Autoralidade e moda circular são temas no Denim Meeting online

A pandemia da Covid-19 nos mudou em alguns campos. Em outros, nem tanto. Muitas transformações que estão acontecendo agora simplesmente foram aceleradas por ela, pois já existiam. Assim se impôs de forma unânime, a necessidade de uma nova modelagem de negócios.

Foi para refletir e compartilhar essas adaptações, que a edição online do Denim Meeting Pernambuco incluiu entre os temas para debate “Os Novos Modelos de Negócios”. Apresentado no dia 17 de setembro, pela CEO do Guia JeansWear Marlene Fernandes, o evento reuniu Chico Marinho, coolhunter e criativo da marca homônima, e Luiz Clério, consultor e coordenador do curso de design de moda da Faculdade Senac Pernambuco.

O debate, foi mediado pela visão questionadora de Karina Fernandes, consultora de negócios de moda e mestre em marketing e comunicação de moda.

Provocando os participantes, Karina apresentou como questionamento inicial a forma como os processos produtivos poderiam se tornar mais sustentáveis e comprometidos com aspectos econômicos, sociais e sobretudo comportamentais. “Hoje convivemos como o smartphone como se fosse uma parte do corpo, e isso levou as marcas de jeans para um amadurecimento emergencial muito grande”, comentou Luiz Clério.

De acordo com o consultor, isso fez com que a autoralidade criativa se tornasse ainda mais importante para manutenção da conexão com o varejo. “Essa emergência autoral se tornou ainda mais forte no jeanswear pois as industrias locais estavam acostumadas a largas produções […] Temos vivido isso como um aprendizado muito forte no momento”, compartilhou.

Concordando com Luiz, Chico Marinho apontou que via tanto a questão da sustentabilidade quanto da autoralidade como algo necessário. “A tecnologia vem atrelada principalmente aos profissionais”, comentou, destacando o valor da mão de obra humana qualificada no contexto abordado.

Trazendo para o debate também a mudança provocada pela tecnologia na questão do produto, afirmou: “Hoje o foco não está mais no produto, mas na imagem e na construção do discurso que ele vai ter”. Uma das razões, de acordo com o coolhunter, é o perfil das gerações mais novas. “Os jovens não se contentam mais com a qualidade do produto. Eles querem saber também toda a trajetória pela qual ele passou ao longo da cadeia”, explicou.

Seguindo a reflexão, Karina Fernandes levantou possíveis causas para a carência tecnológica predominante no setor de moda na região. Uma das possíveis causas, segundo a consultora e mestra em negócios, seria o receio quanto a substituição da mão de obra humana. Como caminho para desmistificar a crença, a consultora apontou a necessidade de profissionalização, formação e carreira dos profissionais do setor.

“A inclusão da tecnologia deve ser vista como um caminho que torna o funcionário ainda mais necessário no ambiente de trabalho”, destacou Chico Marinho, concordando com a visão de Karina.

“A indústria hoje é muito mais perceptível a mudanças, portanto está mais aberta a possibilidades e conexões”, comentou Luiz Clério. De acordo com o consultor, a região de Pernambuco tem uma singularidade: apensar da tradição no atacado, o varejo até muito pouco tempo se constituía apenas em um pequeno sistema que acontecia por consequência.

“Entendo que não apenas o segmento jeanswear, mas todos os segmentos de moda precisam se comunicar com muita proximidade com o varejo”, opinou Luiz. “O jeans é um produto de moda com uma eficiência a-gênero muito grande e devemos aproveitar isso”, recomendou.

“Mais do que nunca temos que estar conectados com o consumidor final, pois ele está ditando qual a bandeira que ele defende”, alertou Chico Marinho. De acordo com o coolhunter, é muito difícil perceber quais são as exigências desse consumidor, se nos colocarmos acima do ponto de vista dele. “O visual Merchandising nunca teve tanto trabalho quanto agora”, comentou. “Realmente é uma construção cinestésica para se aproximar do consumidor final”, compartilhou.

O desespero de muitas marcas que sequer usavam redes sociais e repentinamente precisaram se comunicar com o consumidor de forma digital também foi tópico do debate.  “O próprio story do consumidor está mostrando o que ele é”, concordaram. “Então as empresas não tem que oferecer só o produto, mas uma marca com visão mais comportamental para poder ter acesso a toda essa rede de atacado que vai ao consumidor final pelas redes sociais”, finalizou Chico.

Migrando o foco do debate para o tema da sustentabilidade e moda circular, Karina trouxe o dilema do desafio de levar o conceito de upcyle pra as produções de ampla escala, e “fazer o fast fashion sem deixar de ser fast fashion”, levando o produto reaproveitado com alto valor até mesmo ao final do seu ciclo.

“O jeans é um dos produtos de moda que pode ter esse ciclo ativo e um ciclo de fato circular”, afirmou Chico, com a confirmação de todos. “Entendo o jeans como um dos mais eficientes nesse ciclo de moda circular”, complementou. “Vemos determinados momentos onde o jeans mais surrado, mais rasgado, é de fato o mais bacana”, lembrou.

Os participantes, destacaram que o momento atual é de valorização do brechó, e que dentro desse cenário o profissional de moda precisa deixar de lado o pragmatismo. “Entendo que o conhecimento refresca, renova e reconstrói […] Mas, é preciso tirar o ranço do eu sempre fiz assim”, comentou Chico Marinho, referindo-se as possibilidades de se criar tendo como ponto de partida uma roupa no final do ciclo.

“A roupa é o novo arroz”, disse Karina Fernandes, referindo-se ao momento atual escassez e diminuição de matéria prima.

Entre os possíveis impactos dessa nova realidade para a indístria local, Luiz Clério destacou a necessidade de entendimento sólido e real dos processos. “Se o sistema funcionar como deve, passaremos pela crise de uma forma mais suave”, explicou. “Soluções de gambiarra não são muito funcionais nestes tempos obscuros, mas soluções profissionais e colaborativas são sim eficientes e trazem muito mais segurança para passar por esse processo de crise”, afirmou.

A necessidade de se trabalhar a moda autoral também foi uma importante realidade destacada como estratégia unânime pelos participantes. “É interessante que a alguns anos atrás, enquanto trabalhávamos em um projeto, eu e Luiz comentávamos que a China chegaria com força total e mencionávamos a necessidade de se desenvolver uma moda autoral”, recordou Chico Marinho. “As empresas que seguiram essa percepção hoje estão passando por essa fase em uma situação bem mais confortável”, afirmou.

“A indústria da moda tem que ter ciência de que o que eu faço, só eu faço”, opinou coolhunter. “Isso vai fazer com que as empresas tenham uma postura mais colaborativa, mas no momento em que a cultura permanece na lógica do mais barato fica difícil praticar essa união”, explicou

Os participantes elogiaram a iniciativa do Guia JeansWear em promover diversos talks na edição online do Denim Meeting, realizada em parceria com o Sebrae e o Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecções em Pernambuco (NTCPE), já que a divulgação de informações tem sido primordial para a indústria nesse momento.

Confira a transmissão na íntegra do Denim Meeting Pernambuco:

Fonte: Vivian David | Fotos: Reprodução