Moda infantil se comporta de maneira diferente durante e após pandemia

A Feira Ópera, voltada para o setor infantil, por meio de sua diretora comercial Fernanda Menezes promoveu uma transmissão ao vivo com a sócia-proprietária da Petitlabô Consultoria, Tati Ganme. A conversa divulgada via Instagram abordou o cenário atual para o segmento e os principais pontos ao seu favor.

O mercado infantil ainda é novo comparado ao adulto e tem suas particularidades. “Ele tem comportamentos diferentes e não se encaixa em nenhum outro mercado. É o único que vem crescendo (8% ano), independente das crises”, comenta Tati.

A consultora lembra que o segmento nasceu a partir dos anos 50, enquanto business, porque antes disso as crianças se vestiam como os adultos. Foi somente após a Segunda Guerra Mundial e o advento da pílula anticoncepcional que as mulheres puderam escolher quantos filhos teriam ou não, e com isto, as crianças começaram a ter mais importância.

As roupas passaram a ter mais conforto e surgiram itens de puericultura e os brinquedos. O ultrasson também foi um divisor de águas, quando no início, somente as classes mais altas podiam ter acesso e saber o sexo do bebê e, a partir daí escolher as roupinhas específicas.

É bom lembrar que, naquela época, o azul era destinado às meninas pelo tom candy, suave, enquanto o rosa era voltado para os meninos devido à alusão ao magenta, sangue, guerra. Isso mudou em algum momento, aleatoriamente. Já o amarelo foi uma criação do movimento hippie que significava resistência ao consumo.

Após essas transformações, o mercado foi inteligente monetizando o segmento e hoje temos pipocando por aí, além do tradicional chá de bebê, os de revelação, as fotos babyborn, os “mêsversários”. Então, nesse momento de pandemia e revisão de valores, é hora de pensar nas vantagens para melhorar suas vendas.

“O mercado de moda adulta está saturado, ele vai ter que ser revisto, a cadeia produtiva está sendo questionada. Já o infantil abre seus valores, precisa de mão de obra especializada e 95% é composto por pequenas e nano empresas que valorizam sua cadeia, além disso, não produzem em excesso e a distribuição é diferente”, comenta Tati.

A sócia-proprietária da Petitlabô Consultoria afirma ainda que a moda para os adultos, por vezes, está ligada a futilidades. Contudo, para as crianças, isso não acontece. Um filho pode ser ainda um fator motivador para entrar nesse mercado como empreendedora, onde muitas iniciam uma marca pela vontade de encontrar roupas novas e criativas para os próprios filhos. As mães procuram valorizar o local, manual, artesanal e agora ainda mais, deixando os importados de lado.

“Quem está por trás de uma marca infantil? Uma mãe, uma avó, uma madrinha, uma tia. É uma vantagem nesse momento que a gente comunique isso, faz parte da humanização da marca. É difícil humanizar uma marca que tem por trás um banco, uma rede”, afirma Tati.

A executiva apontou que o momento atual vai gerar uma transformação sim, mas não tão grande quanto alguns imaginam. “Ninguém vai virar um Dalai Lama em seis meses, mas haverá um resgate familiar grande, pode ser que a gente cancele a viagem internacional, mas aquela festinha de aniversário, o batizado que não foi realizado agora, vai acontecer”, disse.

Dentro desse contexto que valoriza o mercado infantil, Tati Ganme revela que as multimarcas têm um desafio maior que a monomarca, onde é mais fácil transmitir seus valores. “As multimarcas devem contar a história por trás da loja, a curadoria de peças, transparência de preços e o olho no olho através de encontros online”, afirmou, ressaltando que a margem de lucro no mercado infantil é bem menor que no adulto e chega no máximo a 4%.

Sustentabilidade e causas

Para a consultora, toda marca precisa defender uma causa que é o caminho do novo varejo 4.0 e agora ainda mais, pois as pessoas querem saber o que a empresa está fazendo para colaborar nesse momento de cuidar de todos e do próximo. Porém, sempre com transparência e sinceridade.

“Temos que levantar a bandeira da nossa marca, a loja física é muito importante mas agora tem que investir no online, qualquer canal como Instagram, site, WhatsApp, lives, Facetime, é hora de pensar fora da caixa”, comenta Tati, que também indicou a importância de pensar também na cadeia, fornecedores, parceiros e trabalhar com gente que sempre esteve do seu lado.

Possíveis cenários

Sobre os possíveis cenários, Tati Ganme apontou que as marcas devem estar preparadas para sentir impactos até o final do ano e o pior deles seria uma retração de 40% nas vendas. Ela sugere enxugar a coleção, mas com fôlego para atender um possível mercado mais otimista como o que aconteceu na China na reabertura de lojas de luxo.

“Todo mundo falando de um mindset mais sustentável e menos consumista, mas olha o que aconteceu na China – é a necessidade de pertencer ao mercado ocidental. Com o brasileiro é mais ou menos assim. Temos como exemplo os enxovais que são comprados nas lojas de Orlando, nos outlets de Paris. Se existe um público que é carente de pertencimento é o brasileiro”, comenta Tati.

O comportamento de consumo não muda de uma hora para outra, mas, claro que ele estará menor. Segundo Tati, não podemos nos encaixar nem no cenário mais otimista, como na reabertura da Hermès na China que vendeu cerca de US$ 2,7 milhões em um dia, e nem no mais pessimista.

Planejamento

Tati enumerou alguns pontos importantes para sair melhor dessa crise e, para começar a praticar agora. São eles:

  1. 1. Resgate do propósito: O que me faz especial, quem depende de mim que vale a minha luta? Olhar para o estoque, montar um novo mix de produtos, definir o que pode liquidar e pensar em produtos mais conscientes. É preciso destacar o diferencial da marca e comunicar isto ao cliente, contar essa história.
  2. 2. Preço e abertura de custos: Mostrar porque um desconto é possível e outro não. Negociar com fornecedores respeitando as necessidades de cada um.
  3. 3. Vendas: Utilizar todas as ferramentas disponíveis como conferências virtuais, convites VIPs, Instagram e WhatsApp. Inovação é a palavra da vez. Divulgação nunca foi tão importante, mas é preciso abrir um canal de comunicação verdadeiro, não vender nada fake e defender causas que tenha a ver com seus valores.
  4. 4. Fotos: Invista em boas fotos, faça parcerias com outras marcas para criar visibilidade, use hashtags para temas diferentes.

O que fazer no pior cenário? Calcular riscos e ver se tem fôlego para segurar as pontas. Para o cenário mais otimista, as pessoas irão comprar mais devido a demanda reprimida em um consumo de rebote, as crianças estarão no centro de comemorações que não foram realizadas agora. O inverno está chegando e os pequenos que perdem roupa facilmente, o que também colabora para o aquecimento das vendas.

O consumidor volta mais crítico e empoderado, isto já vinha acontecendo e a crise só acelerou este processo. Além disso, há uma previsão de que até 2022 ocorram sequelas do que estamos vivendo atualmente, em termos de hábitos de consumo. “Os cuidados vão aumentar como menor número de pessoas nas lojas, mais higiene, respeitar distância de dois metros. Isso vai ser uma realidade”, finaliza.

Fonte: Vanessa de Castro | Foto: Reprodução