Principais empresas têxteis discutem sobre o mercado, hoje e no futuro

O cliente como foco principal no desenvolvimento de produtos nas principais empresas têxteis do Brasil. Esse foi o principal assunto abordado durante o “Fórum de Tecelagens” que aconteceu na segunda edição do Denim Meeting, evento promovido pelo Guia Jeanswear que ocorreu no último dia 25 de abril, no Anhembi, em São Paulo. O evento foi realizado simultaneamente à FebraTêxtil, Tecnotêxtil Brasil e FINTT 2017 e contou com o patrocínio do FCEM | Febratex Group, da marca LYCRA® e da SILMAQ.


O Fórum “Inovação, tecnologia e produtividade com valor percebido”, mediado por Cristiano Buerger, CEO da Tecnoblu contou com a presença de Maria José Orione da Capricórnio, Márcio Coimbra da Santista, Fábio Covolan da Canatiba, Eleonora França, da Santanense, e Oto Rafael Arantes da Cedro; e abordou diferentes assuntos que culminam em uma preocupação? Como vender produtos de qualidade para um público cada vez mais exigente, unindo tecnologia, sustentabilidade e preços justos em um país com altos impostos? Cristiano iniciou a conversa abordando a longevidade das empresas presentes no Fórum e, como conseguem estar durante tanto tempo no mercado, passando por diversas transformações e seus principais avanços dentro do contexto da Indústria 4.0 com todas as suas revoluções de mercado e, seus principais avanços dentro do contexto da Indústria 4.0 com as suas revoluções, unindo tecnologia, mídias sociais e todas as inovações que permeiam o segmento em maquinários, tecidos, lavanderia, vendas, lojas, semanas de moda, entre outros.


Maria José iniciou a discussão valorizando o custoxbenefício e a proximidade com o cliente. “Temos que trabalhar com um custoxbenefício interessante porém oferecendo inovações e o que mais precisarem em termos de modelagem, lavanderia. A proximidade com o cliente é a receita de sucesso, é o consumidor final que manda em todos nós”, comentou Maria José da Capricórnio Têxtil, empresa que está há 70 anos no mercado. Márcio Coimbra da Santista Têxtil que foi criada em 1929, abordou o conceito: “BTP – Business to People” valorizando mais uma vez o cliente e suas necessidades e investindo também na melhor experiência de compra, na criatividade da fiação ao acabamento, conciliando moda, qualidade de vida e proteção. “A empresa possui nowhow em diferentes tecnologias como o artigo que repele mosquitos, o bem-estar no produto anti-celulite ou o confort dos produtos fitness”, disse Márcio Coimbra.


Oto Rafael da Cedro companhia que está há 145 anos no segmento têxtil disse que é fundamental o setor se unir, se reinventar, ouvir os clientes e investir em novos processos e produtos. “A empresa está passando por uma reformulação, a nível de pessoal para pensar como a confecção pensa, para melhorar a qualidade, o mix de produtos que atualmente atende os segmentos infantil, adulto – masculino e feminino com diferentes tecnologias e, linha premium. Criamos uma equipe que conversa com as lavanderias, essa troca de informações é muito importante. Temos que acreditar, colocar amor, desejo naquilo que fazemos”, explicou Oto Rafael.


A Canatiba que está presente há mais de 40 anos no mercado estava representada por Fábio Covolan que está ha 13 anos na empresa familiar que mantém como marca registrada a ousadia. “Nosso lema sempre foi – ou a gente se mexe ou morre porque estamos cercados de gigantes. É preciso olhar para o mercado para descobrir onde estão as oportunidades de melhoria nos negócios, para informar nossos clientes, solucionar problemas e divulgar informações de como utilizar melhor nossos artigos. Criamos um centro de capacitação em nossa unidade fabril, montando uma lavanderia para aprender como tirar o máximo proveito de nossos produtos, gerando negócios tanto para nossa empresa quanto para nosso cliente, inclusive reduzindo custos”, afirmou Fábio.


Eleonora contou que a Santanense está no mercado há 126 anos e nessa caminhada vem passando por diferentes transformações. A empresa trabalha com denins colors voltados para moda e roupas profissionais e vem apostando em novas propostas e produtos com acabamentos tecnológicos. Eles também estão transformando o pensamento dos profissionais valorizando não somente a venda do produto mas também do bem-estar e do prazer para vestir uma roupa confortável e interessante para o consumidor. Eleonora destacou ainda que a Santanense vem observando cada vez mais as necessidades do público super globalizado. “Estamos buscando a flexibilidade dos colors tanto no global quanto no local, reunindo inovação, tecnologia e criatividade”, comentou Eleonora.


