Humanismo marca estratégias da indústria da moda contra coronavírus

Dias atrás estávamos falando sobre tendências, planejando coleções e realizando pedidos de insumos. Tudo isto supondo que a cadeia de moda estaria girando normalmente. Subitamente, paramos: férias coletivas, máquinas desligadas e viagens suspensas. Na indústria do vestuário, apenas o home office e a circulação da informação permanecem ativos.

A primeira pergunta que paira entre empresários de moda, como grandes estrategistas que são, é como se manter apto a recomeçar, supondo cenários de retomada para o curto, médio e longo prazo. A segunda é o que fazer neste período de pausa. Por fim, questiona-se qual cenário teremos para nos adaptar.

“Teremos que trabalhar por etapas, sem prazos ou datas”, explica o estilista Robi Spatti, um dos sócios da GFT – Glam Fashion Team e idealizador do Novo Brás, na capital paulista. “Até o dia 6 de abril, período estabelecido pelo governo de São Paulo, estamos em pausa total e nossa conduta é de observação, acrescenta.

Já no Ceará, a pausa foi estabelecida até o dia 29 de março. Lucio Albuquerque, CEO da Handara Jeans, comenta que após este período ainda não se sabe qual modelo de contenção ao Covid-19 será implementado.

Em um primeiro momento a estratégia do empresários tem sido a de empenhar todos os esforços para manter a equipe de colaboradores. De acordo com o presidente da Sinfiatec e diretor comercial da marca Denim Zero, Iuri Cristofolini, a solução encontrada pela maioria das empresas do Vale do Itajaí é a concessão de férias coletivas (vencidas ou antecipadas) e dos bancos de horas.

As marcas localizadas no Brás, em São Paulo, tem adotado conduta semelhante, mas também tem recorrido à outras alternativas. “Muitos empresários estão buscando acordos com seus colaboradores, no sentido de continuar pagando-os normalmente neste período e realizar os descontos aos poucos, posteriormente”, compartilha Robi Spatti. “Também estamos tentando nos isentar de taxas como luz, água e IPTU pois o mínimo que se tira ajuda a manter um funcionário”, explica.

No Nordeste, outros formatos de empresas, com quadros de funcionários enxutos e produção calcada em facções, apontam para outros caminhos. Com uma produção de três mil peças por mês, a XLZ Jeans está com estoque completamente pago e, segundo o casal de CEOs da marca, Rejane Iracema da Silva e Rodrigo Chagas, também contam com uma reserva para os funcionários. “Se esta reserva faltar, iremos recorrer aos bancos”, concordam ambos.

Além da gestão dos custos em prol dos recursos humanos definindo as ações imediatas, a resposta para o que fazer neste período a médio prazo pode estar na estratégia de “mostrar-se vivo” para o consumidor. A conduta também pode funcionar como um imã importante para acusar possíveis caminhos.

“Quem trabalha com coleção, tem mantido as atividades das entregas e distribuição online. E em meio a esta logística, percebemos luzes no fim do túnel como o pedido de roupas brancas efetivado por um cliente do setor médico de saúde” compartilha Robi, sinalizando o desenvolvendo de produtos de primeira necessidade como um caminho possível. Segundo Iuri Cristofolini, empresas do Vale do Itajaí também estão se voltando para esse caminho: “estamos mobilizando algumas empresas para confecção de máscaras e aventais”.

O “mostrar-se vivo” pode ser também uma estratégia relevante para manter as marcas ativas no imaginário do consumidor. Considerando que ele vai comprar menos e provavelmente terá um comportamento mais consciente e atento às procedências, as companhias que estão agindo com empatia nesta fase terão mais chances de despertar um sentido para o consumidor pós-isolamento Covid-19.

A informação está circulando mais do que nunca, e as redes sociais são grandes vitrines para aqueles que estão encontrando soluções verdadeiras. Entre elas, está a produção de produtos hospitalares, doação de equipamentos, compartilhamento da informação por meio da liberação de cursos online ou mesmo realizando serviços diferentes da sua natureza, como compras para idosos e impressões de trabalhos escolares. Se algum destes caminhos for monetizável, não deve ser subestimado. E neste sentido, o setor de marketing pode ser fator determinante para criação de estratégias de sobrevivência.

Pivotando das soluções de curto e médio para o longo prazo (e sabemos que precisamos supô-lo), caso a retomada da normalidade das atividades se dê em período de tempo equivalente ao da China, o Brasil retomaria suas atividades entre os meses de agosto e setembro — início do Verão. Nesta previsão, muitos confeccionistas também consideram válida a estratégia de manter-se em prontidão para abastecimento do mercado. “Quem tiver o produto para vender, vai estar ganhando, pois o mercado funciona assim”, justifica Robi.

Uma das dores de mercado, que certamente vão se consolidar como tendência, é a preferência por produtos locais sobrepondo-se aos importados. O comportamento já tem se desenhado como consenso entre as nações afetadas pelo novo Covid-19. Podemos prever então que, embora existam menos pessoas comprando, será evidente uma menor concorrência de importados.

O caminho da criatividade para reinvenção de estoques, também não deve ser menosprezada como alternativa para uma retomada. “Na época da crise dos caminhoneiros, tínhamos um estoque de jaquetas que estavam sendo comercializadas por R$70”, conta Rejane, da XLZ Jeans. “Personalizamos elas com tule e conseguimos vender todo o estoque por R$ 200”, completou.

Levando este exemplo como inspiração, é possível se munir com repertórios para transformação que permitam as roupas já criadas atravessar as estações. A manualidade é uma forte tendência e, em alguns casos, pode ser feita em modalidade home office.

Cautela, pesquisa e reavaliação tem refletido a postura da maioria dos empresários. “Estamos em um momento onde teremos o tempo que nunca tivemos para rever nossas empresas e nossos valores”, comenta Eduardo Cristian, da Costurando Sucesso.

Pesquisar, observar, criar bancos de imagens e modelos de cenários criativos, assimilando os fatos que vão se desenhar daqui por diante com a mentalidade disruptiva de uma startup, é um dos caminhos possíveis para enfrentar essa crise.

*Nossos agradecimentos aos profissionais e empresários que compartilharam seus insights e vivências em prol de todos aqueles fazem a cadeia de moda girar. No momento certo, contem conosco para recomeçar.

Fonte: Vivian David | Foto: Divulgação