Dario Caldas traça mudanças comportamentais do consumidor em quarentena

Os tempos mudam porque as pessoas o mudam. Porém, antes desta transformação acontecer, existem sinais invisíveis alertando o que está por vir. O momento atual é inédito: a experiência do isolamento social preventivo ao Covid-19, o novo coronavírus, foi súbita e sem precedentes, e tende a acelerar mudanças comportamentais que estavam apenas começando a se esboçar.

O que vai acontecer com o espírito do nosso tempo – o chamado Zeitgeist – após essa fase de incubação mundial e como isso vai se refletir no comportamento do consumidor foi o tópico abordado por Dario Caldas, sociólogo, escritor, mestre em comunicação e fundador do ODES (escritório de inteligência estratégica e tendências Observatório de Sinais). A discussão foi transmitida nesta quarta-feira, no perfil de Instagram da consultora de comunicação e negócios de moda Andreia Meneguete.

“O século 21 já veio com essa cara de transição desde o início, com valores e relações econômicas, tudo sendo repensado”, explica. “O que ninguém esperava é que fosse nesta velocidade. Estamos tendo uma ruptura inédita, pelo tamanho e intensidade […] É um abalo sísmico que está acontecendo em vários níveis – saúde, econômico, comportamental, em todo o planeta”, justifica.

Dario explica que uma das mudanças que já podem ser constatadas é a transformação das redes sociais em redes emocionais. De acordo com o pesquisador de tendências, a pandemia fez com que a “cultura de performance” baseada na melhor versão de si mesmos, predominante até então nas redes sociais, envelhecesse rapidamente.

“De repente nada disso nos cabe”, justificou. “Essa cultura foi superada de uma hora para outra e estamos tendo que nos conectar com nós mesmos”.

O sociólogo também prevê que, devido à aceleração do online, dois setores sofrerão transformações profundas após o isolamento social: o trabalho e a educação. “Sabemos que estas situações extremas nos forçam a inovar e experimentar e este é o lado positivo desta história”, opinou.

Quanto às macrotendências e aos hábitos de consumo, Dario ressaltou o conceito do “consumo curativo”, que tende a ganhar força. “A ideia de cura, já vinha muito forte no espirito do nosso tempo. O consumo importante vai ser aquele que reflete o cuidado, regeneração e cura”, explica. “É uma espécie de consumo band-aid, decorrente de uma ressignificação do Consumo Emocional”, explana.

Dentro da ideia de consumo curativo, o luxo também terá suas mudanças. “As elites econômicas são muito sensíveis a questão do contagio, é um traço dos super ricos”, explicou Dario, mencionando o livro “Riquistão”, do jornalista americano Robert Frank.

Concordando com a opinião de Dario, Andreia opinou que uma provável tendência para o segmento seria a excelência de produzir menos com mais qualidade e assertividade, como forma de criar mais aderência das marcas com este perfil ao consumo. “O produto será o mesmo, mas a forma como se será ressignificado e manifestado ao consumidor será diferente”, opina. “A apresentação dos produtos sob os códigos de ostentação é uma estratégia que não terá mais fit” afirmam ambos.

Outro vetor que tende a se generalizar é o da individualização e personalização dos produtos. “Na moda, isso terá que ser reinventado a preços acessíveis, pois as pessoas estarão muito sensíveis a preço, escolhendo o que consumir” justifica Dario.

Qualidade, neste contexto tende a se sobrepor à inovação a todo o custo, segundo o sociólogo. A ideia de um produto único mais centrado e sintonizado com o consumidor, em eu ponto de vista, fará mais sentido. “O produto certo é uma decorrência desta inversão de lógica, a qual já vinha se falando mas neste momento se torna fundamental” explica.

“O que vai ser sensível para este consumidor é o estimulo à convivência no coletivo, a partir do consumo”, explica. “Mas esse estímulo ao consumo vai se dar através do comunitário e não necessariamente das grandes causas” conclui.

Algumas direções vão elevar seu status perante o consumidor. Entre eles, sustentabilidade, que já vinha definindo a cadeia do jeanswear. “Sustentabilidade é um ingredientes que vai dobrar seu valor pois joga na mesma direção do que estamos vivendo”, alerta.

Dario Caldas e Andrea Menegueti durante transmissão ao vivo pelo Instagram

O varejo físico, segundo o sociólogo, vai ganhar cada vez mais importância como agente de interpenetração com o digital. Segundo Dario, passado o temor ele deverá ser mais importante ainda em sua função narrativa. “Já vínhamos dessa transição de que uma loja não é mais um lugar onde se vendem coisas” explica.

Seguindo o mesmo raciocínio, Andrea alerta que a loja será um momento de ativação de marcas com papel fundamental para oferecer o chamado “consumo com efeito curativo”. “Serão menos lojas, mas com mais significados e narrativas”, apontou.

Questionado por Andreia se os valores de escolhas de vida vão mudar após a experiência da pandemia, Dario opina que acredita que a mudança não seja tão radical quanto a estimada. “Na crise de 2010 foi levantada a questão da ganância, e as pessoas achavam que quando tudo acabasse iriamos regular o capital e tudo seria diferente”, argumentou. “Acabou a crise, a especulação voltou novamente e tudo voltou a ser exatamente como era. Nós vamos mudar, mas não de uma forma tão radical”, opina.

Fonte: Vivian David | Foto: Reprodução