Custo Brasil


Segundo Maria José, o Brasil exporta pouco porque temos um mercado grande aqui. Mas para elevar o preço e qualidade nas fast fashions é preciso que melhore o rendimento do brasileiro. Falar de sustentabilidade em um país onde muitos ganham um salário mínimo irrisório, é difícil. Mas acha válido o evento Fashion Revolution que faz o consumidor buscar informações sobre de onde vem a sua roupa. Para Márcio Coimbra os custos de produção estão no limite. Oto Rafael acha que devemos atender as expectativas dos clientes, agregando valor ao produto mas não consegue repassar o preço. Ele ressaltou ainda que a carga tributária é sufocante em nosso país devido aos altos impostos, por isso perdem a competitividade com as indústrias externas. Fábio Covolan questionou o porquê de não conseguirmos ter o mesmo nível de preço das grandes cadeias internacionais. “Existe um gap dentro do mercado, ou o produto é pobre, barato, ou bem acima. Todo mundo quer ser a Zara que tem informação de moda e produtos bem feitos. O processo produtivo é pensado para conseguir um produto competitivo”, disse Fabio.Eleonora ressaltou que o custo Brasil é alto e que o consumidor quer mais porém quer pagar menos e todos precisam se empenhar para conseguir um resultado melhor.


Indústria 4.0


Estamos na chamada “Quarta Revolução Industrial”, num caminho sem volta, onde não há espaço para quem bobear, ficar parado e não acompanhar todas essas mudanças. Por tudo isso, Cristiano questionou qual seria o preço justo e o que falta para o produto brasileiro ser valorizado dentro desse contexto? Segundo Cristiano é preciso conversar mais com a cadeia, buscar informações, agregar valor.
Para Fábio Covolan da Canatiba falta conhecimento, enxergar os cases de sucesso, novas tecnologias para fazer um produto inovador e sustentável com valor percebido pelo consumidor final. Oto Rafael da Cedro acha que as pessoas estão mais vaidosas e percebem o produto com maior valor agregado, isso faz com que as companhias melhorem as coleções cada vez mais. Marcio Coimbra da Santista falou que a crise trouxe a redução de custos e preços, mas que agora precisam se comunicar mais em termos de produtos e, questinou se essa informação está realmente chegando no consumidor final. Para Maria José da Capricórnio há um desequilíbrio da cadeia, onde precisa-se ter maior profissionalização do conhecimento, fortalecimento das confecções.


Sustentabilidade X Custos


Outra pergunta feita por Cristiano se refere à questão da sustentabilidade e os custos do produto final, onde o Brasil tem uma enorme capacidade de exportar produtos sustentáveis, desde o algodão até processo final.


Maria José enfatizou que a maioria das empresas já tem certificados a mais do que a legislação exige com produtos e processos sustentáveis, reduzindo a utilização de produtos químicos, água e energia. “É preciso trabalhar esses processos e contribuir com a cadeia como um todo. Utilizar mais o laser e o ozônio e resolver esse problema do custo. Temos que conversar com a lavanderia, com o cliente e entender como desenvolver melhor nosso tecido”, comentou Maria José.


Márcio Coimbra destacou a importância de se unir para desenvolver novos produtos e investir em novos profissionais, especialistas que saibam trabalhar o jeans em si, quem sabe até criar um curso técnico ou até uma faculdade nos moldes da Jeans School, a primeira e única escola especializada no segmento, criada em 2012 em Amsterdã. “O mercado requer isso no Brasil”, afirmou Márcio. Ele ainda comentou sobre as três principais engrenagens, as quais a Santista trabalha: produto, o algodão, processo onde utilizam reciclados de tecidos, pets ou resíduos, sobras, até de fécula das batatinhas chips e engomagem com produtos naturais como o amaciante de manteiga de cupuaçu e a Sustentabilidade Social onde a empresa arrecadou jeans usados que foram doados para a Ong Florescer de Nádia Bacchi que desenvolve produtos a partir de sobras do denim.

Eleonora frisou que todas as indústrias têm as mesmas preocupações com o meio ambiente como o tratamento de efluentes, reaproveitamento de água, entre outros. Já Fábio disse que o passo principal é a sustentabilidade fazer parte do DNA da empresa como um todo, de forma mais profunda, avaliando também a longevidade da cadeia. “Não adianta falar que tem uma linha sustentável de calça jeans, se na fábrica está vazando vapor, água, ar comprimido, desperdiçando energia e recursos naturais, então eu acho que a palavra sustentabilidade tem que ser pensada de forma mais profunda, pensar sustentabilidade em termos de longevidade da cadeia e seus elos também”, comentou Fábio. Oto destacou que todo o cuidado com o meio ambiente deve fazer parte do dia-a- dia da empresa, das relações, funcionários, todos os elos da cadeia têxtil, não somente visando o consumidor final. Eleonora disse que a sustentabilidade faz parte do dia-a-dia da Santanense, é uma realidade atual, não só no conceito da parte ecológica, mas também nas relações, principalmente quando se fala em elos da cadeia, não só com os clientes, mas também com os funcionários. “A ideia é fazer com que todo mundo tenha essa percepção, não adianta nada falar e não fazer nada,”, disse Eleonora.
E dentro desse assunto sobre profissionalizar o mercado denim, Fernando Pimentel, presidente da ABIT, que estava presente no evento, falou em primeira mão que está negociando com o Senai Cetiqt, um curso com grades curriculares destinadas ao segmento.

VANESSA DE CASTRO | FOTOS: Osiris Lambert Bernardino