Lilian Pace reúne cadeia do denim em papo sobre sustentabilidade na Denim City SP

O tripé da sustentabilidade para o setor denim atual, abrange muito mais do que a questão ambiental. O conceito traz eficiência, move a inovação e vai de encontro ao tão perseguido lucro quando abordado corretamente no segmento. Ele também passa pela eficiência, e aí entra outra abordagem, a social que valoriza as pessoas e o seu entorno.

Por isso, esta palavra nunca cansa de ser o tema protagonista dos debates mais relevantes para a indústria jeanswear, e não podia faltar na programação da abertura da unidade da Denim City SP.

Mediado pela jornalista Lilian Pace, a roda de entrevistas contou com a participação de representantes de todas as etapas produtivas do jeans, do fio ao aviamento. Thaísa Peralta, denim head da Covolan TextilMarco Britto, da lavanderia GB Tecnologia e SustentabilidadePriscila Perfeito, diretora de marketing da Irmãos Perfeito, e Marcel Imaizumi, diretor executivo de operações da Vicunha Têxtil, foram os representantes da cadeia eleitos para contribuir com suas experiências, junto com Mieko Cabral, representando a Denim City SP.

A relevância do conceito de sustentabilidade em cada uma das companhias presentes, e as ações mais recentes adotadas pelas mesmas, foi o ponto de partida sugerido por Lilian Pace para nortear a discussão. Como consenso todos os participantes afirmaram que o conceito tem sido o grande mote para inovação, pesquisa e evolução de suas respectivas companhias.

A busca por certificações, o investimento em formação profissional e a implementação de sistemas de reciclagem de materiais alternativos e mesmo do reuso de água constaram entre as principais estratégias alinhadas ao conceito adotadas pelas companhias.

“Temos cinco certificados globais, participamos de programas globais, realizamos ações complementares e já fomos premiados duas vezes”, afirmou Thaísa Peralta, compartilhando um pouco do “circulo virtuoso” da Covolan. “Devolvemos a água melhor do que quando a captamos”, apontou a denim head, após explicar o investimento feito com capital próprio da companhia no tratamento de efluentes por meio de nanotecnologia de ponta.

Destacando os avanços obtidos pela evolução das lavanderias no quesito sustentabilidade, Marco Britto lembrou que até muito pouco tempo as industrias de acabamento do jeans estavam classificadas entre as mais poluidoras do planeta. De acordo com ele, a tecnologia sustentável criada nos últimos dez anos transformou muito o setor.

“Dentro da indústria banimos todo tipo de lixado e puídos pois faz mal ao consumidor, temos certificados ambientais, e certificados com zero química”, contou ele, mencionando o uso de laser, ozônio e enzimas como tratamentos usados para substituição.

Como principal ação do setor, Marco mencionou a ênfase na formação para suprir a falta de capacitação de bons profissionais na área. “Sentimos essa necessidade e buscamos implementar a nossa própria escola corporativa”, contou, justificando a ação como uma forma de suprir a falta de cursos voltados ao setor. “Entendemos o cliente como investidor, por isto, temos um departamento de desenvolvimento, inovação e investimos em profissionalização para que o cliente tenha lucro”, complementou, enfatizando ainda mais a visão estratégica da ação.

Priscila Perfeito destacou a importância do conceito de sustentabilidade para o setor de aviamentos. “Para nós é importante fazer parte disso pois dentro da indústria são os detalhes que fazem a diferença”, explicou. De acordo com a diretora de marketing da Irmãos Perfeito, nas coleções da companhia a reciclagem como diferencial de estilo é a parcela que tem tido maior destaque nas coleções.

“O coco tem feito sucesso, conseguimos trabalhar com materiais alternativos descartados na própria produção e com isso conseguimos diversidade de cores dando reutilização de materiais que iriam para o descarte”, explicou, citando também como destaque as etiquetas feitas com raspas de couro descartado. “Sustentabilidade é um assunto que cada vez está no topo das preferências, e desperta o consumidor final para a consciência de que ter uma peça completa sustentável  é o que faz a diferença”, opinou.

Compartilhando as ações mais recentes relacionadas ao tema, Priscila contou que a empresa dispões de uma equipe industrial que observa oportunidades de reaproveitamento até mesmo geradas dentro da companhia “recentemente vimos que naturalmente tínhamos descarte de borra de café e a partir disto criamos uma nova coleção aproveitando o material”, exemplificou.

