questão global irá provocar efeitos em todos. Seguramente as vendas desta estação no mundo têxtil estarão praticamente perdidas, lojas serão fechadas pois elas não poderão vender, showrooms não estarão oferecendo novas coleções, companhias têxteis estão fechadas sem produzir. Esta situação é uma dura lição para todos.

Eu espero que acima de tudo ela possa refletir as nossas prioridades e reais necessidades e esclarecer o que é supérfluo. E qual o significado de produzir com cuidado e responsabilidade e não apenas almejar o preço e a quantidade.

Nós vamos voltar a reavaliar a as pequenas lojas locais, nos voltaremos para a produção doméstica para tomar conta do controle e qualidade dos nossos produtos sem depender de números, volumes e preços”.

Paolo Gnutti

Francesca Polato, diretora de marketing da Berto, Itália:

“Infelizmente, o coronavírus teve um impacto devastador no mercado, de modo geral, desde pequenas lojas até companhias multinacionais. Obviamente o mercado de moda também se envolveu nesta situação terrível. Este contexto irá levar todos nós a fazer novos balanços, por exemplo, entre o online e o offline, e entre o local e o global. E estes novos balanços vão se estender  para as situações quotidianas das nossas vidas, desde as compras pessoais até a cadeia de suprimentos. A única certeza que temos é que esta situação de crise não será vivida de forma breve”.

 

Aryan Mahbub, designer, Square Denims Limited, Bangladesh:

“Varejistas que dependiam fortemente da China para se abastecer com roupas e outros produtos da estação estão buscando desesperadamente fontes de abastecimento alternativas, as quais incluem Bangladesh. Nós já estamos recebendo pedidos de compradores, para criar espaços adicionais de pedidos. Mas as manufaturas dependem demais da China para os materiais brutos, como tecidos, fios e acessórios até mesmo alguns químicos para o tratamento de tecidos da industria têxtil.

Realizamos alguns pedidos de compras de materiais brutos de outros países para cortar a dependência com a China. Porém, temos que pagar por isso. Varejistas de roupas europeus provavelmente vejam seus lucros afetados pela quebra do coronavírus para muito além do lançamento das coleções de Verão lançadas nas fábricas chinesas, especialmente nas fabricantes das províncias de Guangdong e Zhejiang, que foram forçadas a fechar suas portas por um longo tempo”.

Aryan Mahbub

Fonte: Redação | Fotos: Reprodução