Representando a visão de sustentabilidade da Denim City SP, Mieko acrescentou: “Apostamos na sustentabilidade pela formação unindo todo mundo para educar, tanto quem está entrando no mercado, quanto quem já está nele, para que possamos ter um jeans sustentável desde a fiação até o descarte“.

“Sustentabilidade é sinônimo de eficiência”, afirmou Marcel Imaizumi. De acordo com ele, atualmente existe uma pressão muito forte por parte do consumidor para que as marcas demonstrem suas ações e atuações dentro de suas responsabilidades. Segundo o diretor, a Vicunha aborda o tópico com uma postura diferente, posicionando-se como fonte de consultoria para o setor.

“Entendemos que somos parte de uma cadeia que necessita de muita informação […] Sustentabilidade é um conceito fácil de falar e difícil de aplicar, e é também uma história que não tem fim”, afirmou Marcel, aconselhando as empresas a criar suas próprias histórias e fatos.

Entre as ações mais ousadas tomadas pela tecelagem recentemente, Marcel anunciou a sociedade com uma estação de tratamento de água e o apoio ao algodão brasileiro na questão rastreabilidade. “Não tenho nada contra o BCI mas ele não é perfeito e não tem rastreabilidade por isso eu prefiro o algodão brasileiro que usa água da chuva […] As empresas tem que perceber que as leis ambientais rígidas podem ser usadas a seu favor”, justificou.

E onde estas empresas estariam em um mundo ideal? Esta foi provocativa colocada por Lilian Pace com intenção de trazer a tona as tendências e os projetos mais promissores que tendem a se esboçar. As respostas trouxeram como tópicos definitivos o fechamento do ciclo produtivo, o despertar da consciência do consumidor e processos sustentáveis ao ponto de dispensar a concessão de licenças ambientais.

“Em relação ao fechamento do ciclo dos materiais, temos um estudo que foi construído para trabalhar reciclagem pós consumo que é o B2B”, contou Thaísa. A proposta de Circular Denim, segundo a denim head da Covolan, envolve o envio de retalhos para usinas para transformação de fardos. “O resultado é um tecido modal, jovem e sem a conotação opaca de resíduos reciclados”, explicou.

Marco Britto contou que a GB Lavanderia desenvolve há quinze anos um projeto de uma indústria de beneficiamento com zero química, sem caldeira e sem descarte de efluentes. De acordo com o expert em lavanderia, o mesmo já conta com uma célula pronta: “O pouco de agua usada será evaporada no processo logo o novo formato dispensa a necessidade de licença ambiental já que não teria química nem caldeira”.

“Seria uma linha de materiais desenvolvidas com materiais reaproveitados”, afirmou Priscila Perfeito, respondendo ao questionamento de Lilian. De acordo com a diretora de marketing, as pessoas ainda não aceitam muito, ainda tem o fechamento do olhar para a questão da reciclagem. “Vestir algo que de certa forma não prejudica, mas beneficia a moda como um todo […] Dentro da empresa o lugar ideal seria ter um processo como um todo que possa otimizar sem prejudicar o meio ambiente”, concluiu.

“Um lugar onde a gente consiga realmente destinar as roupas até o final do seu ciclo de vida dando um significado diferente”, respondeu Marcel, já apontando a reviravolta de valor dos brechós. “Nosso desafio já sabendo que o produto vai para o lixo, é propor algo diferente também”, complementou, referindo-se ao lançamento de composições capazes de sublimar o empecilho das misturas do algodão à circularidade.

“O jeans tem um problema, tem poliéster, lycra,  tem que tirar o metal, para transformar em fibra de celulose mas isso não impede de fazer muita coisa bacana […] Se vivermos mais 55 anos, vamos assistir as empresas produzindo muito menos, mas quem for produzir, vai fazer isso de uma forma completamente diferente do que está produzindo hoje”, previu Marcel.

O encerramento da roda de entrevistas girou em torno do progresso e das metas futuras para cinco ou dez anos das companhias participantes. Todos, de certa forma confirmando a busca pelo “lugar ideal”, mencionado por Lilian e declarado pelos participantes – passando sempre pela consciência do consumidor como tópico definitivo. Certificações, postura de colaboração para o avanço da indústria, aumento da eficiência por meio de zero descarte e a cultura do pensamento disruptivo na moda foram mencionados.

E para que todos esses planos aconteçam com sinergia, contamos com a missão da Denim City SP, cuja meta segundo a própria Mieko é “reunir vários pedacinhos da indústria para construir uma cadeia do jeans nova e fortalecida no Brasil”.

Fonte: Vivian David | Foto: Reprodução